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Arquivo da Categoria ‘Mirante escolar’

CEF, Curso de Educação ao Facilitismo

Sexta-feira, 18 de Julho, 2008

Depois das palavras violência e indisciplina nas escolas que surgiram, em catadupa, nos meios de comunicação social portugueses, sobretudo na sequência do conhecido caso do telemóvel na Escola Carolina Micaélis no Porto, a palavra que, presentemente, lhes veio ocupar o lugar nos média tem sido o vocábulo facilitismo.

E isso não terá apenas a ver com os resultados, quer das provas de aferição no 4º e 6º ano de escolaridade, quer dos exames do 9º e 12º ano, mas também com a proliferação de CEFs e de Centros de Novas Oportunidades, muitos dos quais, através de umas ligeiras pinceladas disto e daquilo, conferem diplomas a que, na maior parte dos casos, não corresponde uma adequada capacitação já não digo na cultura geral, mas nem sequer nos requisitos mínimos do ler , escrever e interpretar.

Penso que a filosofia que terá presidido à implementação dos Cursos de Educação e Formação, bem como aos Centros de Novas Oportunidades, não terá sido errada, mesmo tendo em mira a subida da estatística na qualificação académica e no sucesso escolar de muitos portugueses que, ou não tiveram ocasião de adquirirem essa qualificação, no tempo oportuno, ou que esbanjaram tais oportunidades para a adquirirem na altura certa.

Até aqui, tudo bem quanto aos princípios, mas tudo mal quanto às metodologias e às estratégias seguidas de se enveredar, a maior parte das vezes, pelo caminho do facilitismo, em prejuízo da exigência, do rigor e da responsabilidade que a sociedade requer para o salto qualitativo que, cada vez mais, se exige em todos os sectores.

Baixar o insucesso escolar pela via do facilitismo ou por métodos burocráticos será, por um lado, colocar os professores perante situações de flagrante injustiça; criar falsas ilusões aos alunos detentores de diplomas ou de certificados que pouco correspondem ao desempenho cultural da maior parte dos seus detentores.

Tal como escrevia Filomena Mónica, numa análise contundente aos exames de Português, recentemente aplicados a alunos do 9º e do 12º ano, com todo este facilitismo “estamos a formar uma geração incapaz de pensar, de falar e de escrever”.

Um caso concreto

Tem funcionado na Escola E.B.2,3 de Arouca, desde há seis anos, Cursos de Educação e Formação (CEF) nomeadamente na área de acabamentos de madeira.

No final do 2º ano do curso, que dá equivalência ao 9º ano, aos alunos que o frequentarem, há sempre um mês de estágio, em empresas locais, para uma transição para a vida activa.

Numa dessas empresas, como se necessitava de admitir novo pessoal, o gerente, em vez de abrir concurso para o preenchimento dessas vagas, perguntou aos 3 formandos estagiários se estariam interessados em trabalharem na empresa, após concluído o estágio.

Com a falta de oportunidades de emprego que existe por todo o lado, pensava o gerente que lhes estava a oferecer uma excelente oportunidade de ocupação, para mais na área para a qual supostamente se prepararam tecnicamente durante dois anos.

A verdade é que nenhum deles mostrou interesse na oferta, o que dá para pensar que, em muitos casos, não será a especificidade do curso que interessa aos alunos que nele se inscrevem, mas sim a facilidade com que podem obter o diploma do 9º ano.

Um deles, aliás, acabou mesmo por abandonar o estágio, pois, na verdade, nunca fora o curso o que lhe interessou, mas sim obter, pela via do facilitismo, o mesmo diploma que outros obtêm com muito mais trabalho, rigor e exigência.

Não será pela via do facilitismo que a escola prepara cidadãos para as exigências de uma sociedade cada vez mais competitiva. O sucesso escolar poderá, deste modo, subir nas estatísticas, mas a verdade é que baixarão, inevitavelmente, as competências mínimas necessárias para um integral sucesso na vida.

José Cerca

Texto publicado no Semanário “Discurso Directo” nº11 de 18 de Julho de 2008

Afogados em papel

Quinta-feira, 17 de Julho, 2008

Li recentemente que os bilhetes de avião em papel vão deixar de existir no fim de Junho, em muitas empresas de aviação que passarão a utilizar apenas bilhetes electrónicos.

Calcula a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA), que engloba 240 companhias aéreas em todo o mundo, que tal medida representará uma poupança na ordem dos 2.200 milhões de euros por ano e evitará o abate de 50 mil árvores.

Ora aí está uma medida economicamente inteligente e ecologicamente eficaz e oportuna, que bem mereceria ser seguida por muitos sectores da nossa sociedade, a começar pelas escolas e repartições públicas.

Numa altura em que a informatização da sociedade vai avançando, numa altura em que concursos públicos, declarações de IRS e outros procedimentos administrativos, vão sendo feitos, cada vez mais, electronicamente, poupando resmas e resmas de papel e evitando o abate de centenas de árvores, não se compreende que nas escolas, que deveriam ser as instituições mais vocacionadas para promover estas medidas económicas e ecológicas, junto dos alunos, os professores se vejam, cada vez mais, literalmente afogados em papel, muitos dos quais ninguém lerá.

Como instituição formadora das novas gerações, caberá à escola, a começar pelos seus professores e pessoal administrativo, ir libertando-se, sempre que possível, da informação em suporte papel, em benefício daquela em formato electrónico ou digital.

É que, de facto, esta é mais fácil de utilizar, é mais barata e poupa milhões de euros e de….. árvores.

José Cerca

Artigo publicado no “Jornal de Arouca” nº722 de 15 de Julho 2008

Centro Juvenil Salesiano de Arouca

Sexta-feira, 27 de Junho, 2008

Apresentação do Projecto de OTL

A ocupação formativa dos tempos livres de crianças, adolescentes e jovens, no período de férias, é uma necessidade que vai ao encontro da preocupação de muitos pais.

Consciente disso e sabendo que as actividades recreativas, culturais e desportivas podem ser uma das maneiras de ocupar formativamente o tempo livre de jovens, desviando-os da ociosidade perigosa, do sedentarismo prejudicial e desenvolvendo, ao mesmo tempo, muitas das suas potencialidades, o Centro Juvenil Salesiano, seguindo a pedagogia de D.Bosco, organizou, durante as férias de Verão, um conjunto de actividades com o objectivo de ocupar crianças e jovens no período não escolar.

Academia Cultur’arte


Aproveitando a presença de duas estagiárias do Instituto Politécnico de Viseu, a Carla Susana e a Joana que elaboraram o Projecto “Academia Cultur’arte” a implementar no Centro Juvenil, em colaboração com outros animadores, foi feita no passado dia 20 de Junho, no auditório dos Bombeiros de Arouca, a apresentação desse projecto aos pais dos inscritos.

Segundo esse projecto, pretende-se proporcionar às crianças e jovens um conceito diferente de Ocupação de Tempos Livres, fazendo desses tempos livres, espaços formativos e enriquecedores, quer individual, quer colectivamente, baseados no brincar, no criar, na exploração, na descoberta. As crianças terão a oportunidade de explorar variadas áreas, desde o teatro, o desporto, a música, até à expressão plástica, e actividades de ar livre, entre outras.

Presente Cultural

De entre as várias actividades, a programar semanalmente, foi referida a ideia do “presente cultural” que cada criança levará para casa, no final do dia.

Exemplos desses presentes poderiam ser a apresentação em casa, de um truque ou de uma habilidade, narração de uma história, reprodução de uma anedota, de um provérbio, de uma curiosidade, entrega de um texto livre ou de um desenho, elaborados durante o dia. Tais presentes teriam como objectivo, não apenas desenvolver a expressão oral, a criatividade e a auto-estima das crianças, mas também promover uma maior ligação entre o OTL e a família.

Depois da apresentação do Projecto elaborado pelas estagiárias, foi feita pela animadora Carla Costa, que coordenou o OTL do Verão passado, uma breve retrospectiva, apoiada na projecção de imagens, das principais actividades então realizadas.

José Cerca

Artigo publicado no Semanário “Discurso Directo” nº 7 de 27 de Junho 2008

Da notícia ao boato

Terça-feira, 8 de Abril, 2008

A história do aluno e da fita-cola na boca

Já estávamos a ficar cansados com a maneira exaustiva com que a história da professora, da aluna e do telemóvel na Carolina Michaelis, estava a ser relatada e comentada na comunicação social, quando uma outra surge, quase com o mesmo tipo de personagens e dentro de idêntico espaço físico. Refiro-me à infeliz história - infeliz na maneira como foi divulgada- da professora, do aluno e da fita cola de uma escola de Guimarães.

De uma maneira geral, para a maioria dos espectadores portugueses, uma notícia difundida na televisão, seja qual for o canal, é religiosamente aceite como verdade absoluta, sem que sobre a mesma seja posta, a maior parte das vezes, qualquer reserva quanto à sua autenticidade.

Mas infelizmente, nem sempre acontece, não só nas televisões, como em qualquer outro meio de comunicação social, que a notícia transmitida corresponda, com fidelidade, aos factos que a originaram.

Regra básica que qualquer bom jornalista não devia ignorar é que uma notícia, antes de ser publicada, deveria ser confirmada por duas ou mais fontes. Caso contrário, poderá não passar de um simples boato, ou de uma distorção total dos supostos acontecimentos que lhe pretenderam dar origem.

É assim que, muitas vezes, um acontecimento que deu origem a determinada notícia surge totalmente desvirtuado pela notícia escrita, lida ou áudio-visualmente transmitida em qualquer televisão.

Foi o que, ainda recentemente, aconteceu com a notícia transmitida por um canal televisivo sobre uma professora que,alegadamente, teria tapado a boca com adesivo a um aluno para o fazer calar, a acreditar no depoimento do pai desse aluno.

Tal como foi noticiada, a notícia causou uma indignada revolta em muitos ouvintes, originou uma avalanche de comentários, protestos, opiniões em dezenas e dezenas de blogues, até que surgiu o esclarecimento dos factos, tal como teriam acontecido na sala de aula. E mais uma vez, parece que a montanha pariu um rato.

O que aconteceu, efectivamente, parece não ter passado de uma brincadeira feita a pedido dos miúdos à professora, afastando logo assim, de imediato, qualquer violência antipedagógica e humilhante que a noticia fez passar para a opinião pública.
É que, quando se ouve apenas uma fonte, violando, assim, a tal regra básica de qualquer jornalismo sério e responsável, dá-se corpo não a uma notícia, mas sim a um boato, ou calúnia, que acabaria por desvirtuar totalmente os factos que a originaram.

E os factos parecem ter sido estes, tal como foram mais tarde relatados por intervenientes na referida brincadeira.

Numa turma estava uma professora e várias crianças a trabalhar com papel e fita-cola. As crianças estavam irrequietas, não se calavam, e a professora, na brincadeira, ameaçou-os que lhes punha fita-cola na boca. Um dos miúdos respondeu: “Ponha, professora, ponha!” A professora pôs, perante o riso de todos, incluindo o próprio. Ao verem aquilo as outras crianças também quiseram, e a professora fez-lhes a vontade. Depois achou que já chegava de brincadeira, tirou-lhes a fita-cola e a aula prosseguiu em boa paz e perfeita normalidade.

Até aqui tudo normal se não tivesse surgido nesta história um lobo mau, pai de um aluno desejoso de notoriedade, que conseguiu transformar uma esporádica brincadeira numa alegada violência pedagógica, e de uma divertida professora num execrável carrasco.
Mas o verdadeiro carrasco, aqui, foi toda uma comunicação social que, deixando-se levar na onda actual da violência nas escolas, nem se deu ao trabalho de conferir a veracidade dos factos relatados, confrontando-os com outras fontes, tal como mandam as regras básicas de um bom jornalismo.

E assim, em vez de uma notícia criou uma boato, um lamentável e desnecessário boato.

José Cerca