Exposição sobre a febre do “ouro negro” em Arouca
A exploração do volfrâmio entrou na história de Arouca de uma maneira singular, pois permitiu que, no mesmo território, convivessem, pacificamente, duas forças antagónicas que no teatro bélico da Europa se degladiavam: os ingleses e os alemães.
E esta convivência pacífica de forças beligerantes no interior das montanhas arouquenses, só foi possível graças à posição de neutralidade que Portugal assumiu nesse conflito mundial.
Foi para reviver esse marcante período da história de Arouca e para preservar ainda alguma memória desse importante época para a identidade de Arouca que, no Museu Municipal, abriu, no dia 11 de fevereiro, uma exposição sobre o volfrâmio subordinada ao tema “Histórias contadas, memórias preservadas”.
A exposição abriu com o Grupo de cantares de Cabreiros a interpretar canções populares do nosso património musical, algumas das quais com referências mesmo ao “minério”.
Artur Neves, na qualidade de Presidente da Câmara Municipal de Arouca, salientou a importância desta exposição levada a cabo pelo projeto AroucaInclui, em parceria com a Adrimag, a AGA e a própria Câmara que tutela estas entidades.
Referindo-se às ruinas em que estão transformados os complexos mineiros, quer de Rio de Frades, quer de Regoufe, Artur Neves considera-os como motivo de reflexão sobre as marcas do passado que tais ruinas traduzem, mas afirmou que esta exposição nos prova também que a defesa do património de Arouca não se pode circunscrever à recuperação destas construções. “Temos, acima de tudo, de cuidar das pessoas, dos que viram e viveram estes tempos e sabem, melhor do que ninguém, as transformações que foram ocorrendo, antes, durante e depois dessa “febre do ouro negro”. E acrescentou:
“Esta exposição, mais do que um eventual contributo histórico, ou científico, serve para fixarmos esses testemunhos, olharmos para essas histórias de vida como parte integrante daquilo que hoje somos, e que, em sociedade, temos o dever de partilhar e preservar para que não esqueçamos o que fomos e de onde viemos.”
Composta por algumas peças, objetos, fotografias e documentos de contabilidade cedidos para a exposição por diversas pessoas, esta exposição contém também importantes depoimentos e testemunhos de pessoas que ainda têm viva na sua memória a “epopeia” daquele marcante período da história de Arouca.
Passagens desses testemunhos recolhidos em vídeo, junto de informantes de diversos lugares do concelho de Arouca, fazem também parte desta exposição, através da sua transcrição escrita em diversos painéis.
A vida em Rio de Frades – um filme de 1942
Um momento que despertou grande interesse e curiosidade na abertura desta exposição foi a projeção de um filme com a duração de 16 minutos, sobre a vida no complexo mineiro de Rio de Frades, cujas imagens foram captadas há 70 anos por António de Pinho e Freitas, natural de Águeda e que era capitão do exército, destacado, nessa altura, no comando da GNR de Aveiro.
Nesse filme foram registados alguns interessantes momentos da vida dos mineiros daquele complexo, tais como a entrega do correio aos mineiros, o controlo individual de cada trabalhador para eventual deteção de minério desviado, a escolha, a separação e a lavagem do volfrâmio, bem como o seu transporte à cabeça ou aos ombros e o respetivo carregamento para os camiões.
Este é, sem dúvida, um precioso subsídio para documentar a vida mineira durante este importante período da história de Arouca. E foi com satisfação que soubemos que a Câmara Municipal de Arouca vai adquirir uma cópia deste filme em posse de João Freitas, neto do seu realizador.
Regoufe: documentos de contabilidade
Embora diferentes, mas também de grande interesse para o estudo da vida no complexo mineiro de Regoufe é um conjunto de documentos contabilísticos e administrativos, desde faturas, ofícios, folhas mensais de salários, folhas de férias, livro de ponto para o controlo da assiduidade, notas de fornecimento e mapas sobre a rolagem e extração do minério.
Datados dos anos 50 a 60 a maior parte destes documentos são dirigidos à Companhia Portuguesa de Minas, situada em Sátão, Viseu. Nalguns desses preciosos documentos pode mesmo ver-se um aviso de despedimento por “agressão a um companheiro”.
Tais documentos foram recolhidos em 1978 por alguém que, ao vê-los espalhados pelo chão em Regoufe, teve o cuidado de os recolher, consciente do seu valor histórico para a preservação desse importante período da história de Arouca.
Esperemos que esta feliz exposição seja o início de um longo processo que tenha como objetivo transformar as ruínas dos complexos mineiros de Regoufe e de Rio de Frades, num memorial a uma importante época, não só da história de Arouca, mas também da História de Portugal e até mesmo da Europa.
José Cerca
Publicado no semanário “Discurso Directo” nº195 de 17 de fevereiro de 2012
Publicado no “Jornal de Arouca” nº802 de 15 de fevereiro de 2012

{ 2 comentários… lê abaixo ouadiciona }
A exposição está muito bem conseguida e é, sem dúvida, uma importante iniciativa para que a memória das vidas passadas no tempo da “febre do ouro negro” perdure ao longo dos tempos. Parabéns a todas as entidades presentes na organização da exposição e ao autor deste blog pela sua divulgação!
olhei para este blogue durante 10 segundos e gostei. Com mais tempo lê-lo-ei com a devida atenção, sobretudo na parte que diz respeito aos testes à n/ mátria língua.
Parabéns.