MEMÓRIAS RECHEADAS DE SENSAÇÕES E ALGUMAS EMOÇÕES

por jcerca em 2 de Novembro de 2026

Dizem os psicólogos que há períodos na vida de qualquer ser humano em que o registo das sensações vividas é mais fácil e duradouro de ficar arquivado na nossa memória.
Não sei bem ao certo quantos anos teria, mas a verdade é que, apesar da longa distância temporal, há memórias que permanecem mais profundamente gravadas do que outras, como se não houvesse espaço temporal entre elas. Estas são algumas dessas memórias.
escrita criativa_Asarc

Mal dormi naquela noite, de tão excitado que estava com a viagem que ia fazer, com o meu avô a Coimbra, na manhã seguinte daquele dia de verão.
Era ainda muito cedo quando me levantei e nos pinheiros, à volta de minha casa, já se ouvia, a essa hora, o chilrear da passarada, a anunciar novo dia.
Ainda meio sonolento e de mão dada com o meu avô, subo para a carroça da mula que me haveria de levar à cidade dos meus sonhos de criança.
Sentado no banco duro do transporte, que para mim era de luxo, percorri dezenas de quilómetros, ouvindo o chiar das rodas trilhando o asfalto da estrada e olhando atentamente a paisagem que ia surgindo aos meus olhos, deslumbrados com tudo o que ia descobrindo ao longo dos largos quilómetros percorridos.
A meio da viagem, quando o sol já ia alto, parámos num café, à beira da estrada, para comermos qualquer coisa.
Mal entrámos, um aroma a pão fresquinho, acabado de sair do forno, despertou em mim um apetite irresistível que me levou, instintivamente, a pegar num pão quente e dar-lhe logo duas sôfregas trincadelas.
- Mas que grande fome, tu tens, ó Zé Maria! – exclamou o meu avô, rindo-se para mim, enquanto eu engolia sofregamente o resto do pão quente que ainda tinha na mão.
Depois de saciada a fome e de dar de beber à mula, continuámos viagem rumo à cidade dos estudantes.
Mas se consegui saciar a fome, nesta breve paragem, a verdade é que a minha curiosidade continuava insaciável perante tanta novidade que cada pedaço da viagem me oferecia e os meus olhos não se cansavam de absorver tudo aquilo que me ia surgindo ao longo da viagem e que era tudo novidade para a minha grande curiosidade infantil.
Mas o maior impacto visual e sensorial que me surpreendeu foi quando, ao iniciar a descida para o vale do Mondego, me deparo com o enorme casario da velha cidade de Coimbra, disposto em socalcos urbanísticos, desde a alta da cidade até ao rio que a abraça.
- Vês aquela torre ló no cimo? – perguntou o meu avô, quando parámos num miradouro para admirar a linda paisagem que daí se avistava.- É a torre da Universidade de Coimbra mandada construir pelo rei D.Dinis – informou-me o meu avô.
Extasiado diante da linda paisagem que se estendia aos meus olhos de criança perguntei ao meu avô:
- Ó avô, que estrada é aquela lá ao fundo? – apontei eu, todo curioso. – Será que vamos lá passar?
O meu avô, depois de olhar para aquilo que eu apontava com os meus deditos, deu uma gargalhada e disse-me:
- Aquilo, Zé Maria, não é nenhuma estrada!…. É o rio Mondego que passa em Coimbra e que, como estamos no Verão, leva pouca água. Por isso, o seu leito, visto de longe e do alto, parece confundir-se com uma estrada, tal como tu supuseste que era.
E agora quem deu uma gargalhada, meio envergonhada, fui eu, perante a sábia explicação do meu avô.
- E já agora, Zé Maria, sabes porque é que chamam de “Basófias” ao rio Mondego?
Depois de explicado bem o significado dessa palavra, que para mim era nova, o meu avô ensinou-me algo de que nunca mais me iria esquecer.
- Chamam “Basófias” ao Mondego porque ele, no Inverno, leva muita água e mostra-se todo poderoso e fanfarrão, mas quando chega o Verão o seu caudal mal se vê no meio do areal do seu leito, a ponto de, visto de cima e à distância, fazer lembrar uma estrada, tal como aconteceu contigo há bocado.

Rio Mondego sem barragem
José Cerca

13.04.2026

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