Tem cabras, ovelhas, vacas, campos de batatas e milho e até vinho americano. Mas tudo real, nada virtual como nos trabalhadores facebokianos do FarmVille.
É o Zeca Zulmiro, pastor e agricultor em Albergaria da Serra, outrora das cabras, mas que também tem a sua página na rede social do Facebook.
- “Gostu du que faço, passear cabras e fazer os campitos nestes arredores” – deixa ele numa das mensagens do seu cantinho da rede social.
Tendo apenas o 4º ano de escolaridade este pastor facebokiano usa a rede social nos tempos que lhe sobram da pastorícia e das lides agrícolas para interagir com os seus amigos virtuais.
A seu pedido, adicionei-o como amigo no meu FB, há dias, e foi a partir daí que comecei a conhecer, virtualmente, este típico pastor da nossa serra da Freita.
Mesmo através de uma escrita, que se afasta, frequentemente, da norma linguística, Zeca Zulmiro consegue exprimir muito bem, através da sua castiça linguagem, toda a autenticidade da vida serrana, bem como a simplicidade da vida campesina e a espontaneidade coloquial do seu discurso.
Ainda novo nestas lides da internet e das redes sociais, acabou de aprender há dias que, de acordo com o código da internet, (a netiqueta), escrever sempre em letras maiúsculas, quer dizer, do lado de cá, que se está zangado ou a berrar com alguém.
- “Obrigado Zé Cerca, graças a ti já sei escrever a não berrar”
Mesmo principiante, já sabe colocar eventos no Facebook para convidar quem quiser colaborar nas suas lides agrícolas, quer seja apanhando batatas, quer seja cortando a bandeira do milho.
-“Tá a chegare a bandeira do milho….Im bez de ir pa praia daqui, binde-me ajudar. É fácil, é só cortar e butar pa traz.
E para os mais indecisos tenta seduzi-los com a pinguita:
- “Bim-de mas é ajudar na bandeira do milho. Depois dou binho do bo.”
E volta a insistir mais à frente:
- “Binde, que depois há festa em minha casa. Binde ter ao Café e bamos pó campo. Binde, passai a mensage a todos os vossos amigos”
Pois é…., se ainda fosse trabalhar no FarmVille não faltaria gente. Agora trabalhar no duro!….. Então, como ninguém apareceu lá vem o desabafo com toda a sua sinceridade, alguma ironia e um certo espírito de brincalhão:
- “Ubrigado, ninguém apareceu, também bobi o binho todo!”
Mas antes do anúncio para a bandeira do milho, Zeca colocou outro para a apanha da batata:
- “Amanhã apanha da batata, apareço, nau faltem. Preciso de vocês. Fui hoije ha cuprativa da parte da manhã cumprar enxadas pra manhã. Preciso de vocês. Venham há batata. Dou binho!
É surpreendente ver como este pastor serrano utiliza as novas tecnologias ao serviço da sua atividade na serra ou no campo. E até a máquina fotográfica usa para mostrar como ficaram as suas couves. E a comentar a foto da couve este desabafo:
- “O bicho lixou-me a coibe toda este ano!….”
Mas se o bicho lhe lixa as couves, por vezes são as moçoilas que dão cabo do nosso pastor, que, pelo que parece até tem muito bom gosto:
- “Cá em cima é só xixa boua. Hoje fiquei apaixonado por uma menina que tava perto da praia de Albergaria!”
Bem, tenho mesmo que sair do virtual e passar ao real, subindo a serra da Freita para ir ao encontro deste pastor tão castiço e, para já, meu amigo virtual no Facebook.
José Cerca
Publicado no quinzenário “Jornal de Arouca” nº792 de 15 de setembro de 2011




{ 10 comentários… lê abaixo ouadiciona }
Lindo, lindo. Isto é Arouca.
Começar o dia, lendo este artigo, deixa-me bem disposta, mas com uma saudade imensa de Arouca, aonde estive há poucos dias.
Muito interessante todo este relato acerca do Zeca Zulmiro que dá vontade de conhecer. Deliciosa a parte em que diz que como ninguém apareceu bebeu o vinho todo. Era o mínimo que podia fazer.
Obrigado Prof. Cerca por ir partilhando connosco histórias deliciosas como esta. Boas férias.
Miguel
Como nós Zé Maria,conhecemos isto tão bem…..è verdadeiramente um paraíso. Ar puro..paisagem linda de morrer…silencio… e tudo mais que se possa imaginar.
Prof José Cerca, em primeiro quero lhe dizer que por motivo de força maior não estou mais no facebook ,mas estou aqui no Arouca Biz ,acompanhando o Professor,e ainda bem pois foi delicioso ler este post acima,simplesmente Fantástico ,Obrigado prof José cerca.
Armando Pinho
Gostei de ler os textos do Zeca Zulmiro. São genuinos , transparentes e originais. Eu lamento não poder aparecer para a colheita da batata, apesar de ter enxadas novas disponiveis, mas eu, não tenho jeito nenhum para o efeito. De certeza que a grande maioria das batatas eram cortadas pela enxada.Um abraço de amizade
Zeferino Brandão
É de facto uma delícia. Obrigada.
Espreitando da cidade o som que faço pronunciar e proveniente da escrita desenhada que traduz a oralidade do agricultor serrano Zeca Zulmiro fico cheio de originalidade e com o aroma do perfume da terra sedenta de água quando recebe as primeiras chuvas.
Martinho Oliveira
Imagens maravilhosas da nossa querida Freita!
Acho que o senhor Zeca Zulmiro teve uma ideia genial ao fazer convites para o campo usando as Novas Tecnologias.
Ninguém aderiu… este ano, quem sabe para o próximo ano ele terá mais sorte!?
Como eu o entendo… mas é compensador ver as batatas, as couves, alfaces, feijão, tudo fruto do nosso trabalho… Gosto do trabalho do campo e jardim, com a ajuda do meu marido e, às vezes dos meus filhos, vamos criando aquilo que vamos comendo e assim cuidando da saúde também!
Boas férias,
Sílvia
Adorei! É por essas e por outras que de quando em vez não resisto a ir acompanhar a recolha do gado… http://meurumo.blogspot.com/2009/12/pela-serra-da-freita-hora-de-recolher-o.html
Abraço,
isto sim e a nossa linda vila de arouca a nossa terra so isto nos faz ver que se pode viver bem com muito pouco e mesmo assim ser muito feliz
felecidades para o ZECA ZULMIRO pois ele merece