Depois de uma interrupção de quatro anos, realizou-se de 1 a 5 de maio, a VIª edição do evento “Cister, Saberes e Sabores” organizado pela Associação Anima Património em parceria com a Câmara Municipal de Arouca, aglutinando um vasto leque de colaborações, por parte de diversas Associações e entidades do Concelho de Arouca.
Com um conjunto diversificado de atividades, este evento permitiu abrir ao público os amplos e numerosos espaços conventuais, há vários anos fechados, e durante estes cinco dias, ocupados com exposições de fotografia e de pintura, oficinas de conservação e restauro, teatro e projeção de filmes, com destaque para o “Mulheres da Beira”, realizado na Vila de Arouca em 1921.
Relativamente às exposições de fotografia, que ocuparam os longos corredores do piso superior do Mosteiro, além da exposição sobre “Diálogos abstracionistas da Água” do fotógrafo arouquense Óscar Valério, mereceu interesse especial o arquivo fotográfico de Adílio Ferreira da Silva, com numerosas fotos antigas, sobre espaços e pessoas da Vila de Arouca.
Os espaços, outrora ocupados pelos dormitórios do antigo Colégio Salesiano, foram reservados a exposições de pintura, destacando-se “Silêncio efémero” da artista plástica autodidata Maria da Glória Tavares Fernandes,e uma outra com obras diversas do artista Camol d’Évora.
Ateliers sobre técnicas de restauro, quer em pano, madeira, papel ou cerâmica, bem como oficinas de conservação e restauro de talha, pintura e escultura, ocuparam outros dos numerosos espaços conventuais. E também o linho mereceu um espaço adequado mostrando os variados artefactos que as suas diversas fases exigem, até ser obtido o preciso pano, a partir da planta do linho.
CISTER
A ordem de Cister foi fundada em 1098 na abadia de Cister na Borgonha (França). Em Portugal, os cistercienses estabeleceram-se em 1144, no antigo mosteiro beneditino em S. João de Tarouca, e, em 1153, em Alcobaça.
Em Arouca, é com a entrada de D. Mafalda, filha de Sancho I, na comunidade monacal, em 1220, que o Mosteiro, então beneditino, muda para a regra de Cister.
OS SABERES
Sendo a figura de D.Mafalda Sanchez a primeira e principal referência cisterciense no Mosteiro de Arouca, a edição deste ano escolheu-a como tema aglutinador do Colóquio “Ao tempo de Mafalda Sanchez” coordenado cientificamente pela Drª Maria Helena da Cruz Coelho.
Tendo como pano de fundo personagens e ambientes históricos relacionados com a figura de D.Mafalda Sanchez, este VI Colóquio, trouxe a Arouca um excelente naipe de investigadores medievais da Universidade de Coimbra, de Lisboa e de Évora.
As oito comunicações apresentados por estes investigadores, proporcionaram, a maior parte delas, o desvendar de aspetos históricos interessantes e que contribuíram, certamente, para um maior aprofundamento da vida deste figura tutelar do Mosteiro de Arouca, a quem se deve a introdução da ordem cisterciense.
Apesar do tema apelativo para qualquer arouquense que se preze da história do seu passado e do seu rico património cultural; apesar do brilhante naipe de investigadores convidados pela grande investigadora da história do Mosteiro de Arouca, a drª Maria Helena Cruz, foi pena verificar-se a ausência de muitos arouquenses, sobretudo daqueles que têm responsabilidades, não só culturais, como também docentes na comunidade arouquense.
OS SABORES
Além dos numerosos saberes que a ordem Cisterciense nos legou em toda a Europa, são os sabores, quer referentes a doçaria conventual, quer a licores ou outros produtos gastronómicos, aqueles que ainda hoje perduram em muitos mosteiros, constituindo, em muitos casos, um suporte económico das suas comunidades.
Por isso mesmo, a edição deste ano de “Cister, saberes e sabores” não podia deixar de incluir uma mostra/venda desses produtos, oriundos de diversos Mosteiros de todo o País que expuseram aos visitantes, no antigo refeitório do Mosteiro de Arouca, não só a sua doçaria conventual, como também os seus licores, as suas compotas, os seus frutos secos e outros produtos diversos.
O fabrico ao vivo de doçaria conventual, nomeadamente as castanhas doces com origem no Mosteiro de Arouca, foi uma atividade que mereceu a curiosidade dos milhares de visitantes que foram passando pela cozinha conventual.
Mas também os produtos agrícolas locais, nomeadamente vinhos e compotas estiveram patentes para venda ao público nos claustros superiores.
Os espaços exteriores do Mosteiro, nomeadamente a sua cerca, com a botica e as suas ervas aromáticas estiveram também abertas aos visitantes, permitindo-lhes um agradável passeio por esses espaços.
OS SONS
A animação musical foi uma componente importante na programação do “Cister, saberes e sabores” deste ano. Músicas de diversos estilos e de várias épocas, foram sendo apresentados, nos diversos espaços conventuais, ao longo destes cinco dias.
Assim, pelos CLAUSTROS superiores e inferiores ecoaram as vozes harmoniosas e polifónicas do grupo de cramois do Conjunto Etnográfico de Moldes, bem como os sons do Quarteto de Metais.
O CORO DAS FREIRAS, outrora habituado às melodias gregorianas, que as freiras elevavam a Deus, muitas vezes acompanhadas pelo majestoso órgão ibérico, que aí pontifica, foi também palco dos mais diversos géneros de música. Foi aí que a música trovadoresca do sec.XIII ecoou também numa excelente interpretação do grupo “Vozes Alfonsinas” que ofereceu ao público 15 temas de música trovadoresca de autores galego-portugueses. Foi um momento raro e culturalmente muito rico pela interpretação de melodias reconstituídas a partir de fontes medievais e interpretadas por um grupo que, desde a sua criação em 1995, se tem vindo a afirmar no panorama nacional, como um dos mais criativos e sólidos grupos musicas na área da música trovadoresca.
Mas também os sons do órgão ibérico, acompanhado de violino, de flauta e de solistas do Instituto Piaget, ecoaram harmoniosamente neste belo cenário de arte e religiosidade, onde foram interpretadas peças de importantes compositores clássicos dos sec. XVII e XVIII.
Por sua vez a SALA DO CAPÍTULO acolheu os acordes de piano que, pela mão de Ivo Brandão, acompanharam o programa “Voz dos sentidos” emitido em direto pela Rádio Informédia, de S.João da Madeira.
Mas foi a IGREJA CONVENTUAL o espaço que mais momentos musicais acolheu. Desde o Grupo Coral de Urrô, que animou a Celebração da festa da rainha Santa Mafalda, até à Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música de Fornos (Santa Maria da Feira) que encerrou o dia da festa da padroeira com um excelente concerto junto ao seu túmulo-relicário. De todos os momentos musicais, que ocorreram na Igreja Conventual foi, certamente, o Concerto do Ano da Fé, organizado pelo Grupo coral de Urrô, aquele que mais público reuniu. Acompanhado pela Orquestra Per Gaya, este Concerto reuniu mais de 100 vozes oriundas da maior parte dos coros das comunidades cristãs do concelho de Arouca.
Um outro tipo de música, bem diferente dos anteriores, teve lugar no antigo SALÃO DE FESTAS, onde atuou a Orquestra S.João Batista de Cepelos, naquilo que terá sido o último espetáculo aí apresentado, uma vez que, dentro de pouco tempo, o palco aí deixado pelos Salesianos, desaparecerá, em virtude das obras para a instalação da Biblioteca D.Domingos de Pinho Brandão, por parte da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda.
José Cerca
Publicado no semanário “Discurso Directo” nº256 de 10 de maio 2013






