Convocada essencialmente a partir da rede social Facebook que alberga já um número significativo de arouquenses, esta manifestação contra as obras de requalificação da praça Brandão de Vasconcelos, marcada para o passado sábado dia 17 de setembro, acabaria por se resumir a poucas dezenas de pessoas, a maior parte delas pertencentes à equipa organizadora do protesto.
Nem sequer os membros da Associação para a Defesa do Património Arouquense e dos partidos que publicamente se manifestaram contra as referidas obras, quer através de comunicados, quer através da colocação de um cartaz na praça, tiveram qualquer representatividade significativa. Mesmo o número daqueles que virtualmente confirmaram a sua presença nessa manifestação, na referida rede social, ficou muito longe da realidade, o que parece demonstrar que é bem mais fácil manifestar-se à frente do ecrã do próprio computador, do que dar o rosto no campo de batalha.
O Projeto de requalificação
A apresentação e a discussão pública deste projeto de requalificação do centro urbano da Vila de Arouca, teve lugar no dia 5 de janeiro de 2010, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Arouca, com a presença dos técnicos responsáveis pela sua elaboração, o arquiteto José Soares e o eng.Pedro Silva, tendo o Presidente da Câmara, eng. Artur Neves, fornecido, então, também alguns esclarecimentos complementares no decorrer da sessão.
Tratando-se de uma zona histórica, quase toda ela dentro da área envolvente do Mosteiro, escrevemos na altura, na imprensa local e na blogosfera, que “fazer-se uma requalificação nestas áreas, é extremamente delicado e sempre sujeito a controvérsias.”
Embora este projeto fosse seguido de um longo período de discussão pública a verdade é que a anunciada “polémica” haveria de surgir muito tardiamente, quando parte das obras se tinham já iniciado, noutras zonas, fora da praça central da Vila e, por isso mesmo, esta manifestação nasceria já marcada, inevitavelmente, com o rótulo “fora de validade”, por mais legítima que possa ser.
Mesmo o simulacro de debate público que se realizou, ainda não há muito tempo, no Hotel S.Pedro, sofreu do mesmo defeito de extemporaneidade, além do total desconhecimento do projeto em causa, tal como foi manifestado pela maior parte dos intervenientes convidados para tal debate.
Aproveitar-se de supostas polémicas para autopromoção pessoal ou para combates partidários inconsequentes, sempre nos pareceu não ser uma boa política.
A polémica “fora do prazo de validade”
Pelas imagens que foram projetadas durante a apresentação do estudo, pareceu-nos logo que houve uma grande preocupação em não agredir todo este conjunto da praça, “conferindo-lhe uma certa uniformidade bastante estética e funcional”.
Esta ideia defendemo-la publicamente logo a seguir à apresentação do projeto e, apesar do muito que se tem escrito, ultimamente, sobretudo na blogosfera e nas redes sociais, continuamos a mantê-la ainda hoje, não obstante o respeito que ideias diferentes nos mereçam.
Num projeto como este, aliar o passado histórico com a modernidade que qualquer vila merece é tarefa muito delicada e que exige muita sensibilidade aos técnicos incumbidos de o desenhar.
Embora tecnicamente leigo no assunto, escrevemos logo após a apresentação pública do projeto, a título de recomendação que “respeitar a memória histórica destes espaços e conjugá-las com perspetivas de modernidade e de futuro são parâmetros que deverão estar sempre presentes num estudo como este”.
Pela apresentação geral do projeto, pareceu-nos que a filosofia subjacente a este estudo teve em conta estes princípios e revelou uma boa capacidade de compreensão das vivências históricas destes espaços, imprimindo-lhes, ao mesmo tempo, uma equilibrada estética moderna e funcional.
Foi por isso que nunca aderimos à contestação que muito tardiamente surgiu em Arouca sobre estas obras de intervenção e consideramos contraproducente e marcadas com o rótulo de alguma “irresponsabilidade” todas as que eventualmente venham a surgir, independentemente do direito democrático que lhes assiste.
José Cerca
Publicado no semanário “Discurso Directo” nº174 de 23 de setembro de 2011
Publicado no quinzenário “Jornal de Arouca” nº793 de 30 de setembro de 2011



{ 2 comentários… lê abaixo ouadiciona }
Caro Prof. Cerca,
Como sabe, até porque tivemos, em tempo, oportunidade de travar um pequeno debate sobre o projecto de requalificação e regeneração urbana do centro histórico da Vila de Arouca, pessoalmente, tenho uma posição relativamente moderada no que diz respeito à contestação da solução encontrada para a regeneração da Praça Brandão de Vasconcelos. De resto, como se pode aferir do artigo que recentemente fiz publicar no semanário “Discurso Directo”.
No entanto, não posso deixar de tecer algumas considerações na qualidade de presidente da Mesa da Assembleia-Geral da ADPA – Associação para a Defesa do Património Arouquense, que, com mais gosto do que justificação, chama à colação:
A apresentação pública do “Ante-projecto da Regeneração Urbana do Centro Histórico da Vila de Arouca” – como então foi denominado – teve lugar no dia 5 de Janeiro de 2010, como refere, às 17h30, facto que não é de somenos importância, pelo menos para mim que, apesar de me interessar pelos assuntos da nossa terra, trabalho fora dela. Mesmo assim, e apesar de ser uma realidade que toca a maior parte dos dirigentes da ADPA, tal facto não foi desculpa para que esta se demitisse das suas responsabilidades e deixasse de prosseguir o seu objecto estatutário.
O Ante-projecto foi objecto de analise e discussão no ponto 3 da Ordem de Trabalhos da Sessão Ordinária da Assembleia Geral da ADPA, realizada em 23 de Março de 2010, ficando já aí assente como posição unânime dos associados então presentes, o apoio a uma intervenção que visasse a regeneração de alguns espaços do centro urbano da vila, nomeadamente do Largo de Santa Mafalda, parte sul do Parque Central e da denominada Zona H7, mas, total reprovação da intervenção na Alameda D. Domingos de Pinho Brandão e da solução encontrada para a Praça Brandão de Vasconcelos.
Em sequência, a Direcção da ADPA, também com base nos contributos recolhidos naquela Sessão da Assembleia Geral, pronunciou-se e fez chegar, em tempo de discussão pública, o seu parecer à entidade competente, bem como à comunicação social local, para publicação e conhecimento geral.
À ADPA restava, pois, aguardar os procedimentos e desenvolvimentos legais e regulamentares do processo, bem como da posição da Câmara Municipal, uma vez recolhidos os contributos e findo o período de discussão pública. Mas esperava mais, deixe-me confessar-lhe! Esperava que as suas posições tivessem algum eco na sociedade civil, forças vivas e políticas, nomeadamente nos partidos da oposição à actual Câmara, para que em sedes próprias se proporcionasse maior e melhor debate até ao esperado “Projecto Final”. Pois acresce referir que, oficial ou oficiosamente, nunca tivemos conhecimento da posição da Câmara Municipal findo o período de discussão, e intuímos que esta permaneceu inalterada, intuição reforçada com a súbita transformação do ante-projecto em projecto, em total desconsideração por quem dele discordou, mesmo que responsável e construtivamente!
No tempo entretanto decorrido, a ADPA reviu-se, entre outras, nas posições assumidas pelos senhores vereadores Manuel Artur Miler e Paulo Teixeira, nas reuniões da Câmara Municipal, mantendo a esperança de que elas viessem a traduzir-se, total ou parcialmente, nos recuos e/ou ajustamentos defendidos pela ADPA. Porém, apesar do seu mérito e pertinência, tais posições, principalmente as referentes à Praça Brandão de Vasconcelos, foram reiterada e sucessivamente levadas de vencido, também por força daqueles membros estarem em minoria naquele órgão.
Dispenso-me de referir omissões e acções entretanto verificadas, que culminaram no abaixo-assinado e na manifestação do passado dia 17 de Setembro (cujas iniciativas não pertenceram à ADPA), referindo apenas que, como comprovam algumas fotografias da manifestação, estiveram presentes nessa acção, “deram o rosto no campo de batalha” (desapropriados termos, diga-se!) e fizeram ouvir a sua voz, as suas justificações e reivindicações, o presidente e o tesoureiro da Direcção, bem como o presidente do Conselho Fiscal da ADPA. O que me parece uma presença suficientemente significativa, tanto mais quando não se limitou a ser passiva.
É o que se me oferece dizer, uma vez que nem tudo foi extemporâneo, nem todos foram irresponsáveis como alude. Antes consequentes e coerentes com posições responsável e construtivamente assumidas em tempo próprio!
Com a habitual consideração,
Professor,
Concordo com quase todo o que diz.
Escrevo apenas para me solidarizar consigo, e o apoiar no ataque atroz e vil, a que esta sua opinião, que é também a de muitos ( julgo mesmo que da maioria), por parte da maioria dos elementos do grupo ( grupinho), que organizou aquela pseudo-manifestação.
Segundo eles, quem concorda com as obras é uma besta ignorante e contra Arouca, quem é contra as obras é o maior e um ser intelectualmente superior.
Não são capazes de aceitar que outros possam ter opiniões diferentes das deles, e a deles é que está correcta, não admitindo sequer discussão. Fui com essa forma de pensar que provavelmente fizeram com que muitos dos que estão contra as obras, não se revendo neste grupo, preferiram não dar a cara.
Sejam humildes!