Depois das palavras violência e indisciplina nas escolas que surgiram, em catadupa, nos meios de comunicação social portugueses, sobretudo na sequência do conhecido caso do telemóvel na Escola Carolina Micaélis no Porto, a palavra que, presentemente, lhes veio ocupar o lugar nos média tem sido o vocábulo facilitismo.
E isso não terá apenas a ver com os resultados, quer das provas de aferição no 4º e 6º ano de escolaridade, quer dos exames do 9º e 12º ano, mas também com a proliferação de CEFs e de Centros de Novas Oportunidades, muitos dos quais, através de umas ligeiras pinceladas disto e daquilo, conferem diplomas a que, na maior parte dos casos, não corresponde uma adequada capacitação já não digo na cultura geral, mas nem sequer nos requisitos mínimos do ler , escrever e interpretar.
Penso que a filosofia que terá presidido à implementação dos Cursos de Educação e Formação, bem como aos Centros de Novas Oportunidades, não terá sido errada, mesmo tendo em mira a subida da estatística na qualificação académica e no sucesso escolar de muitos portugueses que, ou não tiveram ocasião de adquirirem essa qualificação, no tempo oportuno, ou que esbanjaram tais oportunidades para a adquirirem na altura certa.
Até aqui, tudo bem quanto aos princípios, mas tudo mal quanto às metodologias e às estratégias seguidas de se enveredar, a maior parte das vezes, pelo caminho do facilitismo, em prejuízo da exigência, do rigor e da responsabilidade que a sociedade requer para o salto qualitativo que, cada vez mais, se exige em todos os sectores.
Baixar o insucesso escolar pela via do facilitismo ou por métodos burocráticos será, por um lado, colocar os professores perante situações de flagrante injustiça; criar falsas ilusões aos alunos detentores de diplomas ou de certificados que pouco correspondem ao desempenho cultural da maior parte dos seus detentores.
Tal como escrevia Filomena Mónica, numa análise contundente aos exames de Português, recentemente aplicados a alunos do 9º e do 12º ano, com todo este facilitismo “estamos a formar uma geração incapaz de pensar, de falar e de escrever”.
Um caso concreto
Tem funcionado na Escola E.B.2,3 de Arouca, desde há seis anos, Cursos de Educação e Formação (CEF) nomeadamente na área de acabamentos de madeira.
No final do 2º ano do curso, que dá equivalência ao 9º ano, aos alunos que o frequentarem, há sempre um mês de estágio, em empresas locais, para uma transição para a vida activa.
Numa dessas empresas, como se necessitava de admitir novo pessoal, o gerente, em vez de abrir concurso para o preenchimento dessas vagas, perguntou aos 3 formandos estagiários se estariam interessados em trabalharem na empresa, após concluído o estágio.
Com a falta de oportunidades de emprego que existe por todo o lado, pensava o gerente que lhes estava a oferecer uma excelente oportunidade de ocupação, para mais na área para a qual supostamente se prepararam tecnicamente durante dois anos.
A verdade é que nenhum deles mostrou interesse na oferta, o que dá para pensar que, em muitos casos, não será a especificidade do curso que interessa aos alunos que nele se inscrevem, mas sim a facilidade com que podem obter o diploma do 9º ano.
Um deles, aliás, acabou mesmo por abandonar o estágio, pois, na verdade, nunca fora o curso o que lhe interessou, mas sim obter, pela via do facilitismo, o mesmo diploma que outros obtêm com muito mais trabalho, rigor e exigência.
Não será pela via do facilitismo que a escola prepara cidadãos para as exigências de uma sociedade cada vez mais competitiva. O sucesso escolar poderá, deste modo, subir nas estatísticas, mas a verdade é que baixarão, inevitavelmente, as competências mínimas necessárias para um integral sucesso na vida.
José Cerca
Texto publicado no Semanário “Discurso Directo” nº11 de 18 de Julho de 2008
{ 4 comentários… lê abaixo ouadiciona }
Antes de mais parabéns por mais um bom “abrir de olhos” no blog. Gostaria de dar a conhecer também duas boas discussões no fórum arouca.biz não sobre os CEF em si mas relacionadas com o assunto: Novas Oportunidades… e RVCC – Reconhecimento Vergonhoso das “COLIDADES” dos Cidadãos(ou será cidadões?)
Não concordo com facilitismo.
O curso CEF electricistas tem um grau de exigência capaz de ultrapassar qualquer outro curso.
É claro que a verdadeira avaliação não vai ser na escola, e os alunos sabem disso, é necessário, mais do que passar, “saber”.
Eu transmiti isso aos alunos e eles tem consciência, assim como as famílias, que até podem ter o diploma, mas se não souberem nada andaram a perder tempo.
Isso acontece nos cursos superiores. quantos alunos se formam com licenciatura e no fim não prestam para nada????
Haja contento nas afirmações. Os cursos são aquilo que os seus directores quiserem.
O resto é blá, blá, blá…
Embora subjacente à sua resposta esteja um auto-elogio, legítimo aliás, se verdadeiro, devo dizer que em tudo há excepções. E se este for o seu caso, os meus sinceros parabéns.
Aproveito para informar que tomei a liberdade, a bem da Língua Portuguesa, de iniciar com letra maiúscula todos os parágrafos da sua mensagem. Termino retribuindo o seu recado relativamente à contenção (não contento) nas afirmações.Haja, pois, cuidado, rigor e não facilitismo na utilização da Língua Portuguesa.
José Cerca
As Novas oportunidades que concedem diplomas com toda a facilidade a cidadaos que muitas vezes nao sabem ler , interpretar ou redigir um simples texto; é uma injustiça para quem se esforçou para adquirir um diploma do 9º ou 12ºano.Eu propria iniciei recentemente o processo RVCC para conseguir equivalencia ao 12º ano tendo apenas o 9ºfeito ha mais de 30anos .Vivo a cerca de 2 minutos a pé do centro mais próximo das N.O e, só agora resolvi ingressar,passados 2 ou mais anos após o inicio do programa nesta escola.
Tenho48 anos e, gozando de perfeito estado de lucidez, entendo , e, trabalhando por conta própria que os motivos da minha decisão não se devem ao facto de ambicionar por um diploma para vantagens profissionais; mas por uma questão de justiça social, pois ao longo da minha vida adquiri alguma bagagem de conhecimentos,alem da media da maioria que tem o 9.Tenho frequentado diversos cursos de formação de 50 h tenho colegas que dizem ter feito o 9ºe continuam o processo para atingirem o dito 12º ano e, apercebo-me no decorrer das acções de formaçao,dos erros graves que cometem
como erros ortograficos, frases mal redigidas etc. Alem de demonstrarem um grande défice de conhecimentos de cultura geral.Grande parte das pessoas naõ de monsta o minimo interresse de adquirir conhecimentos (passando imenso tempo no “paleio”) mas sim de obter
certificados
Nao poderia conformar-me pelo facto de existirem pessoas com o 12º ano feito pelas N.O e sentirque tem menos bagagem que eu. Acredito que há muita gente sem sequer ter o 9º ano com mais conhecimentos que muitos que adquiriram o certeficado do 12º ano.
São pessoas que ao longo da vida sempre se interessaram por aprender, e assim adquiriram um nivel de conhecimentos consideravel para o seu patamar de ensino.
Existem também aqueles que por exemplo concluiram uma etapa de ensino, e praticamente ao longo da vida deixaram de olhar para as letras, esquecendo-se por completo das noções mais basicas…