O REGRESSO ATÍPICO À ESCOLA

por jcerca em 14 de Setembro de 2020

Seis meses depois das escolas terem sido inesperadamente encerradas, devido à pandemia que então começava a alastrar por todo o mundo, o regresso à escola para o inicio de um novo ano teve que ser forçosamente atípico devido à presença do Covid-19, agora ainda mais forte e disseminado do que há seis meses, quando o País entrou em modo de confinamento, alterando, assim,radicalmente, a normalidade da vida social e familiar no País inteiro.

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Uma escola “nova”, mas sem inauguração.

Pronta há já vários meses para ser inaugurada, após profundas obras de requalificação e de modernização, a Escola E.B.23 de Arouca, devido à pandemia, recebeu no dia 14 de setembro, os seus alunos do 5º e do 6º ano, sem qualquer sessão de inauguração das suas instalações profundamente remodeladas e em que um dos seus pavilhões ficou afeto à Academia de Música de Arouca. Entre as principais inovações, além desta, refira-se a criação de um novo espaço para o ensino articulado de dança, bem como a criação de um auditório com a capacidade para cerca de 70 pessoas.

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Refira-se que esta escola foi criada em 1968, como a primeira escola preparatória do Concelho de Arouca, designada inicialmente por Escola Preparatória Dr.Coelho da Rocha e que, durante os primeiros anos, funcionou em instalações provisórias, no lugar da Malhadoura, na Freguesia de Santa Eulália.

A partir do ano letivo de 1983/83 a escola passou a funcionar na vila de Arouca, nas atuais instalações, recentemente requalificadas.

No entanto, no ano lectivo de 1996-97, esta escola deixou de ser frequentada exclusivamente por alunos do 2º ciclo (5º e 6º anos), passando a ser frequentada também por alunos do 3º ciclo. Por esse motivo, foi necessário proceder-se à construção de um novo bloco com mais 12 salas de aulas.

A segunda escola Básica e secundária no concelho de Arouca viria a ser inaugurada a 12 de outubro de 2010 na freguesia de Escariz.

O regresso 10 anos depois.

Foi com alguma emoção, revestida de uma certa tristeza, que 10 anos depois de ter cessado o meu trabalho docente nesta escola, desde que foi inaugurada, a ela regressei na abertura deste atípico ano escolar, acompanhando a minha neta à sua nova escola.

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E se a emoção é compreensível relativamente a um espaço que, durante tantos anos, foi o local da nossa atividade profissional, o sentimento de tristeza que acompanhou este regresso deve-se, obviamente, às restrições que foram decretadas pela DGS, impedindo assim a entrada de pais, familiares e de qualquer público às instalações, em nome da saúde de todos.

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É óbvio que a curiosidade e o desejo de se conhecerem as modernas instalações desta requalificada escola são mais do que naturais e bem compreensíveis sobretudo a quem nela tenha trabalhado. Por isso, na impossibilidade de uma visita presencial, nesta abertura do novo ano escolar aqui deixamos algumas fotos do arquiteto José Eduardo Silvestre, responsável pela elaboração do respetivo projeto e que ilustram bem a modernidade dos principais espaços desta requalificada Escola Básica de Arouca.
Refira-se que este projeto de requalificação foi executado pela firma arouquense Carlos Fernandes Mendes, Lda, o que envolveu um custo de cerca de 2 milhões e 800 mil euros.EB23_01

A harmonia da ligação entre os blocos

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Um moderno auditório

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Um dos espaços interiores com boa iluminação natural

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José Cerca

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº523 de  18 de setembro de 2020

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PARQUE DE CAMPISMO NA ESPIUNCA PRECISA-SE!

por jcerca em 19 de Agosto de 2020

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Tinham acabado de sair dos Passadiços no lugar da Espiunca. E enquanto não chegavam os restantes elementos do grupo, que durante uma semana acamparam no parque de campismo do Merujal, decidiram dar uma volta pela praia fluvial da Espiunca.

A praia tinha pouca gente naquele dia, pois a temperatura baixara o que até acabou por favorecer a caminhada dos 8 km pelos passadiços desde o Areinho até à Espiunca.

- Procurámos, procurámos na net e só encontrámos em Arouca o parque de campismo do Merujal – informaram-nos, um pouco decepcionados, o Pedro e a Sofia, aparentando ambos os seus 24, 25 anos de idade.

- O parque é muito bom para podermos explorar as belezas da Freita, mas fica muito longe dos Passadiços! Muito mesmo!

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Estavam lá acampados desde o dia 15 de agosto. Já tinham explorado a Serra da Freita, desde a queda de água da Mizarela, até às pedras parideiras; desde o marco geodésico do S.Pedro, o Velho, até ao miradouro do Detrelo da Malhada, o ponto mais alto da Freita.

- A Freita é fantástica! O parque de campismo é muito bom, mas falta-lhe a água tão procurada pelos campistas no tempo de verão. A que existe na praia fluvial de Albergaria da Serra mal dá para molhar os pés e pouco mais – afirmou o Pedro, sorrindo. O que nos valeu foram os poços ao fundo da Mizarela. Mas para chegar lá!….

Como o tempo estava fresco naquele dia e até com algumas ameaças de chuva, apesar de ser Agosto, decidiram dedicá-lo aos Passadiços do Paiva.

Amantes da natureza, vieram de Lisboa, seduzidos pela publicidade que têm lido por toda a internet sobre Arouca e o seu Geopark, sobre os Passadiços e a sua maior ponte suspensa do mundo, à espera ainda de ser inaugurada lá para outubro.

A situação de pandemia que se vive por todo o mundo foi determinante para fazerem férias do tipo “vá para fora cá dentro”. E assim foi. Prepararam o material de campismo e saíram para fora de Lisboa e para dentro do vasto território de Arouca. E não estão arrependidos pela opção tomada e pelo destino escolhido – garantiu-nos o Pedro e a Sofia.

- O parque de campismo do Merujal é bom, mas falta-lhe a água – repetiu ele. Água como esta aqui, no rio Paiva! Que maravilha! Olhe, venha comigo que lhe quero mostrar uma coisa!

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E lá fomos nós ao longo do rio Paiva, caminhando pela sombra das árvores e acompanhados pelo som da água a cantar por entre pedras e rochedos.

- Olhe isto aqui! Que belo espaço para se instalar um parque de campismo!

O espaço que surgiu na direção do seu dedo indicador já eu o conhecia desde há muitos anos, quando procurava o sossego da Espiunca, aos fins de semana, em companhia dos filhos e de amigos. Era um grande campo de milho e de feijões emoldurado, então, por ramadas de videiras americanas.

O milho deixou de crescer aí, há já alguns anos, e no seu lugar surgiu um frondoso bosque, mesmo ali na margem esquerda do Paiva. Todo esse vasto espaço estava agora delimitado, em todo o seu perímetro, por uma rede vermelha, possivelmente, para impedir a entrada de estranhos, à procura da abundante sombra que ele oferecia.

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- Isto, sim, isto é que dava aqui um excelente parque de campismo, com todas as condições necessárias – afirmou o Pedro, todo entusiasmado, como se a realidade estivesse mesmo ali à mão de semear.

E na verdade, essas condições estavam ali bem à vista de todos nós. A abundante sombra daquele bosque e a tranquila e fresca água do Paiva, formando, mesmo à frente desse imaginário parque de campismo, uma autentica piscina natural para nadar e mergulhar. Além disso, e mesmo ao lado, dois grandes parques de estacionamento, com instalações sanitárias para apoio aos Passadiços. Depois, além de um pequeno bar, mesmo à beira do rio, um restaurante moderno, prestes a abrir, mesmo ao lado dos parques de estacionamento.

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- Ai se este terreno fosse meu!….. Com tantas e tão boas condições não hesitaria um minuto para instalar nele um parque de campismo para apoio dos Passadiços. E olhe que não lhe faltariam utentes, isso lhe garanto eu!

E apontando para a torre da igreja da Espiunca, que dali se avistava, acrescentou com um largo sorriso:

- E olhe que nem a igreja faltaria a este parque de campismo!

Concordámos em absoluto com este jovem casal lisboeta. Esse hipotético parque de campismo seria não só uma necessidade absoluta para os Passadiços e para a sua nova ponte suspensa, bem como um novo e merecido equipamento para esta simpática freguesia da Espiunca. Aqui fica o desafio.

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José Cerca

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº522 de  04 de setembro de 2020

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Não poderia ter sido escolhido melhor local para a apresentação deste pequeno livro sobre a padroeira de Arouca do que o magnífico espaço da igreja do Mosteiro de Arouca, onde, num dos seus altares laterais, repousam os restos mortais da neta do 1º rei de Portugal, D.Afonso Henriques. A apresentação teve lugar na tarde do domingo 9 de Agosto, observado-se as recomendações de higiene e de distanciamento exigidas por esta pandemia.

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A apresentação

Coube ao pároco, Pe. Luís Mário, fazer a apresentação dos elementos da mesa desta sessão que era composta pela vereadora da Cultura, Fernanda Oliveira, pelo Juiz da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda, Carlos Brito e pela autora da publicação, Margarida Rocha.

Luis Mário

Após breves palavras de cada um dos elementos da mesa, coube à autora fazer a apresentação da sua obra que teve a colaboração da ilustradora Tânia Pires, que não pode estar presente.
Falando do porquê desta publicação, Margarida Rocha referiu que o seu objetivo visa contribuir, de uma forma simples e motivadora, para a divulgação da vida da padroeira de Arouca, a beata Mafalda, mais conhecida por Rainha santa Mafalda. E justificou essa divulgação no sentido em que Arouca é aquilo que é, devido à existência de Mafalda Sanches e ao seu importante e reformador papel que desempenhou dentro do Mosteiro de Arouca e na sua vasta área de influência, há cerca de 800 anos. Tratando-se de uma mulher exemplar e excecional, cuja ação perdura ao longo dos séculos, será sempre útil e pertinente a divulgação da sua ação e do seu exemplo de vida que encontra na devoção dos seus fiéis uma justa e digna veneração.

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E esse sentimento de veneração encontra-se bem plasmado na letra e na música do Hino à Rainha Santa que foi interpretado pelo coro da Paróquia de Arouca no encerramento desta sessão e que todos os anos é cantado no final da festa à padroeira de Arouca que se celebra a 2 de maio.

A publicação

Tratando-se de uma edição da autora, esta publicação é composta por 57 quadras distribuídas ao longo de 19 páginas intercaladas com 19 ilustrações de Tânia Pires. As quadras obedecem ao esquema rimático ABAB, ou seja em rima alternada, também designada por rima cruzada, o que confere à narrativa um certo ritmo e uma ambiência popular.

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No final da narrativa poética encontra-se um pequeno resumo biográfico de Mafalda Sanches, que permite dar uma breve contextualização histórica à filha de D. Sancho I que, tal como as suas duas irmãs Sancha e Teresa, foram declaradas “beatas” pela Igreja Católica, mas “santas” pela voz, pela fé e pela devoção do povo.

Refira-se também que na contracapa desta publicação constam ainda dois pequenos comentários do Bispo de Lamego, D.António Couto e de D.Manuel Linda, Bispo do Porto, atendendo a que as vastas áreas geográficas abrangidas por estas duas dioceses foram, outrora, não só área de influência do Mosteiro de Arouca, como também detentoras de várias propriedades doadas por D.Sancho I a sua filha Mafalda.

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De entre as várias publicações sobre a vida desta personagem tão ligada a Arouca esta é, seguramente, a primeira em verso o que permitirá, de uma forma simples e concisa, contribuir para a divulgação de uma figura ainda tão presente na devoção e na afetividade dos arouquenses.

José Cerca
Fotos de José Roldão

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº522 de  04 de setembro de 2020

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Dos espaços conventuais para os espaços digitais

 Não teve o habitual e grandioso ajuntamento de pessoas, nem o contacto físico e sensorial com os maravilhosos espaços conventuais, das edições anteriores, devido à pandemia que, desde há alguns meses, veio alterar, radicalmente, a normalidades das atividades humanas por todo o mundo.

Por isso, e muito bem, foi preciso alterar, reconfigurar e adaptar a esta nova realidade, a maior parte das atividades, desde há muito já programadas, como foi, entre muitos outros casos, a recriação Histórica desde ano, subordinada ao tema: Arouca História de um Mosteiro.

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Em substituição de um vasto conjunto de atividades centradas no espaço monástico e em toda a zona histórica e em que a participação popular e o convívio humano eram as suas principais caraterísticas e base principal do seu grande sucesso, a Autarquia preparou, em alternativa, um conjunto de atividades para o espaço digital e que, ao longo de uma semana (de 11 a 19 de julho) foram dando corpo a esta versão virtual de uma Recriação Histórica que ficará, obviamente, também para a História.

Um vasto e variado programa.

A abertura da versão digital da Recriação Histórica deste ano foi feita através de uma mensagem da Presidente da Câmara, Margarida Belém, que elegeu o Mosteiro de Arouca como tema central desta sua comunicação, até porque ele tem acompanhado, ao longo dos séculos, a evolução dos tempos, tendo sido também testemunho do apogeu e do declínio das ordens religiosas que o habitaram.

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Após a abertura oficial, seguiu-se um momento musical com o Grupo de Charameleiros de Arouca.

A música

Possuindo este Mosteiro no seu riquíssimo cadeiral e instalado no seu coro alto, um belo exemplar do rei dos instrumentos, o órgão ibérico datado de 1743, era imprescindível, nesta recriação histórica, dar-lhe a palavra. E foi isso que aconteceu, logo no primeiro dia, através de um excelente momento musical, mediante o qual foi possível admirar a extraordinária sonoridade deste centenário órgão em estilo joanino. A acompanhar o organista Tiago Ferreira, Ivo Brandão foi tecendo interessantes e pedagógicos comentários sobre as peças interpretadas e seus autores, o que fez deste mini concerto um momento cultural e musical muito rico, apesar do “publico” presente se ter restringido aos 104 assentos vazios feitos em madeira de jacarandá do Brasil.

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Um outro momento musical, inserido neste programa digital, foi proporcionado pelo grupo “Ventos do Atlântico” que interpretou algumas peças de música barroca, num espaço igualmente barroco, como o é o magnífico cadeiral do Mosteiro de Arouca.

A arte e os ofícios

E foi sobre a riqueza artística deste espaço conventual que o Juiz da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda, Carlos Brito, teve uma conversa virtual centrada nos tesouros artísticos escondidos no Mosteiro de Arouca, apresentando uma possível leitura das pinturas em espaldares de madeira que se encontram no imponente cadeiral barroco do Mosteiro de Arouca.

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Além desta, outras conversas se foram desenrolando para o espaço digital, ao longo desta Recriação histórica, abordando, não só a arte de entalhar, pelo entalhador Júlio Leal, como também a conservação e restauro, com Joana Almeida, bem como a arte gastronómica da doçaria conventual.

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E dentro das conversas virtuais destaque-se aquela em que o Director Regional da Cultura do Norte, Dr. António Ponte abordou, não só sobre as atuais obras para a criação de uma nova estrutura de acolhimento para os visitantes do Mosteiro de Arouca, como também sobre as futuras obras para a instalação de uma unidade hoteleira na ala sul deste Mosteiro, integrada no Programo governamental “Revive”.

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Lendas à janela

As lendas de Arouca, nomeadamente algumas daquelas que se referem ao seu Mosteiro, fizeram parte também do programa digital desta recriação histórica de 2020.

Além da “lenda de Soror Rosimunda”, interpretada pelo grupo cultural e recreativo de Rossas, também a “Lenda das pegas” na interpretação do Teatro Experimental de Arouca, foi enviada para o espaço digital, tal como a história do “Preto de Terçoso”narrada pelo ator Philippe Leroux, junto ao fontanário dos claustros.

Interpretadas em espaços conventuais, por artistas de Arouca, estas lendas acabaram também por enriquecer o programa digital desta recriação histórica, dirigida essencialmente a um público que permaneceu em suas casas, mas que certamente não deixou de acompanhar, com muito interesse, na janela do seu computador ou da sua televisão, o programa especial que para ele foi preparado devido às contingências pandémicas que afetaram a normalidade das atividades, quer sejam elas culturais, sociais, religiosas ou económicas.

A história do Mosteiro de Arouca em 3 episódios

A grande novidade desta Recriação Histórica em formato digital foi, certamente, a realização de uma minissérie em 3 episódios, produzida em espaços conventuais para os espaços digitais onde foi acompanhada com muito interesse, sobretudo nas redes sociais.

Com um guião muito bem pensado, com a boa interpretação dos intervenientes e a sua boa adequação aos espaços conventuais podemos dizer que a realização desta minissérie foi a cereja sobre o bolo desta recriação histórica.

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Contando com a participação de 55 atores locais, ela encerrou, assim, em beleza digital, uma recriação histórica que ficará certamente para a história, esperando que a próxima edição supere em participação popular aquilo que faltou, justificadamente, à edição atípica deste ano.

José Cerca
Publicado no jornal “Discurso Directo” nº520 de  24 de julho de 2020

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NÃO GOSTEI DO QUE VI

por jcerca em 2 de Julho de 2020

A nova entrada de acesso ao Mosteiro de Arouca

É natural que qualquer intervenção num edifício histórico, como o é o Mosteiro de Arouca, nunca seja pacífica e esteja sempre sujeita à diversidade de opiniões. Foi o que aconteceu com as obras de requalificação no Centro histórico de Arouca, nomeadamente com a intervenção na praça Brandão de Vasconcelos, mesmo ao lado do Mosteiro de Arouca. É o que acontecerá, naturalmente, com as obras de adaptação para a instalação de uma pousada em espaços deste Mosteiro, de acordo com o projeto “Revive”. E é o que está a acontecer com as obras, ainda a decorrer, para a “Instalação de uma Estrutura de Acolhimento ao visitante” que passará a ser a nova entrada de acesso ao Mosteiro de Arouca e ao Museu de arte sacra nele instalado há cerca de 70 anos.

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Na visita que fiz recentemente a essas obras fiquei desgostoso com a opção que os responsáveis pela elaboração deste projeto tomaram ao decidirem pintar de branco, na zona de intervenção, toda a superfície em pedra, quer das vetustas paredes deste Mosteiro, quer dos seus belos arcos que as suportam.

A localização do elevador que conduzirá os visitantes do rés-do-chão até ao 1º e 2º pisos pareceu-me bem escolhida e adequada, bem como as rampas para a mobilidade de deficientes. O espaço para a instalação de casas de banho pareceu-me correcto e funcional. A preservação de um troço da parede mais antiga deste Mosteiro, possivelmente do sec.XII, e que ficará protegida por um separador de vidro, pareceu-me muito positiva e interessante.

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Embora ainda em fase de conclusão e apesar de todos estes aspetos positivos, não posso deixar de referir que me chocou a pintura em branco que observei sobre o granito, quer das paredes, quer dos arcos presentes naquela zona de intervenção. Sendo o Mosteiro de Arouca um dos maiores mosteiros em granito não se compreende como é que se vai ofuscar a beleza de tanta pedra com a sua pintura em branco.

Dir-me-ão que esta pintura em branco será para estabelecer um maior contraste com o preto da madeira que revestirá parte deste espaço. Mesmo assim, não ficarei convencido, pois o melhor contraste seria, isso sim, entre a naturalidade rústica da pedra e a macieza suave da madeira.

 

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Acredito que os técnicos que optaram por esta solução, que obviamente até veio encarecer mais a obra, lá terão as suas razões, mas quem estava habituado a ver a beleza de tanto granito em estado rústico, certamente que irá ficar desiludido com esta capa branca com que foi coberto e dificilmente encontrará uma razão para tal opção. Aliás, se a parede primitiva vai ficar ao natural – e muito bem – por que motivo não ficarão ao natural também as restantes paredes e sua arquearia?

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A cerca de dois meses para o fim das obras, bem gostaria de mudar de opinião, ao ver o resultado final desta intervenção, mas parece-me difícil que tal venha a acontecer pois, embora seja um leigo em arquitetura, parece-me que a beleza de todo aquele espaço, que funcionará como estrutura de acolhimento, ficará gravemente prejudicada com a capa de branco com que esconderam a genuidade do granito.

José Cerca

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº519 de  1o de julho de 2020

 

 

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