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	<title>Comentários em: Estranho conceito de Democracia</title>
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	<description>Ver, Ouvir e Ler os sinais de um mundo em permanente mudança.</description>
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		<title>Por: José Cerca</title>
		<link>http://mirante.aroucaonline.com/2010/01/09/estranho-conceito-de-democracia/comment-page-1/#comment-2822</link>
		<dc:creator>José Cerca</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Jan 2010 21:11:49 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Sobre o que aconteceu no nosso Parlamento, no passado dia 8 de Janeiro, e que alguns chegaram à demagogia de classificaram de &quot;dia histórico&quot; para Portugal, não resisto a transcrever aqui parte de um artigo do deputado e historiador José Pacheco Pereira, pela lucidez histórica  e realismo político que revela:

SOCORRO: Tirem-me daqui...

O  Parlamento tornou-se um ecossistema de todas as bizarrias da vida política portuguesa. Ele há dias em que de facto apetece dizer &quot;tirem-me daqui&quot;. Quando o &quot;daqui&quot; é o Parlamento, um lugar a que pertenço, onde sou parte com gosto e interesse, um lugar que, contrariamente à opinião corrente, prezo exactamente por ser uma emanação do que de mais fundo existe na vida política democrática: a diferença de opiniões, os &quot;partidos&quot; em que nos dividimos, a representação imperfeita que seja, da turbulência que é a vida política em liberdade…….

Mas há dias em que o Parlamento falha completamente, quando se torna uma pequena côterie de iluminados que querem contra tudo e contra todos, com uma superficialidade gritante, aceitando uma retórica tão inflamada como vazia, decidindo quase a brincar coisas cujas consequências não são pensadas a sério, em grande parte por modismo e por subserviência ao politicamente correcto. Ontem, o Parlamento tornou-se um ecossistema de todas as bizarrias da vida política portuguesa, um lugar puramente superstrutural, fora do país, sem laços com qualquer realidade, vivendo de uma ficção entre a festa radical chic e os movimentos da extrema-esquerda tardia, que descobriu com o atraso de trinta anos as &quot;causas fracturantes&quot;. Ontem, o Parlamento afastou-se de qualquer fundação democrática real e tornou-se apenas o espelho formal de &quot;causas&quot; ultra minoritárias, próprias de uma cultura alternativa, minoritária mesmo entre os homossexuais e lésbicas, a maioria dos quais ainda estão dentro do &quot;armário&quot;, num contexto social e etário muito diferente dos jovens que comemoravam nas escadas da Assembleia o seu dia de glória mediática. Essa maioria invisível, essa sim é que vive mal e infeliz, e estes folclores não a ajudam porque contribuem para reforçar a homofobia e não a combatê-la. 
O que mais me assusta é a irresponsabilidade de toda esta &quot;festa&quot;. Os jornais e as televisões ardem de falsa indignação quando um deputado chama palhaço a outro ou o manda a qualquer lugar feio, mas não é isso que ajuda a estragar o Parlamento: é o momento em que este, sem sequer parar para pensar, se desvia do país para navegar causas absurdas com as quais gasta as melhores das suas palavras. Quando ouvia interiormente o &quot;tirem-me daqui&quot;, foi quando assistia aos discursos grandiloquentes sobre o dia da &quot;decência&quot;, o momento de &quot;grande dignidade&quot;, a &quot;reparação dos direitos ofendidos&quot;, a dádiva da &quot;maior felicidade&quot;, com hipérbole sobre hipérbole, desde o primeiro-ministro aos Verdes, do Bloco de Esquerda ao discurso de puro insulto inflamado de um deputado da JS.
No meio disto tudo, o discurso de Vale de Almeida parecia um exemplo de moderação, apesar do seu tom de oração evangélica aos &quot;irmãos e irmãs&quot;, que fazia chorar as pedras da calçada. E mesmo Assis, que é bem melhor do que a sua bancada, colocava entre parêntesis o seu pessimismo antropológico para saudar o &quot;progresso&quot; daquele dia, em que o Sol rasgava as trevas ignaras da Reacção. Parecia o Congresso a aprovar a Declaração da Independência. Só o PCP, embora votando junto com a esquerda, mantinha uma reserva e discrição envergonhada, eles que ainda mantêm o fio da corrente ligado à terra e sabem bem que tudo aquilo é mais folclore do que qualquer emancipação de um direito. E era tudo, no fundo, tão ridículo, que eu me perguntava: será que &quot;eles&quot; não dão por ela? Se calhar não.
As principais vítimas de tudo isto serão aqueles que amam ou desejam alguém do mesmo sexo, homossexuais e lésbicas, mais os primeiros do que as segundas, que sitiados por uma sociedade que efectivamente os hostiliza e maltrata, serão vítimas de ver o seu amor ou o seu desejo ainda mais marginalizado pela exibição mais ou menos folclórica e &quot;fracturante&quot; de meia dúzia de intelectuais, pequenos e médios criadores e artistas, gente do mundo da comunicação social, das indústrias culturais, da moda, urbana, jovem, bem arranjada e chique, que em conjunto com alguns políticos, deram origem a uma pseudocausa, de um pseudodireito, o do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O Partido Socialista frágil nas suas convicções e sem uma ideia consistente para o país, que cada vez menos conhece, abriu a brecha por onde o Bloco de Esquerda entrou. E não o fez só agora, já com a legislação sobre o divórcio se andam a meter nas andanças da engenharia social &quot;fracturante&quot;, gerando uma sociedade mais fragilizada e menos justa para os fracos, como as mulheres divorciadas por carta e os homossexuais que não pertencem à beautiful people. 
A ilusão de que o acesso ao casamento quebra uma barreira simbólica que ajuda a terminar com a homofobia efectivamente existente, o argumento mais hábil de Vale de Almeida, repousa numa ambiguidade e numa hipocrisia. Porque Vale de Almeida sabe perfeitamente que ele e muitos outros a última coisa que pretendem é casar-se, ou sequer imaginam no casamento qualquer virtude especial. Eles sabem bem que o casamento é algo dos &quot;outros&quot;, não por causa da lei que os exclui, mas porque o que vem virtualmente no pacote do casamento, a instituição familiar convencional, os &quot;deveres conjugais&quot;, não correspondem ao mesmo mundo cultural e emocional do seu entendimento da &quot;causa&quot; dos homossexuais e lésbicas. Para eles o que conta é a &quot;causa&quot;, não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundo visão. Sabem que ao romper na lei a relação do casamento com a família nuclear, que implica possibilidade real da procriação, erodem para outros um valor que não desejam. 
É por isso que se trata de uma &quot;luta&quot;, não por direitos, mas contra uma determinada forma de sociedade. E é também por isso que por todo o debate mostrou uma enorme intolerância num só sentido. &quot;Fanáticos&quot;, &quot;intolerantes&quot;, &quot;retrógrados&quot;, &quot;reaccionários&quot;, &quot;aberrantes&quot;, foram palavras comuns, ecoando o que era o tom de muita comunicação social que tomou a causa como sua. &quot;Tacanhos&quot; eram todos os que se opunham ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Não é &quot;luta de classes&quot;, mas é kulturkampf.
O que irá acontecer nos próximos dias é previsível. Os primeiros casamentos de pessoas do mesmo sexo serão eventos &quot;mediáticos&quot;. Vão lá estar todas as televisões. Haverá muita festa e depois, pouco a pouco, haverá cada vez menos casamentos e cada vez menos novidade. Apenas meia dúzia de pessoas se casará, o que mostrará como era vazia a força do direito ofendido. Mas será o folclore que &quot;passará&quot;, uma espécie de travestismo perverso e o seu efeito será aumentar a intolerância homofóbica.

José Pacheco Pereira
Artigo publicado no jornal &quot;O Público&quot; de 09.01.2010]]></description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Sobre o que aconteceu no nosso Parlamento, no passado dia 8 de Janeiro, e que alguns chegaram à demagogia de classificaram de &#8220;dia histórico&#8221; para Portugal, não resisto a transcrever aqui parte de um artigo do deputado e historiador José Pacheco Pereira, pela lucidez histórica  e realismo político que revela:</p>
<p>SOCORRO: Tirem-me daqui&#8230;</p>
<p>O  Parlamento tornou-se um ecossistema de todas as bizarrias da vida política portuguesa. Ele há dias em que de facto apetece dizer &#8220;tirem-me daqui&#8221;. Quando o &#8220;daqui&#8221; é o Parlamento, um lugar a que pertenço, onde sou parte com gosto e interesse, um lugar que, contrariamente à opinião corrente, prezo exactamente por ser uma emanação do que de mais fundo existe na vida política democrática: a diferença de opiniões, os &#8220;partidos&#8221; em que nos dividimos, a representação imperfeita que seja, da turbulência que é a vida política em liberdade…….</p>
<p>Mas há dias em que o Parlamento falha completamente, quando se torna uma pequena côterie de iluminados que querem contra tudo e contra todos, com uma superficialidade gritante, aceitando uma retórica tão inflamada como vazia, decidindo quase a brincar coisas cujas consequências não são pensadas a sério, em grande parte por modismo e por subserviência ao politicamente correcto. Ontem, o Parlamento tornou-se um ecossistema de todas as bizarrias da vida política portuguesa, um lugar puramente superstrutural, fora do país, sem laços com qualquer realidade, vivendo de uma ficção entre a festa radical chic e os movimentos da extrema-esquerda tardia, que descobriu com o atraso de trinta anos as &#8220;causas fracturantes&#8221;. Ontem, o Parlamento afastou-se de qualquer fundação democrática real e tornou-se apenas o espelho formal de &#8220;causas&#8221; ultra minoritárias, próprias de uma cultura alternativa, minoritária mesmo entre os homossexuais e lésbicas, a maioria dos quais ainda estão dentro do &#8220;armário&#8221;, num contexto social e etário muito diferente dos jovens que comemoravam nas escadas da Assembleia o seu dia de glória mediática. Essa maioria invisível, essa sim é que vive mal e infeliz, e estes folclores não a ajudam porque contribuem para reforçar a homofobia e não a combatê-la.<br />
O que mais me assusta é a irresponsabilidade de toda esta &#8220;festa&#8221;. Os jornais e as televisões ardem de falsa indignação quando um deputado chama palhaço a outro ou o manda a qualquer lugar feio, mas não é isso que ajuda a estragar o Parlamento: é o momento em que este, sem sequer parar para pensar, se desvia do país para navegar causas absurdas com as quais gasta as melhores das suas palavras. Quando ouvia interiormente o &#8220;tirem-me daqui&#8221;, foi quando assistia aos discursos grandiloquentes sobre o dia da &#8220;decência&#8221;, o momento de &#8220;grande dignidade&#8221;, a &#8220;reparação dos direitos ofendidos&#8221;, a dádiva da &#8220;maior felicidade&#8221;, com hipérbole sobre hipérbole, desde o primeiro-ministro aos Verdes, do Bloco de Esquerda ao discurso de puro insulto inflamado de um deputado da JS.<br />
No meio disto tudo, o discurso de Vale de Almeida parecia um exemplo de moderação, apesar do seu tom de oração evangélica aos &#8220;irmãos e irmãs&#8221;, que fazia chorar as pedras da calçada. E mesmo Assis, que é bem melhor do que a sua bancada, colocava entre parêntesis o seu pessimismo antropológico para saudar o &#8220;progresso&#8221; daquele dia, em que o Sol rasgava as trevas ignaras da Reacção. Parecia o Congresso a aprovar a Declaração da Independência. Só o PCP, embora votando junto com a esquerda, mantinha uma reserva e discrição envergonhada, eles que ainda mantêm o fio da corrente ligado à terra e sabem bem que tudo aquilo é mais folclore do que qualquer emancipação de um direito. E era tudo, no fundo, tão ridículo, que eu me perguntava: será que &#8220;eles&#8221; não dão por ela? Se calhar não.<br />
As principais vítimas de tudo isto serão aqueles que amam ou desejam alguém do mesmo sexo, homossexuais e lésbicas, mais os primeiros do que as segundas, que sitiados por uma sociedade que efectivamente os hostiliza e maltrata, serão vítimas de ver o seu amor ou o seu desejo ainda mais marginalizado pela exibição mais ou menos folclórica e &#8220;fracturante&#8221; de meia dúzia de intelectuais, pequenos e médios criadores e artistas, gente do mundo da comunicação social, das indústrias culturais, da moda, urbana, jovem, bem arranjada e chique, que em conjunto com alguns políticos, deram origem a uma pseudocausa, de um pseudodireito, o do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O Partido Socialista frágil nas suas convicções e sem uma ideia consistente para o país, que cada vez menos conhece, abriu a brecha por onde o Bloco de Esquerda entrou. E não o fez só agora, já com a legislação sobre o divórcio se andam a meter nas andanças da engenharia social &#8220;fracturante&#8221;, gerando uma sociedade mais fragilizada e menos justa para os fracos, como as mulheres divorciadas por carta e os homossexuais que não pertencem à beautiful people.<br />
A ilusão de que o acesso ao casamento quebra uma barreira simbólica que ajuda a terminar com a homofobia efectivamente existente, o argumento mais hábil de Vale de Almeida, repousa numa ambiguidade e numa hipocrisia. Porque Vale de Almeida sabe perfeitamente que ele e muitos outros a última coisa que pretendem é casar-se, ou sequer imaginam no casamento qualquer virtude especial. Eles sabem bem que o casamento é algo dos &#8220;outros&#8221;, não por causa da lei que os exclui, mas porque o que vem virtualmente no pacote do casamento, a instituição familiar convencional, os &#8220;deveres conjugais&#8221;, não correspondem ao mesmo mundo cultural e emocional do seu entendimento da &#8220;causa&#8221; dos homossexuais e lésbicas. Para eles o que conta é a &#8220;causa&#8221;, não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundo visão. Sabem que ao romper na lei a relação do casamento com a família nuclear, que implica possibilidade real da procriação, erodem para outros um valor que não desejam.<br />
É por isso que se trata de uma &#8220;luta&#8221;, não por direitos, mas contra uma determinada forma de sociedade. E é também por isso que por todo o debate mostrou uma enorme intolerância num só sentido. &#8220;Fanáticos&#8221;, &#8220;intolerantes&#8221;, &#8220;retrógrados&#8221;, &#8220;reaccionários&#8221;, &#8220;aberrantes&#8221;, foram palavras comuns, ecoando o que era o tom de muita comunicação social que tomou a causa como sua. &#8220;Tacanhos&#8221; eram todos os que se opunham ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Não é &#8220;luta de classes&#8221;, mas é kulturkampf.<br />
O que irá acontecer nos próximos dias é previsível. Os primeiros casamentos de pessoas do mesmo sexo serão eventos &#8220;mediáticos&#8221;. Vão lá estar todas as televisões. Haverá muita festa e depois, pouco a pouco, haverá cada vez menos casamentos e cada vez menos novidade. Apenas meia dúzia de pessoas se casará, o que mostrará como era vazia a força do direito ofendido. Mas será o folclore que &#8220;passará&#8221;, uma espécie de travestismo perverso e o seu efeito será aumentar a intolerância homofóbica.</p>
<p>José Pacheco Pereira<br />
Artigo publicado no jornal &#8220;O Público&#8221; de 09.01.2010</p>
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