A INVASÃO DO MOSTEIRO DE AROUCA

por jcerca em 24 de Julho de 2017

Durante 3 dias a Vila de Arouca e, de uma maneira especial, o seu Convento, foi  literalmente invadido por visitantes que aí acorreram para conhecerem a “História de um Mosteiro” que esta Recriação Histórica de 2017 lhes proporcionou.

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Efetivamente, de 21 a 23 de julho, as portas do Mosteiro estiveram totalmente escancaradas aos seus visitantes com os diversos espaços conventuais animados por dezenas de figurantes que pretenderam evocar, de alguma maneira, a vida desta comunidade cisterciense em princípios do sec.XIX.

Criadas a limpar, freiras a rezar, noviças a trabalhar na cozinha, na sala da cera, na rouparia, na sala de aprendizagem, na botica, ou no celeiro; freiras reunidas em Capítulo para discussão dos problemas surgidos na comunidade, ou para aplicar as admoestações a quem prevaricasse contra a regra foram algumas das cenas recriadas, durante estes dias, dentro dos espaços conventuais.
Diversas cenas nos locutórios, na enfermaria, na roda dos expostos e na Casa do despacho da Abadessa diversificaram e animaram a recriação da vida conventual.

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A eleição da nova abadessa, bem como a ceia do encerramento dos festejos da beatificação, para a qual foram convidados ilustres personalidades, enriqueceram também toda esta recriação histórica.

Mas não foram só os espaços conventuais que foram animados com diversas cenas da vida quotidiana daquela comunidade cisterciense.

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Cá fora, quer no terreiro, frente à casa dos padres, quer nas ruas da Vila de Arouca, a animação é enorme e, por entre centenas de visitantes, misturam-se nobres e fidalgos, com gente humilde, pobres e mendigos.

A prisão de Frei Simão, figura liberal da guerra civil entre miguelistas e liberais, bem como a sua deportação para Lamego, foi uma das cenas que mais animaram a vida fora do Convento. Por outro lado, a recriação do cortejo da beatificação pelas ruas da vila, com a presença dos tradicionais anjinhos, sem o incómodo acompanhamento dos seus papás, como actualmente acontece, foi também um dos momentos bem conseguidos desta recriação.

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Divertido e muito animado foi ainda o torneio poético em que diversos fidalgos ou estudantes mostraram os seus talentos, através de quadras populares, supostamente improvisadas em animado despique.

Por outro lado, o despique entre bandas musicais contribuiu também para a animação do ambiente exterior, à sombra do Convento de Arouca.

A invasão dos franceses

Estando historicamente comprovado que os franceses não chegaram à Vila de Arouca, embora assim o pretendessem, com mira na riqueza que o Convento albergava, a verdade é que a evocação da luta entre as tropas francesas de Napoleão, em 1908 e as tropas portuguesas, comandadas pelo capitão Luís Paulino, constituiu o ponto mais alto da recriação deste ano, não só pelo brilhantismo da batalha em si, como também pelo medo e pelas consequências que tal ameaça provocou na comunidade das freiras.

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Na verdade, se o aparato da batalha com os vistosos uniformes das tropas em litígio, com o potente estrondo dos canhões e das espingardas a fazerem fogo, e com o espesso fumo que os rodeava, constituiu em belo espectáculo bélico, por outro lado, a fuga das freiras, bem como o seu posterior regresso ao Convento, completaram e enriqueceram muito a edição da recriação histórica deste ano.

A música na recriação

Qualquer recriação histórica não deixa de recorrer à música, nos seus diversos estilos, quer simplesmente para animar a público, quer também para ilustrar a evocação de cenas do passado. Foi o que aconteceu também na edição deste ano em que a música desempenhou um papel importante, não só no espaço exterior ao convento, como também na evocação de algumas cenas da vida conventual.

Há, porém, dentro deste âmbito musical um aspecto que nos parece que poderia e deveria ter merecido um maior cuidado na sua concretização. Trata-se da interpretação da “Messe pour les Couvents”, uma peça para órgão de François Couperin, datada de 1690 e muito usada na França nos sec.XVI e XVII.

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Estando anunciada como um concerto de canto gregoriano e de órgão, esperava-se um pouco mais deste momento musical, não só porque era uma excelente ocasião para o público apreciar, não só a beleza artística e arquitectónica da igreja conventual, traçada pelo arquitecto maltês Carlos Gimac, presente também nesta recriação, como era sobretudo um raro momento para se poder apreciar a extraordinária sonoridade do órgão ibérico datado de 1743. Embora houvesse suficiente tempo entre este anunciado concerto e o próximo evento da recriação histórica (o regresso das freiras) a verdade é que este mini-concerto deixou no público que enchia a igreja conventual um sabor a pouco, pois apenas durou cerca de 15 minutos.

Um outro aspecto que poderia ter sido mais cuidado foi o facto dessa “messe pour les couvents” ter apenas público na igreja, quando seria suposto que o coro baixo (o cadeiral) estivesse também ocupado pelas freiras, já que se tratava de uma recriação histórica.

Da recriação ao rigor histórico

Uma recriação histórica é sempre um espectáculo, uma permanente sessão de teatro, com muitas das cenas a céu aberto e também com alguma improvisação, no entanto há que obedecer também a algum rigor histórico, não só nos factos recriados, como também nas roupas e adereços utilizados na mesma.

A coordenação técnica da edição deste ano, tal como os ensaios e a encenação foram diferentes das edições anteriores, bem como a coordenação científica que este ano esteve a cargo do Prof. Afonso Veiga e cuja supervisão dos textos nos garantiu algum rigor histórico.

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De uma maneira geral, a coordenação entre as diversas cenas e o cumprimento dos horários previamente estipulados, pareceu-nos bem conseguida.

Por outro lado, foi pena que não tivesse sido usado o espaço próprio da “Casa da Cera” e se tenha optado por improvisar um outro num exíguo corredor de passagem, mesmo ao lado do espaço original, onde funciona actualmente o salão paroquial.

Um outro aspecto que nos parece ter sido melhorado foi o recurso a amplificação sonora em determinadas cenas que, em anos anteriores, perdiam muito do seu efeito por deficiente audição, como era o caso das cenas nos locutórios ou na sala do Capítulo.

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Para terminar este apontamento, uma palavra de louvor a todos os numerosos figurantes que, durante três dias, e após muitas horas de ensaio prévio, contribuíram para o brilho de mais uma edição desta recriação histórica, a qual, pelo elevado número de visitantes que atraiu a Arouca, começará a fazer forte concorrência com a Feira das Colheitas.

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É, por isso mesmo, e pela ocasião que Arouca tem de mostrar a todos os que a visitam, de uma maneira viva e animada, a riqueza do seu melhor ex-libris, um evento a apostar fortemente pela autarquia, seja ela dirigida por quem quer que seja.

O nosso Mosteiro precisa dessa aposta e o orgulho dos arouquenses merece-o.

José Cerca

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº448 de  28 de julho de 2017

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1 Diniz Cozta 3 de Agosto de 2017 às 16:14

Subscrevo por INTEIRO, todos os comentários feitos em cada um dos “eventos”apresentados e fico feliz, pois tenho boas amizades nessa terra MARAVILHOSA, vizinha da minha que é VALE DE CAMBRA, mais propriamente, MACIEIRA DE CAMBRA.
Os meus sinceros “PARABÉNS”…
Diniz Costa
03/08/2017

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