
Estava quase a chegar o fim do ano letivo e a professora de Língua Portuguesa decidiu organizar uma tertúlia com uma das suas turmas mais exigentes e aplicadas.
No final de uma determinada matéria dada, a prof. Vera gostava de pôr à prova os seus alunos, de modo a mostrarem, de uma maneira prática, como tinham assimilado a matéria estudada.
A matéria que tinham abordado nas últimas aulas era sobre o conceito de metáfora e, por isso, decidiu organizar aquilo a que designou como “a tertúlia da metáfora”.
Surpreendidos com a ideia da professora de Português, a primeira reação foi de espanto para uns, de desilusão para outros e de rejeição para a maioria da turma.
Com uma atitude pedagógica e animadora que sempre caraterizava a sua atuação, a prof. Vera tentou logo serenar uma certa agitação que surgiu em toda a turma, logo após a proposta da referida tertúlia.
E sempre com um espírito positivo e encorajador, começou por dar algumas ideias sobre o funcionamento dessa tertúlia e quais os objetivos práticos da mesma.
À medida que a turma se ia acalmando, a professora começou a passar por entre as carteiras com um saco e pediu que cada aluno tirasse um papelinho à sorte. Depois pediu que, dois a dois, e durante 15 minutos, escrevessem metáforas sobre cada uma dessas palavras retiradas do saco.
Possuidores agora da metodologia proposta pela professora foi com grande entusiasmo que toda a turma se lançou ao trabalho, sobretudo depois da professora ter autorizado que cada um pudesse escolher o seu par metafórico para trabalhar.
Após o tempo estipulado, iniciou-se, então, a tertúlia para que cada grupo lesse a metáfora escrita e explicasse também o seu significado.
- Então, quem quer começar por ler a metáfora inventada? – perguntou a professora .
E quase todas as mãos se ergueram, de imediato, acompanhadas de um grande burburinho, como resposta ao pedido da professora.
Para disciplinar a participação entusiástica dos alunos, a professora propôs, então, que se começasse, pela ordem alfabética das palavras distribuídas.
- Então, quem tem palavras começadas pela letra A? – perguntou a professora para iniciar a tertúlia.
E logo várias mãos se ergueram com os papeis no ar onde se podiam ler Amor, Amizade, Alegria.
- Então, sendo por ordem alfabética, começa lá tu, Rita, com uma metáfora sobre a Alegria – indicou a professora Vera.
- “A alegria é um sol que nasce no peito e expulsa o inverno da alma.” começou por ler, toda contente, a Rita que logo foi ovacionada por uma sonora salva de palmas dos colegas.
- Muito bem, Rita – encorajou a professora. Começaste muito bem! E o que pretendes dizer com essa linda metáfora?
- Esta metáfora quer dizer que a alegria tem o poder de aquecer e iluminar os momentos mais sombrios ou tristes da nossa vida. Mas a minha colega, a Raquel, também inventou uma metáfora sobre este tema.
- Força, Raquel, lê lá então a tua metáfora e explica-nos o seu significado – pediu a professora.
- “A alegria é uma melodia que faz dançar até os pensamentos mais pesados.”
- Boa, Raquel! – aplaudiu a professora que começava a ficar cada vez mais entusiasmada com a produtividade dos seus alunos”- E isso quer dizer….
- Quer dizer que o bom humor, a alegria e a felicidade conseguem aliviar o espírito e afastar as preocupações da nossa mente. – explicou a aluna.
- Ó stora, nós ainda temos mais uma metáfora. Podemos? – perguntaram em uníssono a Rita e a Raquel.
- Claro que sim! Força!
“A alegria daquela criança é um rio em constante sobressalto, que transborda pelas margens dos seus olhos.” – Isto quer dizer que, muitas vezes, a alegria é tão grande que é impossível de conter e de controlar.
- Muito bem, Rita e Raquel. Estais de parabéns pelo vosso excelente trabalho. Passemos agora a outra palavra começada por A.
- Amizade – gritaram em coro o Tiago e o Manuel, erguendo nas mãos a próxima palavra.
- Que palavra tão bonita! – observou a professora. Certamente que também criastes boas metáforas para ela!
- Sim, stora! Criámos três metáforas com esta palavra! – disseram todo ufanos o Tiago e o Manuel.
- E a primeira é…..- indicou a professora.
- “A amizade é um porto seguro. Nos dias de tempestade emocional, é o lugar onde ancoramos o barco da nossa vida sem medo de naufragar.” Com esta metáfora queremos dizer que a amizade nos dá serenidade, confiança e tranquilidade, mesmo nos momentos mais difíceis da nossa vida – explicaram os alunos.
- Muito bem, Tiago e Manuel. Vamos então à segunda metáfora?
- “A amizade é um casaco de lã no inverno que nos aquece o peito e nos protege do frio da solidão.” Com esta metáfora queremos exprimir a importância da amizade nos momentos difíceis e o conforto e aconchego que ela nos dá, sobretudo nos momentos de solidão. – explicaram os alunos.
- Mas que beleza de metáfora! – exclamou a professora, cada vez mais contente com a imaginação e criatividade dos seus alunos. Vamos então à vossa terceira metáfora.
- “A amizade é uma partitura a quatro mãos. Duas vidas diferentes que, ao tocarem juntas, conseguem criar uma harmonia perfeita.”
- Fantástico! Que delícia de metáfora com motivos musicais e tudo! – exclamou a professora Vera. Descodifiquem-nos lá então essa partitura a 4 mãos – pediu a professora.
- Esta metáfora musical quer dizer que a amizade entre duas pessoas, por mais diferentes que elas sejam, consegue ultrapassar as diferenças naturais e construir uma harmonia no relacionamento entre pessoas diferentes.
- Muito bem, Manuel e Tiago. Parabéns pela vossa imaginação tão criativa! – elogiou a professora. Passemos agora à próxima palavra…..
- Amor – gritaram logo a Maria e a Susana, levantando o respetivo papel que lhe tinha calhado.
- “O Amor é a união de duas chamas pequenas que, ao acenderem o mesmo pavio, se tornaram um farol contra a escuridão.” Esta metáfora pretende simbolizar que o Amor multiplica a força e a luz de cada um, iluminando o caminho a dois – explicaram as duas alunas que pediram para acrescentarem mais uma metáfora:
“O amor é a união de duas mãos que se entrelaçam para criar um escudo contra os dias cinzentos.” Com esta metáfora pretendemos simbolizar o amor como um porto seguro e um espaço de conforto mútuo – explicaram a Susana e a Maria, todas orgulhosas pela sua prestação.
- Muito bem!….Estou muito orgulhosa de todos vós. Vejo que perceberam muito bem o conceito de metáfora e o estão a aplicar de uma forma deveras surpreendente. Vamos passar à próxima palavra?
No fundo da sala três mãos se ergueram com as respetivas palavras: união, nostalgia e morte.
- Então, seguindo a ordem alfabética, a próxima palavra será…..
- Morte!- gritaram o Tomás e o Rui.
- Ui!… Mas será possível inventar-se uma metáfora para uma realidade tão desagradável, desconfortável e triste como o é a morte? – observou a professora.
- Nós conseguimos fazer duas metáforas com esta palavra – avançou logo o Tomás.
“A morte é uma tempestade que nos estilhaça por dentro e por fora, deixando-nos de rastos”. Com esta metáfora queremos exprimir a violência emotiva da morte de alguém que nos é querido e que nos deixa completamente abalados.
- Pois eu inventei uma metáfora muito pequenina sobre a morte, mas também muito expressiva, para significar a profunda dor que a morte causa a qualquer ser humano – avançou o Rui.
- “A morte morde o coração com uma dentada bem afiada!”
- Espetacular!- exclamou a professora Vera, manifestamente satisfeita. Quem diria que era possível criar-se belas metáforas sobre um tema tão desagradável?!…. Parabéns, Tomás e Rui. Gostei muito das vossas metáforas. Vamos então à próxima palavra que, seguindo a ordem alfabética, será….
- Nostalgia – gritaram a Vera Lúcia e a Beatriz, ao mesmo tempo que mostravam o respetivo papel que lhes calhara.
- Para mim, “A nostalgia é o eco de um riso que o tempo já apagou.” disse a Vera Lúcia esclarecendo que o eco representa a ressonância de momentos felizes que ainda ouvimos na nossa mente, mesmo sabendo que o momento original já desapareceu há muito.
- Pois, para mim – atalhou a Beatriz – “A nostalgia é o perfume de uma estação do ano que nunca mais vai voltar.”
- E isso quer dizer…..- atalhou a professora Vera.
- Esta metáfora significa que a nostalgia é uma sensação invisível mas poderosa que já vivemos em certos períodos da nossa vida, mas que já não conseguimos replicar no presente.
- Stora Vera, podemos dizer mais uma metáfora sobre este tema?
- Claro que sim! Força!
- “A nostalgia é uma âncora lançada num mar que já secou.” Essa âncora simboliza aquela sensação de estarmos presos ou agarrados a um passado que já não existe no presente e que, por vezes, nos paralisa e nos impede de navegar para a frente.
- Muito bem vistas estas metáforas sobre a nostalgia- observou a professora. Estais de parabéns, pela beleza da vossa criatividade. E vamos, finalmente, à última palavra que é….
- União!- respondeu em uníssono toda a turma depois da Marta ter levantado o último papel distribuído.
- E olhem que vamos terminar muito bem com esta palavra tão bonita e tão cheia de significado para esta turma: União! Vamos lá então terminar a nossa tertúlia metafórica. Começa lá tu, Marta!
- “A união é a argamassa invisível que transforma tijolos dispersos num castelo inabalável.”
- Uau!Mas que lindo!…. Queres explicar-nos o seu significado, Marta?
- Isto quer dizer que o valor da união não está nos indivíduos isolados, mas naquilo que os mantém unidos, colados e firmes, mesmo perante as adversidades.
- Mas que linda metáfora e que bela explicação! Parabéns!
- Obrigada, stora, mas a minha colega, a Sofia também fez uma metáfora sobre a união.
- Vamos a ela, então, Sofia!
- “A união é o abraço de dois rios que esquecem os seus nomes para se tornarem mar.”
- Mas que beleza de metáfora!- exclamou a professora Vera, verdadeiramente emocionada com o trabalho dos seus alunos – Parece mesmo a cereja em cima do bolo para terminarmos esta tão produtiva tertúlia metafórica! Agora só falta explicar-nos o significado desta última metáfora!
- Esta metáfora dos dois rios que esquecem os seus nomes para se tornarem num imenso mar – explicou a Sofia – significa a importância de sabermos esquecer o nosso ego pessoal em favor de algo maior e mais valioso que se consegue através da união, tal como já tem acontecido em muitas das atividades da nossa turma.
E foi com uma vibrante salva de palmas e com a turma toda em pé que terminou esta tertúlia da metáfora que deixou verdadeiramente orgulhosa, não só a professora Vera, como todos os alunos que nela participaram, de uma maneira muito criativa e entusiasmada.

Arouca, 26 de junho de 2026
José Cerca
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