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Arquivo da Categoria ‘Mirante internacional’

Sobre o novo Acordo Ortográfico

Sexta-feira, 1 de Agosto, 2008

Já Camões escrevia,no sec.XVI, num dos seus mais conhecidos sonetos que “Todo o mundo é composto de mudança”:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades”

É óbvio que a esta mudança, tão artisticamente comprovada pelo nosso épico, a Língua Portuguesa não pode, de modo algum, subtrair-se. A própria evolução semântica, verificada ao longo dos séculos, nos comprova que qualquer idioma é um sistema vivo e não estático, que vai evoluindo ao longo dos séculos, introduzindo novos vocábulos, deixando morrer outros, ou atribuindo significados diferentes a muitos deles.

Vem isto a propósito do tão polémico “Acordo Ortográfico” que tem despoletado as mais díspares posições, colocando, de um lado, quem é radicalmente contrário á sua aprovação, e do outro, quem o apoie incondicionalmente.

Toda e qualquer mudança, seja ela a que nível for, é sempre passível, quer de apoios entusiásticos, quer de resistências à inovação. Sempre assim tem sido e o “acordo ortográfico” não será excepção, como se tem visto, aliás, em inúmeras opiniões espalhadas pelos mais diversos órgãos de comunicação social e por inúmeros blogs disseminadas no ciberespaço.

Como cidadão e como professor de Português parece-me que este acordo tem sido visto, por alguns comentadores e até por certos investigadores, apenas circunscrito ao rectângulo português, esquecendo-se de o situar no âmbito da grande comunidade lusófona que é a CPLP que engloba milhões de falantes, usando o mesmo idioma, o qual, mercê do enorme e tão variado espaço geográfico por ela ocupado, exigirá acordos num determinado conjunto de vocábulos, de modo a tornar o seu uso o mais abrangente possível. E este processo de globalização da terceira Língua mais falada no ocidente é irreversível, não obstante toda a polémica que ele tenha vindo a desencadear.

É fundamentalmente esta a filosofia subjacente a este acordo ortográfico. E como tal, apesar de o mesmo implicar pesados investimentos editoriais, estou perfeitamente aberto á sua implementação com a certeza de que dele não surgirá nenhum cataclismo linguístico. E como, desde há muito, toda a gente escreve farmácia sem a marca etimológica do ph, também se passará a escrever batismo, ótimo, adoção, atual, redação elétrico e muitos outros vocábulos, despidos agora dos apêndices etimológicos que, durante muitas décadas, os acompanharam, atestando a sua evolução semântica e fonética.

Tal como os mil réis deram lugar ao escudo e este se apagou perante o euro, sem grandes dramatismos, o mesmo acontecerá com as novas mudanças ortográficas preconizadas com a entrada em vigor do novo acordo ortográfico, que, afinal, já não é tão novo como isso, pois foi assinado em 1990.
José Cerca

Artigo publicado no Semanário “Discurso Directo”, nº13 de 1 de Agosto de 2008

Monumento às trilobites

Terça-feira, 1 de Julho, 2008

“A big moment for Arouca”


“Ao falarmos de fósseis estamos a referirmo-nos a restos ou vestígios de seres vivos que viveram em épocas geológicas mais ou menos remotas e que ficaram preservadas nas rochas que então se formaram. Desta forma, a sua descoberta e estudo científico contribuíram para o conhecimento e compreensão de diversos capítulos da História da Vida na Terra”.

Carlos Dias

Das pedras parideiras às trilobites

Logo do Geoparque AroucaFoi devido à descoberta deste tipo de fósseis - as trilobites - na louseira de Canelas que Arouca despertou a atenção da comunidade científica internacional, passando a dar-lhe notória visibilidade também no campo científico.

Se já antes das trilobites, o fenómeno geológico das pedras parideiras, no lugar da Castanheira, em plena Serra da Freita, despertara a curiosidade científica, a descoberta de raros exemplares destes fósseis do período Ordovícico, em Canelas, acabaria por redobrar e alargar essa atenção científica internacional.

Como corolário de tudo isto, surge o projecto do “Geoparque Arouca” em que o Município tem vindo a colocar todo o seu empenho.

A big moment for Arouca

Foi perante o Salão Nobre da Câmara Municipal de Arouca, completamente cheio, que no passado dia 17 de Junho, o Município deu as boas vindas a um conceituado grupo de especialistas mundiais em Geologia, oriundos da França, Alemanha, República Checa, Inglaterra, Escócia, China, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Argentina, Estónia, Noruega, Espanha e Portugal.

Foram 47 investigadores no âmbito da Geologia que participaram na 4.ª Conferência Internacional de Trilobites, a “Trilo 08″ que decorreu em Toledo, Espanha e que, como trabalho de campo prévio, se deslocaram a Arouca, antes do início dessa conferência, para tomarem contacto com os fenómenos geológicos das trilobites, das pedras parideiras e das pedras boroas.

Durante a recepção oficial a este grupo de cientistas, que manifestou todo o seu apoio à candidatura do projecto “Geoparque Arouca” às redes Europeia e Global de Geoparks, tomaram posse os corpos sociais da Associação Geoparque Arouca (AGA) que passará a ser, a partir de agora, a entidade responsável pelas acções do projecto, sendo seus principais objectivos conservar, valorizar e promover o património natural e geológico, bem como a promoção turística do Concelho.

O Prof. Dr. Artur Sá, coordenador científico do Projecto do”Geoparque Arouca”, considerou este momento, um grande momento para Arouca, para Portugal e, sobretudo, para o projecto que coordena há cerca de dois anos e meio.
Por sua vez, o Presidente da Câmara, Eng. Artur Neves, manifestou a esperança de que, no próximo ano, possamos contar com a chancela da Unesco a validar, finalmente, o projecto Geoparque Arouca.

“Vida: uma biografia não autorizada”

Estando a decorrer, no presente ano, as comemorações do Ano Internacional do Planeta Terra, fez parte da mesa que se constituiu para a recepção do grupo de investigadores, no âmbito da geologia e que visitaram Arouca nos dias 17 e 18 de Junho, a Prof. Dr. Maria Helena Henriques, coordenadora da Comissão Executiva do Comité Português para as comemorações do Ano Internacional do Planeta Terra.

Além dela, do Coordenador do Projecto do Geoparque e do Presidente da Câmara fez também parte da mesa Richard Fortey, considerado uma sumidade internacional no mundo geológico e autor do best-seller Vida: uma biografia não autorizada”.

Nessa obra, já traduzida em Português, mas ainda não existente na Biblioteca Municipal, o cientista Richard Fortey apresenta a história dos últimos quatro biliões de anos de vida na Terra, desde quando a Terra era um globo desolado, girando no espaço até à origem do Homo sapiens.

Refira-se que Richard Fortey é paleontologista do Museu de História Natural de Londres e membro da Royal Society, sendo também autor de vários livros científicos.

O monumento às trilobites

Desde que as rotundas foram inventadas, muitas delas têm sido, em qualquer terra que as possua, espaços dedicados a personagens ou a temas característicos da região em que se situam.

Aconteceu isso também em Arouca, na nova rotunda situada no cruzamento, a seguir ao Hotel S. Pedro.

Após a sessão solene de recepção, no Salão Nobre da Câmara Municipal, seguiu-se a cerimónia de inauguração do monumento às trilobites, localizado na referida rotunda.

Construído com duas enormes lajes de ardósia de Canelas, nas quais foram afixadas algumas reproduções de trilobites em metal, que se espera não venham a ter o mesmo destino que tiveram os potentes binóculos da Freita, este monumento veio embelezar mais uma das rotundas de Arouca com um motivo adequado à região e arquitectonicamente bem concebido, destacando assim uma das temáticas que está a projectar Arouca internacionalmente, no campo cientifico, através de alguns dos seus raros fenómenos geológicos, nomeadamente o das trilobites.

Trilobites & Arte

Este “big moment for Arouca” terminou com a inauguração de uma exposição, subordinada à temática das trilobites e que contou com a presença de trabalhos de expressão plástica do português Carlos Dias, bem como uma interessante colecção de trilobites, muitas das quais por ele recolhidas em Valongo.

Nessa exposição, aberta ao público na delegação de Turismo de Arouca, até dia 15 de Julho, está também presente um conjunto de trabalhos do checo Radko Saric, inspirados no fascinante mundo das trilobites.

Perante tão variado grupo de cientistas, atraídos a Arouca pelos seus fenómenos geológicos, o Município não poderia, de modo algum, deixar de os brindar com um Porto de honra, acompanhado da nossa variada doçaria conventual e regional.

Foi deste modo que terminou este “big moment for Arouca” no passado dia 17 de Junho.

José Cerca

Artigo publicado no “Jornal de Arouca” nº721 de 1 de Julho de 2008

No mundo da Blogosfera

Terça-feira, 17 de Junho, 2008

Quem, como eu, assistiu ao nascimento e ao rápido desenvolvimento da informática na nossa sociedade; quem, como eu, acompanhou o início do aparecimento da Internet e a sua vertiginosa expansão por todo o Planeta; quem, como quase todos nós, que crescemos e vivemos no mundo da digitalização e na sociedade da informação; quem como eu e quase todos nós, que presenciámos e continuamos a acompanhar o fenómeno da massificação do telemóvel, com o seu rápido aperfeiçoamento e com as suas irresistíveis sofisticações técnicas e comunicativas; quem há que não tenha já, não só presenciado e constatado, como também vivido e sentido muitos fenómenos interessantes dentro desta sociedade da informação e da comunicação em que todos vivemos.

E um desses fenómenos é o fenómeno da blogosfera que se implantou definitivamente no ciberespaço, continuando a atrair a si milhões de bloguistas nesta pequena aldeia global em que vivemos.

Aliado ao envio de SMS pelos telemóveis, o fenómeno da blogosfera é um fenómeno tão interessante como poderoso, não só no campo da mobilização, como no campo da influencia de opiniões e para o qual o poder político começa agora, lentamente, a aperceber-se dessa força na sociedade.

Basta ver o que aconteceu com a mobilização de centenas de professores através da multiplicação, em série, de SMS enviados para e por telemóveis.

Basta ver a quantidade e variedade de opiniões, por exemplo, sobre a avaliação dos professores e a força de muitas delas, surgidas em dezenas de blogs e rapidamente replicadas e comentadas em muitos outros.

O mundo da blogosfera é, de facto, uma poderosa e incontornável força que está a surgir na sociedade da informação e da comunicação e que é a expressão, não só da liberdade que os cravos de Abril vieram trazer à sociedade portuguesa, como também a expressão do exercício de cidadania que a democracia a todos oferece.

Oxalá que todos os inúmeros bloguistas, exprimindo as mais diversas opiniões e possuindo as mais diferentes convicções, quer religiosas, quer políticas, saibam pautar a sua postura no mundo da blogosfera dentro destes dois parâmetros: o da responsável liberdade e o da sã cidadania.

*****

Aproveito para saudar deste “Meu Mirante” todos os arouquenses que, em diversos blogs, vêm intervindo na sociedade arouquense, através de notícias, comentários e opiniões sobre a realidade da sua terra.

Saúdo, igualmente, todos aqueles que exercem a sua cidadania, escrevendo e opinando, nos meios de comunicação local, nomeadamente na Rádio Regional de Arouca, no “Jornal de Arouca” e no “Roda Viva”, bem como nos diversos portais noticiosos da Internet.

E saúdo, igualmente, todos aqueles que, através do novo Semanário de Arouca, irão contribuir para ver, ouvir e ler em “Discurso-Directo” todos os sinais de progresso e de desenvolvimento da sociedade arouquense a que pertencem.

José Cerca

Notícias de Moçambique

Sexta-feira, 6 de Junho, 2008

Desde há 24 anos a trabalhar como missionário salesiano em Moçambique, sua terra “por adopção”, o Pe. Zé Maria, vem de vez em quando, junto dos arouquenses, através da imprensa regional, dar notícias da sua actividade em terras de Moçambique.

Desta vez, é através deste novo Semanário a quem ele saúda e deseja os maiores êxitos na sua missão informativa, junto da comunidade arouquense, que ele se dirige aos arouquenses.

Na sua mensagem começa por manifestar o seu contentamento pelo postal de aniversário que recebeu, por ocasião dos seus 78 anos, assinado por um grupo de amigos arouquenses:

“Que alegria me trouxe! Obrigado põe ele, pela amizade, pelo bem que fazeis nesse ambiente e pela oração partilhada. 1000 vezes “Kanimambo” (obrigado em ronga) ou “Mbongile” (obrigado em txopi).

E continua dizendo que “Arouca e Mogofores são duas terras que trago no coração com carinho especial: foram elas onde eu passei mais tempo do meu sacerdócio jovem e onde convivi com gente tão boa, tão amiga e tão generosa…..Tudo isto sem prejuízo dos 24 anos últimos gastos aqui e que me marcaram profundamente: pela pobreza desta gente, pelos jovens tão carenciados, pelos anos difíceis da guerrilha (com falta de tudo, quase) e pela “semente do Evangelho” que vamos semeando por estas terras. Gente sofredora. Gente boa e amiga.”

Falando um bocadinho de si, diz que “continua a sentir-se bem”, para mais este ano em que faz 50 anos de ordenação sacerdotal.

Relativamente à nova comunidade em que agora se encontra, desde há um ano, a Escola Profissional de Inharrime, na província de Inhambane, o Pe. Zé Maria diz que ela, com os cursos de Serralharia, Mecânica, Carpintaria, Construção civil e Electricidade, prepara cerca de 300 jovens para a vida, “uma vida digna, também com a evangelização possível”. Refere ainda que a comunidade cristã que começou há 5 anos “vai crescendo e qualificando-se cristãmente. Isto dá alegria. Devagar, mas vai indo.”

Antes de terminar esta mensagem, este missionário salesiano expressa o seu sentido agradecimento a todas as pessoas, que “com a sua oração, o seu sacrifício, a sua oferta e a sua amizade, nos ajudam e encorajam na formação e na evangelização do querido povo de Moçambique”.

E termina com um “Kanimambo” também ao director e responsáveis do novo Semanário.

“Obrigado-kanimambo, pois, a todos!”

José Cerca

Artigo publicado no Semanário “Discurso Directo” nº5 de 6 de Junho de 2008

Recorda-se que continua aberta na Caixa Geral de Depósitos a conta nº0111022172730, onde qualquer pessoa poderá depositar o seu contributo para apoio à actividade missionária do Pe.Zé Maria.

Inverno demográfico

Sábado, 10 de Maio, 2008

A expressão “Inverno demográfico” surgiu num relatório apresentado há dias no Parlamento europeu pelo Instituto de Política Familiar e revela a grande preocupação pela situação que se está a viver na Europa, no que se refere ao crescimento demográfico.

De facto, segundo esse estudo, mais de 54 milhões de europeus vivem sozinhos e dois em cada três lares não têm nenhuma criança, daí que seja fácil concluir-se que os europeus estão a ficar cada vez mais velhos, sozinhos e sem filhos.
Segundo o mesmo relatório europeu, relativamente a 1980, nascem cerca de menos um milhão de crianças por ano. Por sua vez e nos últimos 27 anos, a Europa perdeu mais de vinte milhões de jovens, enquanto a população com mais de 65 anos aumentou em 23 milhões, superando assim os 80 milhões em 2007, o que representa 17 por cento da população europeia.

Esta preocupação demográfica, sendo real, traduz, de certo modo uma certa contradição e uma escondida hipocrisia, no sentido em que, em muitos casos, são as mesmas forças política que lutaram afincadamente pela legalização do aborto, que vêm agora defender políticas de apoio à família e de incentivo à natalidade, como medida para descongelar este “inverno demográfico” em que a Europa está a mergulhar, desde há algumas décadas.

Mas a este “Inverno demográfico” não será, certamente, alheia a situação que se vive nos 27 países da União Europeia, relativamente à prática do aborto.

Segundo o mesmo estudo sobre a evolução da família na Europa em 2008, são praticados por ano, na Europa, mais de um milhão e 200 mil abortos “o que equivale a um aborto em cada 27 segundos”.

“O aborto, juntamente com o cancro, é a primeira causa de mortalidade na Europa“, refere o documento, acrescentando que cada dia deixam de nascer na Europa 3.199 crianças.

No dia da Europa que ontem se celebrou e que ficou assinalado em Portugal com a assinatura do decreto-lei que ratifica o Tratado de Lisboa, firmado pelos 27 Estados-membros da EU, a 13 de Dezembro de 2007, esta preocupação sobre o decréscimo da natalidade na Europa, deverá fazer reflectir os responsáveis políticos sobre as urgentes medidas a serem tomadas em defesa da família e da natalidade, de modo a que este “Inverno demográfico” se venha a transformar numa urgente Primavera demográfica.

José Cerca