OBRIGADO
Como pais da Leonor, não nos seria possível tentar seguir em frente, como tantas vezes nos incitam a fazer, sem deixar aqui umas palavras de profundo agradecimento a todos aqueles que ao longo das últimas quatro semanas, de uma forma ou de outra, estiveram connosco a partilhar momentos de angústia, esperança e desespero.
A Leonor sempre brindou todos aqueles que a elogiavam diariamente pelos seus lindos olhos, pelos seus belos caracóis, pelo seu sentido de humor ou desenvoltura na sua relação com os outros, com o seu lindo sorriso acompanhado de um sonoro «obrigado». Foi assim que lhe ensinamos a retribuir a simpatia dos outros, com humildade. Achamos que ela desaprovaria veemente se hoje, também não retribuíssemos com um nosso humilde «obrigado».
Dizem-nos inúmeras vezes que são coisas que não se agradecem porque vêm do fundo do coração. Sabemos que é verdade mas não conhecemos outro sentimento além da gratidão nem outra palavra que não seja «obrigado» para devolver toda a amizade e conforto que centenas (acreditamos até terem sido milhares) de pessoas nos manifestaram durante esta rasteira que a vida nos pregou. A dor é imensa, infinita que até nos deixa anestesiados. A saudade começa, dia após dia, a cravar as suas garras nos nossos corações. Têm-nos dito que essa mesma saudade irá ficando mais suave e mais serena à medida que o tempo for passando mas para já sentimos o tempo como nosso inimigo.

Temos chamado a nós o máximo de racionalidade possível nestas coisas pois se deixássemos o coração comandar sozinho, já teríamos explodido perante esta perda. Ao longo de duas semanas, presenciando o processo de despedida da nossa Leonor, foi sendo possível, por breves momentos de lucidez racional, definir que jamais nos iríamos fechar no sofrimento afastando os amigos, concordámos que seria necessário deixar-nos conduzir para a realização de necessidades básicas como o alimentar-nos, tomar um banho e tentar descansar, já que sozinhos não pensávamos nisso.
Muitos amigos nos deram esse apoio essencial, quer presencialmente ou por mensagens, chamadas ou procurando obter informação através de outras pessoas. Nem sempre conseguimos responder a todos, por falta de coragem, por estarmos junto da Leonor, por estarmos lavados em lágrimas, por não querer simplesmente falar, por estarmos exaustos… Compreendemos que havia momentos em que era necessário poupar energia. Mas guardamos todas as mensagens, que contamos transcrever para que nunca se percam e para que possamos voltar a lê-las nos muitos momentos de solidão que sabemos que sempre vão existir daqui para a frente.
A nossa Beatriz vai com certeza continuar a brindar-nos com o seu infinito amor mas, como lhe temos dito, terá de continuar a ser ela própria e não tentar substituir a sua mana pois cada uma é única e maravilhosa. Ficará sempre um vazio físico que dói muito ainda e a nossa mente ainda está muito presa à matéria. Procuramos nos raios de sol a presença de Deus. Queremos muito senti-Lo mas há momentos em que a nossa pequenez enquanto pecadores nos impede de alcançá-Lo. Acreditamos contudo que Ele não vai desistir de nós e que vai ajudar a nossa dor a serenar. Só então vamos conseguir segui-Lo plenamente. Dizem-nos muitas vezes «Deus precisou de um anjo» e escapa-nos de imediato uma contestação sentida «mas nós também precisamos dele!». Sabemos que um dia (esperamos que não demore muito) seremos capazes de responder «não podia ter escolhido melhor». Mas para já é humanamente impossível. Usamos a razão para nos defender da dor e isso condiciona a nossa fé. Mas acreditamos que faça parte do processo. Comentamos que durante os períodos de maior provação nem suspeitávamos que tínhamos tanta fé! Nunca prometemos coisas em troca da melhoria da Leonor, nunca tentamos fazer um negócio com Deus e os Santos mas implorámos que acompanhasse sempre a nossa menina e nos amparasse na dor. Agora sabemos que Deus e Nossa Senhora estiveram sempre lá. Só assim se justifica não termos morrido também.
Temos receio de nos esquecermos de alguém e por isso não mencionaremos nomes particulares (o jornal não teria páginas suficientes para essa extensa lista). Essas pessoas saberão reconhecer-se. O nosso agradecimento vai para todos aqueles que de alguma forma se manifestaram, mesmo através da oração, de um pensamento, contactaram connosco ou com os nossos familiares. Foram centenas de amigos, pessoas anónimas, pessoas com quem já não tínhamos contacto há anos, pessoas que quiseram partilhar experiências semelhantes numa tentativa desesperada de nos ajudar e de avivar em nós a esperança, mesmo quando o desfecho já se adivinhava… OBRIGADO a todos vós!
Mas temos de particularizar alguns grupos: o Movimento Juvenil Salesiano em geral mas muito em particular ao de Arouca, que desde o primeiro momento sofreu connosco e remexeu Céu e Terra pela Leonor: OBRIGADO.
À Banda Musical de Arouca, com um especial carinho pelos seus elementos mais jovens e companheiro de jornada da Leonor, maestro, professores, direção: OBRIGADO.
Aos Bombeiros Voluntários de Arouca, também com um especial abraço a todos os infantes e cadetes que marcharam com a nossa 206, direção e famílias com quem alegremente confraternizámos no passado: OBRIGADO.
Ao Agrupamento de Escuteiros 1302 de Rossas, que se juntou a nós nos momentos de oração e tanto apoiam a nossa filha Beatriz: OBRIGADO.
Ao Coro dos Pequenos Cantores da Paróquia de S. Bartolomeu que guardam a Leonor junto dos seus corações: OBRIGADO.
Aos educadores, professores e catequistas com quem a nossa menina desenvolveu o gosto pelo saber, aprender e interrogar pois sem vocês a sua inteligência não teria dado tantos frutos: OBRIGADO.
A todos os seus amigos, e sabemos que são muitos e verdadeiros, que fizeram da Leonor uma criança que prezava a amizade e o amor acima de tudo, que tentava compreender as diferenças e respeitá-las, e que estava sempre pronta em partir em defesa dos mais «fracos»: OBRIGADO.
Aos funcionários dos diferentes contextos que frequentou, que a Leonor sempre observou e adjetivava conforme as qualidades que ela lhes atribuía, por terem tido um papel fulcral no desenvolvimento da sua personalidade que hoje tanto elogiamos: OBRIGADO.
A todas as pessoas que se cruzaram na vida da Leonor, que lhe direcionaram um olhar aprovador, um elogio, um gesto carinhoso contribuindo para a sua elevada auto-estima e vontade de viver enquanto lhe foi possível: OBRIGADO.
Não podíamos deixar aqui de mencionar, embora provavelmente nunca venham a ler estas palavras, mas fá-la-emos chegar de outra forma, todos os profissionais de saúde e auxiliares de ação médica, desde pediatras, neurocirurgiões, enfermeiros, anestesista, auxiliares nas refeições, limpeza, motorista da ambulância, que foram incansáveis quer nos cuidados prestados quer na simpatia com que trataram a princesa. Sem a conhecerem muito bem, afeiçoaram-se a ela de imediato. Jamais esquecerei ter tido médicos e enfermeiros a chorarem e a abraçar-nos como se fossem da família. Sei que tudo fizeram para que a Leonor ficasse junto de nós, o melhor possível. Quando o melhor possível foi ir para o Céu, foi Deus e Nossa Senhora que assumiram os comandos e nós tivemos que a deixar ir. A Leonor não era só nossa, pais e irmã, mas era de todos, do mundo e da Mãe do Céu, Maria… O seu funeral foi prova disso, segundo agora nos contam pois no momento foi impossível ter a real perceção do que ali se passou. Ainda hoje são inúmeras as homenagens anónimas no cemitério: uma vela, uma flor, uma mensagem. OBRIGADO.
Como pais devastados mas esperançosos por voltar à vida pela nossa outra filha, gostaríamos que sempre que possível se mantivesse viva a lembrança da Leonor. Sabemos que ela tentará responder às vossas preces se lhe forem dirigidas. Sempre gostou de ajudar e agora com o seu cargo privilegiado e merecido, vai meter mãos à obra para que este mundo se torne um lugar um pouco para se viver. Quando vemos ou ouvimos os noticiários, percebemos porque Deus tem de chamar a si anjos como a Leonor.
A Leonor sempre gostou de conviver, de ter muita gente à volta dela, detestava brincar sozinha, e vivia a vida ao segundo. Os seus nove anos corresponderam certamente a noventa tal era a sua energia e luz. Agradecemos também à Leonor por nos ter feito tão felizes desde a sua conceção e até sempre: OBRIGADO.
Amigos da Leonor pensem todos dias nela, nem que seja por um minuto, para que ela vos possa guiar no sinuoso caminho da vida, com o coração cheio de fé e alegria, tal como ela sempre fez.
Um bem-haja a todos aqueles que ajudarão a perpetuar a memória da nossa (de todos nós) LEONOR.
Luís e Lena
Publicado no semanário “Discurso Directo” nº318 de 8 de agosto 2014




{ 3 comentários… lê abaixo ouadiciona }
convivi com a Leonor 4 ou 5 dias, no Joãozinho. A Leonor estava na cama em frente da minha Margarida. De dezenas de crianças que por lá passaram nos últimos 7 meses, a Leonor encheu o meu coração de carinho com o seu olhar brilhante, suave e doce.
Não há um dia que a Leonor não cruze os meus pensamentos. Talvez seja essa a missão que Deus lhe reservou, ajudar aqueles que estão a sofrer e suavizar a sua dor. Lembrar a Leonor faz-me sorrir, porque dela só brotava carinho, tranquilidade e amor.
A Leonor gostaria que vocês pais e irmã conseguissem, um dia destes, que o amor que ela emana supere a dor. Estou certa que nesse dia sentirão a felicidade da vossa menina-
sois uns pais maravilhosos! A vossa menina esta viva, foi um pouco cedo para junto do pai, ela esta sempre presente no nosso Coração. Leonor querida beijinhos.
Chorei da minha alma não conhecia este caso mas porque?????