A água como tema aglutinador
Ocorreu no dia 22 de Julho, no salão nobre da Câmara Municipal de Arouca, a sessão de encerramento da 3ª edição da Universidade de Verão, que decorreu em Arouca de 30 de Junho a 22 de Julho.
Esta iniciativa da Universidade do Porto, em parceria com a Câmara Municipal de Arouca e com o apoio da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda tem conseguido concretizar, ao longo destas três edições, um interessante trabalho interdisciplinar, reunindo à volta de um mesmo tema um conjunto de professores e investigadores, não só da Universidade do Porto, como de outras universidades portuguesas. Abordando o tema nas mais diversas perspectivas, estes cursos têm assim contribuído para um enriquecimento cultural bastante diversificado dos alunos que os frequentam.
A água como tema central
Embora estivesse previsto, na Universidade de Verão deste ano, um módulo sobre Geologia, este acabaria por não se realizar por falta de suficiente número de candidatos.
No entanto, tem sido o Curso de História de Arte, coordenado pelo professor Manuel Joaquim Moreira da Rocha, aquele que maior êxito tem alcançado, ao longo das 3 edições.
Frequentando esta ano por 19 alunos, sendo 50% fora de Arouca e um de França (Nice) o Curso, tendo como tema aglutinador a Água, conseguiu fornecer aos estudantes perspectivas muito interessantes, quer no âmbito das arquitecturas hidráulicas em Mosteiros Cistercienses, quer das representações da água, não só na azulejaria nacional, como na pintura e ainda no âmbito das diversas simbologias ligadas à agua e referidas em inúmeros relatos bíblicos expressos, a maior parte deles, em interessantes representações iconográficas.
Um curso em contexto de Verão
Realizado em plena época de Verão, em que as férias são já uma realidade deveras apelativa, a organização destes cursos tem contemplado, na sua configuração científica e pedagógica, elementos que, sem prejudicarem a sua exigência e seriedade científicas, têm conseguido aglutinar-lhe componentes aliciantes que, indo ao encontro das realidades culturais, paisagísticas e gastronómicas de Arouca, têm contribuído para que, neste cursos se aprenda com gosto, se conviva com prazer e se descubra com curiosidade o vasto património arouquense.
Foi assim que, sempre sob a orientação da temática da água, se realizaram algumas visitas de estudo à cerca do Convento, ao Museu de Arte Sacra e à Serra da Freita, onde a contemplação da sua emblemática Frecha da Mijarela e a observação dos diversos cursos de água que formam o rio Caima, constituíram um momento de lazer e de convívio deveras apreciado por todos os participantes e para o qual contribuiu o acompanhamento e a explicação científica da Drª Daniela Rocha da Associação Geoparque Arouca.
Apreciada, como não poderia deixar de ser, foi também a prova de doçaria conventual que teve lugar na Cozinha do Mosteiro, num dos dias do Curso.
A água, da arte à música e ao cinema.
Mas se a água levou os estudantes à observação da sua representação, quer em obras de pintura, presentes no Museu de Arte sacra, quer na rica azulejaria da Sala do Capítulo, a verdade é que, foi no imponente cadeiral do coro das freiras que os participantes puderam usufruir de um relaxante
momento musical, apreciando os diversos registos, alguns dos quais imitando a água e que o Dr. Ivo Brandão conseguiu fazer vibrar através dos tubos do magnífico órgão ibérico datado de 1743 e que imponentemente pontifica neste belo espaço conventual que é o coro das freiras.
A frecha da Mijarela
Constituindo uma das belezas naturais da Serra da Freita mais visitadas, a frecha da Mijarela, em que as águas do rio Caima de despenham por cerca de 80 metros de profundidade, havia de ser, ao longo dos quatro dias que durou este módulo do Curso de Verão, um importante elemento de referência presente, não só numa das canções do Cancioneiro de Arouca, interpretada em Santa Maria do Monte, como também o cenário final e mais dramático do filme “A frecha da Mijarela” realizado em 1921 por Rino Lupo, nos estúdios da Invicta Filmes e inspirado no mesmo conto de Abel Botelho publicado em “Mulheres da Beira”em 1898.
A projecção comentada deste filme mudo pelo Dr. Hugo Barreira constituiu uma das sessões que mais curiosidade despertaria nos alunos pelas imagens raras de Arouca com cerca de 90 anos.
Do turismo cultural ao turismo científico
Foi com a presença da Vice-reitora da Universidade do Porto, profª Maria de Lurdes Correia Fernandes e da vereadora da Cultura Drª Margarida Belém, em representação do Presidente da Câmara, que teve lugar o encerramento desta 3º edição da Universidade de Verão.
Agradecendo à Câmara Municipal o apoio logístico e financeiro, a Vice-reitora acentuaria o empenho da Universidade do Porto em continuar com a sua politica de ligação a localidades mais distantes, como é o caso de Arouca, mas possuidora de uma grande riqueza patrimonial e de uma biodiversidade assinalável que importa desenvolver e aprofundar.
Por sua vez, a vereadora da Câmara manifestou o interesse da Autarquia em continuar a apoiar este tipo de iniciativas que promove não só um turismo cultural, como também um turismo do conhecimento, fazendo de Arouca cada vez mais uma importante plataforma do conhecimento científico, cada vez mais valorizado pelo raro património geológico que possui e que a integração do Geoparque Arouca na rede europeia de Geoparks é disso um importante certificado internacional que urge rentabilizar quer cientifica, quer cultural e turisticamente.
José Cerca.
Publicado in Semanário "Discurso Directo" nº117 de 30 de Julho 2010





