Das quintas sociais aos talhões agrícolas
Muitos arouquenses se lembrarão ainda das capacidades produtivas dos terrenos da cerca do Mosteiro, durante os períodos em que ela esteve sob a responsabilidade do ex-Colégio Salesiano e da última comunidade religiosa que o habitou.
Os diversos produtos agrícolas aí criados, desde a fruta á hortaliça variada, sustentavam não só a comunidade dos Salesianos, como muitos desses produtos eram ainda vendidos ao público.
É triste e desconsolador ver como, em plena época de crise, ainda em fase crescente, muitos terrenos agrícolas, não só em Arouca, como pelo País todo, continuam abandonados, devido também, mas não só, a uma errada política agrícola e a um insuficiente sistema de incentivos à produção e ao escoamento dos produtos.
Infelizmente os terrenos da cerca do Mosteiro de Arouca, são também vítimas não só dessa errada política agrícola, como também de um certo desleixo e falta de coordenação relativamente à preservação do nosso património local.
As quintas sociais
Considerado inicialmente uma iniciativa muito válida e inovadora o projeto das quintas sociais da Câmara Municipal de Arouca, parece não ter ainda atingido os objetivos esperados, não tanto por falta de interessados, mas por ausência de infraestruturas nas respetivas quintas.
Mesmo assim, pensamos que, se devidamente regulamentada e suficientemente estimulada, a transformação da cerca do Mosteiro em talhões agrícolas que viessem a ser postos à disposição dos interessados, através de concurso público, seria uma maneira interessante de rentabilizar as capacidades produtivas da quinta conventual, contribuindo assim, não só para a sua manutenção, como também para enfrentar a crise que a todos afeta, de uma maneira ou de outra.
É certo quer o Mosteiro de Arouca, classificado como monumento nacional desde 1910, é partilhado na gestão do seu amplo espaço, por diversas entidades, com destaque para a Real Irmandade da rainha Santa Mafalda e para a Paróquia de Arouca, tendo estado, durante vários anos, também ocupado pela chamada “zona agrária” de Entre Douro e Minho. Isto não impedirá, contudo, de se equacionar entre todos os responsáveis pela sua gestão esta hipótese dos talhões agrícolas.
Os talhões agrícolas
Teoricamente falando, transformar a cerca em talhões agrícolas seria uma maneira de restituir a esse espaço a finalidade histórica que, desde sempre, foi atribuída a qualquer cerca conventual: a produção de alimentos para sustento das respetivas comunidades monacais cuja regra de vida se baseava, na maior parte delas, no lema beneditino “ora et labora” (oração e trabalho) que o patrono da Europa, S.Bento, instituiu para as suas comunidades monacais.
Na ausência de comunidade religiosa no Mosteiro de Arouca, o que aconteceu em 1886 com a morte da última freira ou, para sermos mais precisos, desde 1982, com a saída da comunidade salesiana do Mosteiro de Arouca, a cerca deixou de cumprir a sua finalidade específica, ficando praticamente abandonada.
Mesmo durante os anos em que aí funcionou a delegação da Região Agrária de Entre Douro e Minho, com sede em Braga, não nos parece que a cerca tenha obtido um especial aproveitamento produtivo, como seria desejável. E até a parte da cerca afeta ao Centro paroquial da Rainha Santa Mafalda deixou de produzir e de ser fabricada tal como acontecera antigamente.
Perante tudo isto seria interessante que se pensasse numa nova modalidade de rentabilizar, cultural e economicamente, a cerca do Mosteiro.
Um projeto como este, se eventualmente vier a ser ponderado, deveria contemplar não só a elaboração de um regulamento de utilização desses talhões, como também a existência de um responsável técnico que orientasse e aconselhasse os potenciais fabricadores dessas parcelas da cerca do Mosteiro.
A elaboração de uma mapa com os talhões disponíveis para concurso público e a instalação de infraestruturas, quer para a rega, quer para a guarda das alfaias agrícolas, deveriam também ser equacionadas com vistas à implementação do projeto.
Competirá, obviamente às entidades responsáveis pela gestão desse património, bem como à autarquia, estudar a viabilidade desse projeto, mesmo tendo em conta a existência de uma zona afeta a escavações arqueológicas, na cerca.
A semente da ideia está lançada ao terreno. Esperemos que germine em boa hora e com bons frutos.
José Cerca
Publicado no “Jornal de Arouca” nº794 de 15 de outubro de 2011

{ 4 comentários… lê abaixo ouadiciona }
Caro Prof. Cerca,
Todas as ideias para devolver alguma vida e utilidade à Cerca do Mosteiro parecem-me de saudar e a iniciativa de um debate sobre a questão parece-me de aplaudir. Esta sua ideia parece-me ter os seus méritos. Contudo, há muito que defendo, como há muito escrevi, que aquele espaço deveria servir para complementar um verdadeiro Museu Etnográfico de Arouca (refiro-me à antiga intenção de se conceber um Museu Etnográfico e não ao Museu Municipal, que querendo albergar tudo, alberga muito pouco e não cumpre o desiderato a que se propôs), naquilo que diz respeito às suas actividades tipicamente de exterior. Nomeadamente à instalação de um moinho em funcionamento, um canastro, palheiro e eira com todas as alfaias e uma cozinha à moda antiga, onde se pudesse conceber todo o ciclo da cultura do milho até à cozedura do pão. O mesmo para o linho. O mesmo para as compotas de fruta. O mesmo para o vinho. O mesmo para o mel. Quiça o mesmo para o azeite. No fundo, tornar permanente muito do temporário que por lá se vai fazendo por altura da Feira das Colheitas. E até mesmo um pequeno estábulo com espécies animais mais características de Arouca.
No entanto, esta minha ideia não constitui qualquer obstaculo àquilo que ora defende, podendo mesmo complementá-la. Do que ora defende e propõe apenas discordo da possibilidade dos destinatários/beneficiários temporários dos ditos talhões poderem ser pessoas particulares. Não resulta! Até porque não haverá interesse. Se particulares houver ou venham a haver com tais necessidades, parece-me que a solução, por várias razões, será mais viável no âmbito das relações particulares e privadas. Se os destinatários/beneficiários temporários do programa forem associações e/ou instituições de solidariedade social, talvez resulte.
Tal como já referi num anterior post, a ideia de revitalizar a Cerca, tem todo o mérito e pertinência, quase diria, seja ela qual for.
Mas os talhões sociais, tal como refere o Brandão Pinho anteriormente, pode não ser muito salutar (ainda que bonito e útil). Digamos que poderá ser melhor explorada e a ideia que ele apresenta contempla tudo isso e é de facto muito rica em termos culturais. E isso não invalida que não sejam particulares a desenvolverem as actividades por ele referidas, de forma viva mas coordenada e não a seu belo prazer.
Mas volto a referir, parte dos terrenos poderiam ser usados em contextos de formação de agricultura com hortas biológicas ou não. Seria muito enriquecedor em todos os sentidos e juntava-se tudo num só espaço mais os “Domingos do agricultor” que até poderiam ser semanais.
Jorge Amorim
Comentário de Custódio Gomes da Silva
Meu caro Prof. José Cerca.
Penso que o espaço a que se refere é sem dúvida, lugar carregado de simbolismo histórico que, não deve nem pode, ser tratado como o tem sido depois da saída do colégio salesiano de Arouca. A cerca do convento era o local onde outrora, monges e monjas procuravam a sua auto – suficiência alimentar. Foi-o de certo modo com os salesianos que daqui tiravam o que necessitavam e o transformaram em mercado de produtos hortícolas frescos na Vila de Arouca. Quando à algum tempo atrás entrei na cerca e reparei no abandono a que tinha sido sujeita, a tristeza que me invadiu interiormente foi fulminante. Precisa-se urgente de um projecto de reabilitação daquele espaço que o não descaracterize, que conserve o património ali construído e que mantenha a sua raiz histórica. Gostei de o ver pela feira das colheitas e senti-me bem durante as minhas horas de serviço no stand da confraria gastronómica da raça bovina arouquesa. A limpeza que ali foi feita realçou a sua beleza, mas gostaria de a ver verdejante, adornada com o lavadouro, fontanário e os edifícios de apoio restaurados.
Penso que tudo que aqui escreveu é uma grande valia para acordar consciências adormecidas. As hortas sociais seria uma solução se alguém quisesse fazer emagrecer o seu orçamento familiar procurando ali, uma actividade complementar que em muito contribuía para a redução de despesa; mas a realidade que vivemos è bem diferente: Há pessoas que têem os quintais ao abandono e compram tudo nos mercados. Pode ser que a crise que se aproxima, cada vez mais feroz, nos traga de novo a vontade de voltar aos campos.
È pena que, como aqui já foi referido, ali não funcione uma verdadeira escola agrícola que ensine os alunos a transformar a terra num lugar produtivo e asseado. Seria talvez a melhor solução para aquele espaço, se orientado por técnicos zelosos, mantendo a esperança de o tornar de novo num mercado de produtos hortícolas frescos.
Custódio Gomes da Silva
Tomo um pouco deste espaço para dizer o seguinte:
- A minha família materna, foi praticamente desenvolvida e educada na Cerca. Julgo mesmo que alguns membros tenham nascido na casa da Cerca. Daí o apelido da minha avó materna de Aninhas da Cerca mas, também viveu e faleceu o Justino do Vale Quaresma.
Em minha opinião, seria de perservar este local que já foi endereço postal, como um símbolo histórico pelas diversas actividades que aí se desenvolveram. As “hortas sociais serão um benefício público sem dúvida e há que desenvolver a ideia. Quanto ao tornar público o espaço, não sei até que ponto será óptimo mas, considerando o benefício e o malefício destrutivo da má utilização mesmo que involuntária, será de repensar a ideia e procurar alternativa da aplicação do intuíto. Julgo sem monosprezar os mentores da ideis que,
qualificar o dito espaço em obra de exemplo e mostra, mantendo sempre como ex-líbris da nossa agricultura que sempre primou como sendo a base da sobrevivência dos naturais de Arouca sem que se coloque à margem os mineiros que em determinado tempo da nossa história, também foram os mentores de tal. Concordo mas se pensarmos bem não será o melhor mas o adequado ao momento. Boa sorte Arouca!