Da notícia ao boato

por jcerca em 8 de Abril de 2008

A história do aluno e da fita-cola na boca

Já estávamos a ficar cansados com a maneira exaustiva com que a história da professora, da aluna e do telemóvel na Carolina Michaelis, estava a ser relatada e comentada na comunicação social, quando uma outra surge, quase com o mesmo tipo de personagens e dentro de idêntico espaço físico. Refiro-me à infeliz história – infeliz na maneira como foi divulgada- da professora, do aluno e da fita cola de uma escola de Guimarães.

De uma maneira geral, para a maioria dos espectadores portugueses, uma notícia difundida na televisão, seja qual for o canal, é religiosamente aceite como verdade absoluta, sem que sobre a mesma seja posta, a maior parte das vezes, qualquer reserva quanto à sua autenticidade.

Mas infelizmente, nem sempre acontece, não só nas televisões, como em qualquer outro meio de comunicação social, que a notícia transmitida corresponda, com fidelidade, aos factos que a originaram.

Regra básica que qualquer bom jornalista não devia ignorar é que uma notícia, antes de ser publicada, deveria ser confirmada por duas ou mais fontes. Caso contrário, poderá não passar de um simples boato, ou de uma distorção total dos supostos acontecimentos que lhe pretenderam dar origem.

É assim que, muitas vezes, um acontecimento que deu origem a determinada notícia surge totalmente desvirtuado pela notícia escrita, lida ou áudio-visualmente transmitida em qualquer televisão.

Foi o que, ainda recentemente, aconteceu com a notícia transmitida por um canal televisivo sobre uma professora que,alegadamente, teria tapado a boca com adesivo a um aluno para o fazer calar, a acreditar no depoimento do pai desse aluno.

Tal como foi noticiada, a notícia causou uma indignada revolta em muitos ouvintes, originou uma avalanche de comentários, protestos, opiniões em dezenas e dezenas de blogues, até que surgiu o esclarecimento dos factos, tal como teriam acontecido na sala de aula. E mais uma vez, parece que a montanha pariu um rato.

O que aconteceu, efectivamente, parece não ter passado de uma brincadeira feita a pedido dos miúdos à professora, afastando logo assim, de imediato, qualquer violência antipedagógica e humilhante que a noticia fez passar para a opinião pública.
É que, quando se ouve apenas uma fonte, violando, assim, a tal regra básica de qualquer jornalismo sério e responsável, dá-se corpo não a uma notícia, mas sim a um boato, ou calúnia, que acabaria por desvirtuar totalmente os factos que a originaram.

E os factos parecem ter sido estes, tal como foram mais tarde relatados por intervenientes na referida brincadeira.

Numa turma estava uma professora e várias crianças a trabalhar com papel e fita-cola. As crianças estavam irrequietas, não se calavam, e a professora, na brincadeira, ameaçou-os que lhes punha fita-cola na boca. Um dos miúdos respondeu: “Ponha, professora, ponha!” A professora pôs, perante o riso de todos, incluindo o próprio. Ao verem aquilo as outras crianças também quiseram, e a professora fez-lhes a vontade. Depois achou que já chegava de brincadeira, tirou-lhes a fita-cola e a aula prosseguiu em boa paz e perfeita normalidade.

Até aqui tudo normal se não tivesse surgido nesta história um lobo mau, pai de um aluno desejoso de notoriedade, que conseguiu transformar uma esporádica brincadeira numa alegada violência pedagógica, e de uma divertida professora num execrável carrasco.
Mas o verdadeiro carrasco, aqui, foi toda uma comunicação social que, deixando-se levar na onda actual da violência nas escolas, nem se deu ao trabalho de conferir a veracidade dos factos relatados, confrontando-os com outras fontes, tal como mandam as regras básicas de um bom jornalismo.

E assim, em vez de uma notícia criou uma boato, um lamentável e desnecessário boato.

José Cerca

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O espectáculo mediático da pequena Esmeralda

por jcerca em 4 de Abril de 2008

É deprimente e revoltante o espectáculo mediático que se instalou à volta da pequena Esmeralda.

Um espectáculo que mete pais biológicos, por sinal separados, vivendo um em cada lado e pais afectivos incriminados de sequestro por um tribunal irracional, apenas por, afectiva e efectivamente amarem, protegerem e cuidarem de uma criança à sua guarda, desde há seis anos.

Um espectáculo que mete advogados e técnicos de Reinserção social, que não passam de meros técnicos, quando deviam ser, antes de mais, pessoas humanas, ponderadas e sensíveis.

Um espectáculo que mete pedopsiquiátras e reguladores do poder paternal, num caso em que o pai original se demitiu das suas responsabilidades de progenitor, acordando agora qual Rambo salvador da sua filha e defensor dos direitos paternais a que nunca nada ligou.

Um espectáculo que mete forças policiais, jornais, televisões, tudo ingredientes mais do que suficientes para vender informação, muitas vezes transformada em desinformação e em confusão.

E no meio de todo este aparato mediático e judicial uma criança, feita objecto, joguete e bola de ping-pong entre os pais afectivos, os pais biológicos e o tribunal.

Se para nós adultos todo este aparato mediático nos confunde, nos baralha as ideias e nos revolta, que pensar da confusão que percorrerá a mente e os sentimentos da pequena Esmeralda?

Quem se preocupa com a essência da questão que é o bem-estar psicológico, afectivo e também material desta criança?

Creio bem que se o tribunal estivesse mais preocupado com a felicidade desta criança, do que com a fria e contraproducente legislação que os pais biológicos invocam, há muito tempo que este espectáculo mediático teria terminado, a bem do bem senso e, sobretudo da felicidade da própria Esmeralda.

Afinal,esta “pérola”, porque de uma pérola se trata, não apenas no nome, mas na sua essência de ser humano, bem mereceria um maior cuidado, um maior desvelo e um maior carinho, por parte daqueles de quem depende o desfecho, esperamos que feliz, de todo este espectáculo mediático.

José Cerca

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Evocando uma tragédia que emocionou Arouca

por jcerca em 1 de Abril de 2008

Faz hoje uma semana que um grave acidente, tema de notícia nacional, abalou Arouca e deixou completamente destroçada, pela dor, uma família arouquense .

Embora a milhares de quilómetros de distância não fomos também poupados à dor e à emoção desta tragédia que haveria de vitimar mortalmente uma jovem psicóloga, na flor da idade, deixando em estado muito crítico a colega, amiga e sócia que a acompanhava no momento do trágico acidente.

Integrados num grupo de 8 arouquenses tínhamos acabado de chegar a Richmond, na Virgínia, vindos de Nova Iorque e depois de uma paragem em Baltimore, para almoçarmos, quando a notícia atingiu, quase simultaneamente, os dois carros em que íamos: a Nádia morreu de acidente!….

Eram 18.45h, hora local quando esta tão inesperada, como absurda notícia, nos deixou a todos completamente abatidos.

Pelo conhecimento que todos tínhamos da Nádia, pela longa amizade que nos ligava a seus pais, esta trágica notícia deixou-nos a todos consternados, sem palavras, perante o brutal choque que tal notícia em todos provocou.

Foram momentos, sem dúvida, dolorosos para todos nós, mas em nada comparáveis à dor avassaladora que, a milhares de quilómetros de distância, atingira, inesperada e cruelmente, uma família nossa amiga que acabara de perder, trágica e absurdamente, a sua filha mais velha.

Por momentos, e quase instintivamente, cada um de nós se colocou no lugar do Fernando Costa e da Izilda para experimentar imaginar a dor que subitamente os atingira e que nenhuma palavra seria suficientemente expressiva para a descrever.

Mergulhados na impotência de nada podermos fazer, perante tão grande tragédia que desabara sobre este casal amigo de longa data e companheiro das nossas caminhadas dominicais pela Freita, restou-nos, por breves momentos e a largos quilómetros de distância, darmo-nos as mãos e, num gesto de amizade e de solidariedade na dor, implorar para o Fernando e para a Izilda aquela paz e aquela força tão necessárias para os ajudar a mitigar a dor, pela partida da sua querida Nádia.

E um porquê misturado de alguma compreensível revolta e revestido, ao mesmo tempo de um insondável mistério sobre a fragilidade da vida humana ergueu-se sobre cada um de nós, qual densa nuvem a ofuscar dolorosamente o sol radiante que até aí brilhara sobre todos nós, em plena época pascal, passada em terras da América.

Para o Fernando Costa, para a Izilda e para todos aqueles que mais dolorosamente se viram atingidos por esta fatalidade, o meu abraço de solidariedade na dor em que a crueldade do destino os mergulhou.

José Cerca

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