A BELA ADORMECIDA

por jcerca em 26 de Outubro de 2011

Olhares literários sobre Arouca

Coube a uma ilustre arouquense, a Professora Doutora Maria de Lurdes Correia Fernandes, vice-reitora da Universidade do Porto, a apresentação destes 25 “olhares literários sobre Arouca”, coligidos por José António Rocha, natural de Mansores, sob o sugestivo título de “A Bela Adormecida” e que contou com a ilustração, muito ao seu estilo surrealista, de um outro arouquense e bem conhecido como artista plástico, Carlos Belém. Embora fisicamente ausente, Carlos Belém esteve bem presente pela referência artística e pelo testemunho de amizade e de espirito criativo que dele deu o autor desta obra, e que outrora fora seu aluno na Escola Secundária.

A apresentação desta obra teve lugar no auditório da Biblioteca Municipal de Arouca, no passado dia 21 de outubro, estando presente a vereadora da Cultura, Drª Margarida Belém que considerou esta obra como uma “excelente ferramenta de trabalho para a comunidade educativa de Arouca”. Por isso mesmo o autor decidiu oferecer aos alunos e professores de Português, não só da Escola Secundária, como também do Agrupamento de escolas de Arouca e de Escariz cerca de 1500 exemplares, para que os excelentes textos sobre Arouca aí coligidos possam ser trabalhados pelos alunos nas escolas.

Participaram neste sessão de apresentação alguns alunos da Escola E.B.2,3 de Escariz e da Escola Secundária, cabendo-lhes a leitura de alguns textos literários desta coletânea, bem como o seu acompanhamento a flauta.

A sessão de lançamento terminaria também com um momento musical levado a cabo pelo Grupo Cultural e Recreativo de Rossas.

Os olhares literários

Percorrendo alguns destes 25 olhares literários sobre Arouca, a vice-reitora da Universidade do Porto, além de referir a felicidade da escolha do título para esta coletânea, inspirado, aliás, na designação que Jaime Cortesão atribuiu a Arouca quando a visitou nos anos 50 do séc. passado, Maria de Lurdes Correia Fernandes acentuaria esta pluralidade de olhares sobre uma terra que já foi visitada por alguns dos grandes autores da literatura portuguesa e que sobre ela registaram as mais variadas emoções e perceções que então sentiram.

Deste roteiro literário sobre Arouca, guiado por diversos autores, a apresentadora destacou o texto de Abel Botelho que mais tarde daria origem ao filme “A frecha da Mizarela”, bem como o texto de Aquilino Ribeiro lido por uma aluna da Escola Secundária.

Desta multiplicidade de olhares sobre Arouca, revelando diferentes sensibilidades, há uma nota comum à maioria dos autores coligidos, os quais conferem uma natural e bem justificada centralidade ao Mosteiro de Arouca, destacando o rico património artístico que ele alberga.

Como exemplo deste olhar, Maria de Lurdes Fernandes destacou a descrição que José Saramago fez sobre uma sua visita ao Museu de Arte Sacra de Arouca, publicada em 1981 no seu “Viagem a Portugal”. Esta descrição será, certamente, desconhecida da maioria dos arouquenses mas, a partir de agora, ficar-lhes-á muito mais acessível, graças à publicação destes “olhares literários sobre Arouca”. Esta minuciosa e interessante descrição do nosso Prémio Nobel foi também lida por uma outra aluna da Escola Secundária.

Um projeto com algumas frustrações

Depois desta viagem literária, brilhantemente conduzida por Maria de Lurdes Correia Fernandes, coube ao autor, José António Rocha, falar não tanto do livro em si, mas sim das suas vivências pessoais que marcaram a sua vida e que, de algum modo, o conduziram à génese desta obra.

Depois de referir os apoios que recebeu e de agradecer os direitos de autor dos diversos escritores aqui coligidos neste “Bela Adormecida”, José António Rocha referiu algumas frustrações que foi encontrando ao longo do projeto a que meteu mãos.

No seu entender, tal como terá sido seu desejo inicial, a Câmara deveria ter assumido a edição total desta obra, o que acabaria por não acontecer, limitando-se a comparticipar apenas parcialmente nos custos editoriais, obrigando assim o autor do projeto a ter de bater a muitas outras portas.

Uma outra frustração manifestada pelo autor refere-se ao desejo de incluir, como complemento a esta coletânea, um DVD com o filme baseado no conto “A Frecha da Mizarela” de Abel Botelho e que foi realizado por Rino Lupo em 1921.

Seria certamente um complemento muito interessante a esta obra mas que acabaria por não se concretizar por motivos financeiros, mesmo depois do autor ter conseguido os direitos de edição desse DVD.  Assim, apenas constam alguns fotogramas desse filme a ilustrarem as páginas deste “Bela Adormecida”.

A Bela adormecida

Se alguma conotação existe entre Arouca e o conto clássico de fadas cuja personagem principal é uma princesa que é enfeitiçada para cair num sono profundo, até que um príncipe encantado a desperte com um beijo, a verdade é que a realidade de Arouca nos últimos anos parece mesmo provar que essa princesa já despertou, atraindo a si a atenção dos olhares que durante muitos anos a ignoraram.

E esta coletânea, em tão boa hora concebida e, felizmente, concretizada será certamente mais um belo contributo, qual beijo de príncipe, a manter cada vez mais desperta e encantadora esta “Bela adormecida” que é Arouca.

José Cerca

Excerto da “Frecha da Mizarela” interpretada pelo Grupo Cultural e Recreativo de Rossas no lançamento do livro “A Bela Adormecida” em 22.10.2011

Publicado no “Jornal de Arouca” nº795 de 31 de outubro de 2011
 

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