“A memória de um Mosteiro“

por jcerca em 30 de Outubro de 2011

Concerto de órgão e voz assinala o seu lançamento

Com um programa cultural do qual constou o lançamento da última publicação sobre o Mosteiro de Arouca e também um concerto de órgão, a Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda realizou no domingo 30 de outubro o 1º Dia do Irmão.

Decidiu a mesa desta instituição organizar anualmente um encontro de convívio com todos os irmãos, de modo a estabelecer entre eles um melhor conhecimento e uma maior aproximação e dar-lhes conta do funcionamento e das principais atividades da Instituição a que pertencem.

Refira-se que esta instituição é uma das mais antigas do Concelho de Arouca, tendo sido fundada em 1886, não só para preservar o valioso património do Mosteiro de Arouca, após a morte da última freira, como também para festejar condignamente a festa da Rainha Santa Mafalda, no dia 2 de maio de cada ano.

Almoço no antigo refeitório do Mosteiro

Além de uma celebração eucarística concelebrada pelo pároco e pelo Juiz da Real Irmandade em que foram evocados todos os irmãos falecidos, do programa contou ainda um almoço convívio no antigo refeitório do Mosteiro, bem como uma exposição-venda com todas as obras editadas pela Real Irmandade e pelo Centro de Estudos Domingos de Pinho Brandão.

  “A memória de um Mosteiro“

Com quase 500 páginas, esta mais recente obra sobre o Mosteiro de Arouca, fruto de um longo trabalho de investigação feito pelo Professor de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Dr. Manuel Joaquim Moreira da Rocha, representa um dos mais extensos e profundos estudos publicados sobre o Mosteiro de Arouca.

Dividido em duas partes, este estudo aborda na primeira “Para além das paredes do Mosteiro: entre o temporal e o eterno” não só a organização e a história do espaço conventual, como também os hábitos quotidianos desta comunidade cisterciense que escolheu o Mosteiro de Arouca como regra de vida.

Neste estudo o autor demora-se ainda na análise que faz do testamento espiritual e da omnipresença da rainha santa Mafalda como guia espiritual das monjas que lhe sucederam ao longo dos séculos. Curioso e interessante é o espaço que é dedicado aos “festejos da beatificação da Rainha em 1793”, os quais motivaram um considerável número de intervenções artísticas, de melhoramentos, de aquisições e até de novas obras.

Lançamento do livro na Sala do Capítulo do Mosteiro de Arouca

Na segunda parte que o autor designou por “Paradisus claustralis – O Mosteiro”, Manuel Joaquim Moreira da Rocha analisa os diversos elementos que compõem este Mosteiro, desde o coro à igreja, com destaque para o túmulo da beata Mafalda, passando pelo celeiro, pelo terreiro e pela cerca.

Sendo o arquiteto maltês Carlos Gimac o grande responsável pela atual traça que o Mosteiro ainda hoje apresenta e que remonta aos sec.XVII e XVIII é compreensível que o autor deste estudo lhe tenha dedicado também um amplo espaço nesta sua obra.

A apresentação desta obra ocorreu num dos espaços mais emblemáticos do Mosteiro, a sua Sala do Capítulo e esteve a cargo do professor da Universidade de Coimbra, Dr. Nelson Correia Borges, muito ligado a Arouca, através dos laços históricos e afetivos que existem entre os Mosteiros de Arouca e de Lorvão.

Afirmando que esta é uma obra que “honra Arouca”, Nelson Borges considerá-la-ia “a mais singular joia de toda a vasta produção científica do autor”.

O autor autografando o livro

Concerto de órgão e voz

Dedicando esta obra um interessante capítulo aos “sons do Mosteiro” (187-199) onde se faz referência às “madres muzicas e tangedoras arouquenses” e sabendo do importante papel que a música desempenhou no Mosteiro de Arouca, o que é comprovadamente atestado, não só pelo seu magnífico órgão ibérico, como também pela qualidade artística dos livros de música religiosa utilizados no coro do Mosteiro, qualidade essa atestada na valiosa coleção de antifonários guardados no Museu de Arte Sacra, a realização do concerto de órgão e voz que se seguiu à apresentação deste livro não poderia ter sido mais adequada e plena de significado histórico e artístico.

Organista e soprano recebendo um ramo de flores

O concerto esteve a cargo do organista Francês Eric Saint-Marc, natural de Tarbes que interpretou diversas peças renascentistas e dos sec.XVII e XVIII , algumas das quais foram acompanhadas pela soprano portuguesa Cecília Blais-Manzoni, natural de Lisboa, mas a residir desde  1983, na cidade de Tarbes, onde vem desempenhando uma intensa atividade não só como coralista e como solista, mas também  na direção de  coros.

Com este concerto de órgão e voz que assinalou também o lançamento do último estudo sobre a história do Mosteiro, Arouca viveu um dia, não apenas culturalmente rico, como significativamente relevante para o estudo e divulgação do seu rico património histórico que, a partir de agora, conta com mais este importante subsídio para o seu estudo: “A Memória de um Mosteiro”.

 José Cerca

Publicado no “Jornal de Arouca” nº795 de 31 de outubro de 2011
Publicado no semanário “Discurso Directo” nº180 de 4 de novembro de 2011

 

 

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1 Sofia Vechina 30 de Outubro de 2011 às 22:30

Como disse Antoine de Saint-Exupéry “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”. Efectivamente, o livro “A Memória de Um Mosteiro”, é possivelmente “a mais singular jóia” da obra do Professor Doutor Manuel Joaquim Moreira da Rocha e certamente a mais completa e rigorosa que Arouca podia ter. Fruto de muitos anos de investigação, dedicação e maturação, é um excelente exemplo da importância da História da Arte na salvaguarda patrimonial.
Parabéns à Irmandade pela iniciativa e pela capacidade de reconhecer o excelente trabalho deste investigador.

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2 Manuel Rocha 5 de Novembro de 2011 às 20:34

Felicito, uma vez mais Arouca, pela dinâmica certiva como vem sedimentando o futuro. Conhecendo as terras e as gentes de Arouca, o seu Património material e imaterial construido, passo a passo, à sombra de um Mosteiro de elite. A memória, sem saudosismos, é uma caraterística emblemática de Arouca. Recorda o passado, enraizado na cultura, e, contínua de braços levantados a riscar para o futuro, sem esquecer o passado e muito atenta ao presente (à contemporaneidade).
Arouca, terra de uma Rainha culta que continua e continuará presente, está a fazer uma exemplar ligação entre passado e futuro. As suas gentes respiram cultura e empreendedorismo. A gricultura, a industria – fundamentada nos recursos locais – e o conhecimento, são alavancas experimentadas e vividas pelas gentes de Arouca.
Bem haja. O futuro escreve-se no presente.

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