Deus é misericordioso

por jcerca em 2 de Novembro de 2009

Saramago, com  a polémica que levantou a propósito da sua última obra, inspirada numa das muitas histórias da Bíblia, não dignificou nem o nobel que lhe foi atribuído, nem a cidadania portuguesa que tem por direito.

E foi pena, pois estes dois atributos poderiam continuar a combinar muito bem, sem esta desnecessária polémica provocada mais pelo que o autor disse do que  por aquilo que escreveu em “Caim”.

A este propósito tomo a liberdade de transcrever aqui um artigo que foi publicado recentemente no Jornal Publico escrito por Bagão Félix.

Não sou apreciador da escrita de José Saramago, mas não desconsidero a sua obra literária.

Como autor e cidadão, José Saramago tem todo o direito de exprimir as suas ideias sobre tudo e mais alguma coisa. E, naturalmente, de expressar com cla­reza, frontalidade e liberdade o seu ateísmo militante. Seja nos seus livros, seja nos seus ditos.

Mas para se ser respeitado nas suas opiniões, é preciso ter-se a inteligência, a razoabilidade e a prudência de se dar ao respeito.

Uma coisa é Saramago defender o seu pensamento livre. Outra é o modo como o faz. Com acidez, arrogância, intolerância e sectarismo extremos. Pretensamente auto-dotado de uma superioridade intelectual e moral desde que foi galardoado com o Nobel acha-se pateticamente acima dos outros. Por isso, não argumenta, agride. Não opina, sentencia. Não confronta, insulta. Não esclarece, obscurece. Não convoca, pro­voca. Não fundamenta, opta pelo fun­damentalismo.

O curioso é que, depois de tudo o que diz e escreve com a liberdade de que, aliás, felizmente dispõe, estranha as posições de quem o confronta. Nada que me espante, sabendo-se do modo como tratava os “delitos de opinião”, por exemplo, quando foi director de um jornal…

José Saramago é um paradoxo: é reli­giosamente anti-religioso. O seu pro­selitismo é a expressão de uma nova moda religiosa: o ateísmo pretensa­mente humanista.

Saramago acaba de editar mais um li­vro e aproveita a ocasião para um diktat gratuito tão ao seu gosto pessoal. A Deus tudo culpa, a Deus chama tudo o que de mal possa haver, ao mesmo tempo que diz não existir. Em que fi­camos? A Bíblia, para ele, é um manual de maus costumes e um catálogo de crueldades, num recorrente certificado de menori­dade antropológica do próprio homem. Não percebe que a Bíblia (e sobretudo o Antigo Testamento) é também a his­tória da condição humana feita de luz e de sombras, do bem e do mal que coe­xistem por conta da liberdade humana. Deus não nos fez robots. Logo a seguir a Caim e Abel, Deus diz “Meu espírito não se responsabilizará indefinidamen­te pelo homem” (Génesis 6,3). Saramago olha para a Bíblia e interpre­ta-a rudemente à letra, sem contextua­lização, como se estivesse a ser escrita agora. Só lhe falta um Deus a comuni­car por telemóvel.

Saramago odeia visceral e mefistofelicamente a ideia de Deus e dos Livros Sagrados. Está no seu direito. Mas revê-se no estalinismo, nos seus gulags e pogroms, para ele, por certo, ícones dos bons costumes e das boas práticas.

Saramago é um incompreendido. Nega um Deus (que, apesar de não existir, é a causa de todos os males…) que, todavia, não é capaz de esquecer. Deus não existe mas não lhe sai do pensamento. Estranho, não é? À conta deste pesadelo, decreta impositivamente um atestado de quase insanidade sobre os que, para si incompreensivelmente, crêem em Deus. Saramago procura chamar à realidade milhões e milhões de pessoas que, ao longo dos tempos, vivem nas trevas, sem inteligência e discernimento, manipuladas por um Deus menor. Cautelosamente, o Deus menor da Bíblia que não o do Corão…

Enquanto católico, não sou nem mais nem menos pessoa do que Saramago. Mas tenho o direito à defesa dos valores em que acredito. Não me revejo nos arautos da atitude política e religiosamente correcta que, com calculista “respeitinho” pelo Nobel, se remetem a uma espécie de coligação do silêncio. Como também não perfilho a ideia da indiferença ou da contrafacção da religião. A fé é um acto de liberdade porque sem liberdade não haveria qualquer mérito em crer.

Que esta polémica de puro marketing tenha pelo menos a vantagem de levar mais cristãos a ler a Bíblia. Só por isso agradeço a Saramago.

Quanto ao resto, a publicidade não é uma medida divina. Deus é misericordioso e perdoa a Saramago.

por António Bagão Félix

In Público, 2009-10-24

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