Quando cheguei à Praça de S.Pedro, no Vaticano, com o objetivo de visitar a famosa Basílica de S.Pedro e, de seguida, os Museus do Vaticano, deparei-me com uma enorme fila que me surpreendeu pelo seu tamanho e que se estendia através desta mundialmente conhecida praça romana.

A minha curiosidade levou-me a perguntar a um policia se toda aquela grande fila era para ver o Papa.
- Não! Essa fila é para as pessoas que pretendem visitar o Museu do Vaticano – esclareceu-me o simpático guarda de serviço àquela hora, diante da imponente Basílica de S.Pedro.
Fiquei um pouco dececionado, com a informação, pois o Museu do Vaticano era a próxima visita que tinha programado fazer, logo a seguir à basílica de S.Pedro e para a qual já tinha adquirido o bilhete digital na net e que guardava no meu telemóvel.
- Será que ainda a poderei fazer esta manhã? – pensei comigo, ao ver a imensa fila de pessoas que serpenteava pela enorme praça de S.Pedro.
Esqueci a fila e dirigi-me, então, para a entrada da Basílica para visitar a igreja mais famosa do Cristianismo.
Que beleza incrível!…. Que momentos deliciosos aí passei a contemplar a grandiosidade daquela basílica; a admirar a beleza artística das suas obras de arte; a sentir a espiritualidade que se respira dentro daquele belíssimo espaço sagrado!… Nem dei pelo tempo a passar, tão absorto fiquei perante a beleza avassaladora daquela Basílica.
Quando saí, com a alma encantada e cheia de tanta beleza, meti-me logo na fila, agora um pouco mais curta, com o objetivo de visitar os Museus do Vaticano e em especial, a famosa Capela Sistina de que tanto ouvira falar, ainda recentemente, por causa da eleição do último Papa da Igreja Católica.
À minha frente, na fila, estava um casal de brasileiros que reconheci pelo sotaque da língua.
- Esta fila é para visitar o Museu do Vaticano ? – perguntei eu para me tranquilizar.
- Sim, mas é só para quem pretende comprar o bilhete de entrada. Quem já o adquiriu pela net pode entrar diretamente.

Contente com esta informação, saio logo da fila e dirijo-me, sem qualquer problema, para a entrada do Museu. Depois de validado o ingresso, através do meu telemóvel, recebo um guia sonoro em Português e inicio esta tão ansiada visita a um dos mais famosos museus do mundo.
Já lá dentro, senti um enorme orgulho, acompanhado de uma grande satisfação, ao pensar que eu era, finalmente, um desses milhões de privilegiados que todos os dias visitam este Museu.
De auscultadores nos ouvidos, ia percorrendo, lentamente, de modo a poder saborear tanta beleza, presente em cada uma das salas deste Museu, admirando, extasiado, as inúmeras pinturas renascentistas que preenchem as paredes das suas salas, de alto a baixo.
Quando entrei na famosa capela Sistina os auriculares transmitiam-me informação sobre o nome desta capela que faz parte do Palácio Apostólico do Vaticano e onde fica a residência oficial do Papa.
Fiquei, assim, a saber que o seu nome é uma homenagem ao Papa Sisto IV que fez a sua restauração entre 1473 e 1481.
Enquanto ia percorrendo, lentamente, a capela, esmagado por tanta beleza, que de todos os lados me submergia, fiquei também a saber que os frescos desta capela foram pintados pelo grande Miguel Ângelo durante 4 anos (de 1508 a 1512) sob as ordens do Papa Júlio II e que se transformaram numa autentica obra de arte que atrai milhões de visitantes todos os anos a esta capela.
Estava eu a receber estas preciosas informações, através do meu guia digital, enquanto ia contemplando a famosa cena do Juízo Final de Miguel Ângelo que, de 1535 a 1541, pintou mais de 300 figuras nesta cena do teto da capela Sistina, quando aos meus ouvidos chega uma música celestial, de tal beleza e intensidade, que me conseguiu abstrair do mundo em que me encontrava.
De repente, a música suaviza-se e começo a ouvir a fala angelical de dois anjos que, do teto da capela Sistina, pareciam olhar para mim e seguir os meus passos. Indiferente aos numerosos turistas que enchiam aquela sala, estando a maior parte deles com a cabeça erguida para o teto da capela Sistina, os arcanjos Miguel e Rafael conversavam entre si:

- Mas que sorte nós tivemos!…Em vez de termos ido para o Céu, louvar e adorar o nosso Deus Criador, aqui ficámos a vigiar esta majestosa capela, a partir deste belo e estratégico sitio onde Miguel Ângelo nos colocou.
- Tens toda a razão! – respondeu o arcanjo Rafael. Inicialmente, quando o Miguel Ângelo andou aqui, de papo para o ar, em cima de enormes andaimes, a colocar-nos neste teto, não achei piada nenhuma. Pensava que me ia aborrecer de tédio, mas, afinal, pouco tempo, depois mudei de ideias. É que, quando esta capela começou a ser invadida de turistas, vindos de todo o mundo, o meu tédio desapareceu radicalmente.
- Sim, também concordo contigo – corroborou o arcanjo Miguel. – Nem imaginas como eu me divirto ao ver tanta gente, de pescoço erguido, a olhar para nós!
- Mais do que divertir-me, eu envaideço-me é com as milhares de fotos que nos tiram constantemente, levando-nos, assim, para todas as partes do mundo, dentro dos seus telemóveis.
- Sim, tens toda a razão e eu também partilho dessa tua pequena vaidade – que Deus Nosso Senhor no-la perdõe…..
- Mas sabes uma coisa, Rafael? – acrescentou o arcanjo Miguel, com o intuito de desviar a conversa sobre as tais vaidades fotográficas.- O que mais gozo me tem dado, desde que Miguel Ângelo aqui nos deixou, não são, propriamente, os turistas que por aqui passam todos os dias, mas sim os Cardeais quando aqui se reúnem para escolherem o novo Papa, sempre que um sucessor de Pedro morre e parte para a eternidade.
- Ah!Ah!Ah!…- riu-se logo o arcanjo Rafael.- Nem queiras saber as conversas que daqui se conseguem ouvir, durante esses conclaves!…
- Já foi há muitos anos, isso é verdade, mas ainda estou a ver, como se fosse ontem, o espanto da maior parte dos Cardeais, quando o Espírito Santo escolheu para chefe da sua Igreja um cardeal polaco, que acabaria por adotar o nome pontifício de João Paulo II.
- Sim, foi um autentico escândalo que, felizmente, não conseguiu sair para fora da Capela Sistina.
- E compreende-se bem o motivo, meu caro Miguel. É que até aí os Cardeais estavam habituados, desde há muitos anos, que o Papa escolhido fosse italiano e acabou por lhes sair um Papa fora de Itália e, ainda por cima, oriundo de zonas comunistas. Que tamanha decepção para muitos dos Cardeais!….
- O mesmo escândalo e idêntica surpresa aconteceu, anos depois, no Conclave onde foi escolhido o Papa Francisco, após, não da morte, mas da renúncia do Papa Bento XVI em 2013.
- Pois é verdade! Já nem me lembrava dessa! Parece que ainda foi ontem!…
- E é que dessa vez o escândalo ainda foi bem maior, pois o Papa eleito também não era italiano e nem sequer era oriundo da Europa, mas vinha da América do Sul, da Argentina!
- Lembras-te do rebuliço que se gerou lá em baixo, antes do fumo branco sair pela chaminé do telhado? – perguntou o arcanjo Miguel com um sorriso maroto.
- Oh! Se lembro!….E quanto nós nos rimos, aqui de cima, ao ver a incredulidade e o desânimo de muitos dos Cardeais! Até parecia que muitos deles não acreditavam que quem governa a Igreja de Cristo é o Espírito Santo, através de homens que coloca à sua frente, em cada momento da História.
Estava eu completamente absorvido por esta conversa, entre os arcanjos Miguel e Rafael, quando alguém me toca no ombro, fazendo-me descer à realidade. Era o segurança do museu.
- Desculpe, o Museu vai fechar – informou-me ele quando eu ainda estava meio desorientado, sem saber muito bem onde me encontrava.
- Oh! Peço imensa desculpa – respondi eu, refazendo-me da minha total abstração.- É que fiquei de tal modo absorvido na contemplação desta cena do Juízo Final que até parece que acabei agora mesmo de descer do Céu!…
E depois de uma simpática gargalhada do segurança, lá me dirijo eu, atrás dele, até à saída do Museu do Vaticano, enquanto que, no teto da Capela Sistina, os arcanjos Miguel e Rafael continuavam a sua animada conversa.
5.11.2025
