Dizem os psicólogos que há períodos na vida de qualquer ser humano em que o registo das sensações vividas é mais fácil e duradouro de ficar arquivado na nossa memória.
Não sei bem ao certo quantos anos teria, mas a verdade é que, apesar da longa distância temporal, há memórias que permanecem mais profundamente gravadas do que outras, como se não houvesse espaço temporal entre elas. Estas são algumas dessas memórias.
Mal dormi naquela noite, de tão excitado que estava com a viagem que ia fazer, com o meu avô a Coimbra, na manhã seguinte daquele dia de verão.
Era ainda muito cedo quando me levantei e nos pinheiros, à volta de minha casa, já se ouvia, a essa hora, o chilrear da passarada, a anunciar novo dia.
Ainda meio sonolento e de mão dada com o meu avô, subo para a carroça da mula que me haveria de levar à cidade dos meus sonhos de criança.
Sentado no banco duro do transporte, que para mim era de luxo, percorri dezenas de quilómetros, ouvindo o chiar das rodas trilhando o asfalto da estrada e olhando atentamente a paisagem que ia surgindo aos meus olhos, deslumbrados com tudo o que ia descobrindo ao longo dos largos quilómetros percorridos.
A meio da viagem, quando o sol já ia alto, parámos num café, à beira da estrada, para comermos qualquer coisa.
Mal entrámos, um aroma a pão fresquinho, acabado de sair do forno, despertou em mim um apetite irresistível que me levou, instintivamente, a pegar num pão quente e dar-lhe logo duas sôfregas trincadelas.
- Mas que grande fome, tu tens, ó Zé Maria! – exclamou o meu avô, rindo-se para mim, enquanto eu engolia sofregamente o resto do pão quente que ainda tinha na mão.
Depois de saciada a fome e de dar de beber à mula, continuámos viagem rumo à cidade dos estudantes.
Mas se consegui saciar a fome, nesta breve paragem, a verdade é que a minha curiosidade continuava insaciável perante tanta novidade que cada pedaço da viagem me oferecia e os meus olhos não se cansavam de absorver tudo aquilo que me ia surgindo ao longo da viagem e que era tudo novidade para a minha grande curiosidade infantil.
Mas o maior impacto visual e sensorial que me surpreendeu foi quando, ao iniciar a descida para o vale do Mondego, me deparo com o enorme casario da velha cidade de Coimbra, disposto em socalcos urbanísticos, desde a alta da cidade até ao rio que a abraça.
- Vês aquela torre ló no cimo? – perguntou o meu avô, quando parámos num miradouro para admirar a linda paisagem que daí se avistava.- É a torre da Universidade de Coimbra mandada construir pelo rei D.Dinis – informou-me o meu avô.
Extasiado diante da linda paisagem que se estendia aos meus olhos de criança perguntei ao meu avô:
- Ó avô, que estrada é aquela lá ao fundo? – apontei eu, todo curioso. – Será que vamos lá passar?
O meu avô, depois de olhar para aquilo que eu apontava com os meus deditos, deu uma gargalhada e disse-me:
- Aquilo, Zé Maria, não é nenhuma estrada!…. É o rio Mondego que passa em Coimbra e que, como estamos no Verão, leva pouca água. Por isso, o seu leito, visto de longe e do alto, parece confundir-se com uma estrada, tal como tu supuseste que era.
E agora quem deu uma gargalhada, meio envergonhada, fui eu, perante a sábia explicação do meu avô.
- E já agora, Zé Maria, sabes porque é que chamam de “Basófias” ao rio Mondego?
Depois de explicado bem o significado dessa palavra, que para mim era nova, o meu avô ensinou-me algo de que nunca mais me iria esquecer.
- Chamam “Basófias” ao Mondego porque ele, no Inverno, leva muita água e mostra-se todo poderoso e fanfarrão, mas quando chega o Verão o seu caudal mal se vê no meio do areal do seu leito, a ponto de, visto de cima e à distância, fazer lembrar uma estrada, tal como aconteceu contigo há bocado.

José Cerca
13.04.2026