PARÁBOLAS DO NOSSO TEMPO
O bom samaritano
O velhinho descia os largos e longos corredores do Aeroporto internacional de Tel Aviv, em Israel. Com dois pesados sacos nas mãos e um volumoso sobretudo, pendurado num cabide que, por sua vez, escondia ainda um outro casaco debaixo desse mesmo sobretudo, o homenzinho mostrava evidentes dificuldades em controlar, com os braços e as mãos, toda a sua complicada bagagem. De uma das mãos pendia-lhe ainda uma bengala e na outra o seu bilhete que segurava afincadamente por entre os dedos.
Pelos imensos corredores daquele movimentado aeroporto, centenas de turistas cruzavam-se indiferentes às manifestas dificuldades que aquele viajante revelava. Mas essas dificuldades acabariam por chamar a atenção de um grupo de turistas portugueses, no momento em que ele deixou cair um dos embrulhos que tentava segurar com as suas mãos e braços já demasiado ocupados.
Preparando-se para regressar ao seu País depois de uma peregrinação, durante uma semana, pelos principais lugares sagrados da Terra Santa, um desses peregrinos correu logo em auxílio do velhinho, aliviando-lhe as mãos dos pesados sacos que elas tentavam, a custo, segurar.
Experimentando recorrer a algumas idiomas para tentar comunicar com este solitário viajante, apenas conseguiu aperceber-se de que era russo o que inviabilizou, à partida, toda e qualquer comunicação verbal entre eles.
De onde vinha, para onde ia, porque viajava assim sozinho num aeroporto enorme, seriam algumas das muitas perguntas que surgiriam espontaneamente, caso se conseguisse encontrar algum código linguístico comum, mas perante essa impossibilidade restava apenas o código gestual e facial entre ambos.
Juntamente com o bilhete e o passaporte, fortemente agarrados pela pinça dos seus dedos, destacava-se, escrito à mão e em letras grandes, um pequeno papel com a indicação do terminal onde ele deveria apanhar o avião rumo a Moscovo.
Bem mais aliviado e visivelmente contente pela ajuda que inesperadamente lhe surgira no momento em que mostrava dificuldades em dominar toda a sua esquisita bagagem, o velhinho lá se dirigiu para o terminal B9 acompanhado pelo seu desconhecido e inesperado samaritano.
Pelo caminho iam-se trocando algumas palavras estéreis, já que de nenhuma delas conseguia nascer qualquer comunicação verbal inteligível, mas mesmo assim uma profunda empatia se estabeleceu entre ambos, de tal modo que as palavras se tornaram desnecessárias para dar lugar à expressão de satisfação, de contentamento e de alegria que passou a brilhar no rosto de ambos.
Cego de um olho e evidenciando também sérias dificuldades auditivas, nada disso impediu, contudo, uma original comunicação entre aqueles dois desconhecidos, durante os largos minutos ao longo do percurso que os conduziria ao terminal B9. E as palavras ininteligíveis entre ambos acabaram por dar lugar a gestos de solidariedade, de ajuda e de gratidão.
Ao chegar ao terminal e depois de pousada num banco toda a sua numerosa bagagem, o velhinho pagou bem paga a ajuda que acabara de receber, através de um comovente sorriso que iluminou o seu rosto tisnado pela idade e por meio de um abraço que espontaneamente dera ao seu samaritano.
Mesmo assim não faltaram cautelosos fariseus a salientar a imprudência do gesto, a sublinhar o perigo de uma bomba que poderia estar escondida nos sacos que transportava, a imaginar um terrorista disfarçado de mendigo.
No momento em que abandonava a Terra Santa, de regresso ao seu País, esta foi, certamente, a maneira mais gratificante que este peregrino poderia encontrar para terminar assim a sua peregrinação por muitos dos lugares outrora percorridos pelo narrador da parábola do Bom Samaritano que continua hoje e em qualquer lugar com uma extrema actualidade.
Assim saibam os Samaritanos de hoje estar atentos e não fecharem nunca os olhos à realidade que os circunda.
José Cerca
(Aeroporto de Bruxelas, 10 de Setembro de 2008)
Artigo publicado no “Jornal de Arouca”, nº726 de 30 de Setembro de 2008
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