O principezinho voltou e não foi fácil reconhecê-lo!
“Se um menino vier ter convosco, um menino que está sempre a rir, um menino com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é.
Então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem ficar assim triste. Escrevam-me depressa a dizer que ele voltou.”

Passados muitos anos, depois de ter lido o “Principezinho” de Antoine de Saint Éxupery, andava eu a caminhar descontraído pela Serra da Freita, todo embebido pela sua beleza contagiante, quando, de súbito, me deparo com um jovem, muito bem vestido, com “cabelos cor de ouro” e cuja extraordinária beleza me chamou logo a atenção.
Nessa tarde, a Freita apresentava-se toda revestida de um lindo e multicolorido tapete que constituía uma bela moldura para o enquadramento daquele estranho jovem.
De costas para mim, o jovem apoiava as suas mãos na proteção metálica do Miradouro do Detrelo da Malhada, localizado no ponto mais alto da Serra da Freita.
Contemplando, quase absorto, toda a linda paisagem que dali se avistava, o jovem continuava estático e solitário no Miradouro, sem se aperceber da minha presença.
Fui-me aproximando, sem ele dar por isso, de tão contemplativo que estava e, um pouco receoso, ousei perturbar o seu estado de espírito meditativo:
- Boa tarde!….
Ao ouvir a minha saudação, volta-se para trás e dou com o rosto de um belo jovem muito sorridente e emoldurado por uma abundante cabeleira dourada.
- Então aqui sozinho a admirar a natureza, a partir deste belo miradouro?
- “Também se está sozinho ao pé dos homens” – respondeu-me ele, enigmaticamente, deixando-me surpreendido e intrigado com a sua resposta.
- Lá isso é verdade! – concordei eu, mesmo sem entender bem onde aquele jovem queria chegar com tal resposta.
- Mas olhe que, por vezes, é preferível estar-se sozinho para podermos estender tranquilamente os nossos olhos através da beleza que esta linda Serra nos oferece.
- “Os olhos são cegos. Só se vê bem com o coração” – continuava a responder-me, tão enigmática como filosoficamente, esta estranha personagem. E depois de um breve momento de silêncio acrescentou, acentuando cada palavra proferida:
- “O essencial é invisível aos olhos”!…
- Não estou a entender muito bem onde o meu amigo quer chegar com as suas respostas tão sábias, mas tão enigmáticas e incompreensíveis para mim!…- respondi-lhe eu, um pouco a medo por revelar assim a minha ignorância e a minha pouca perspicácia.
- “A linguagem é uma fonte de mal-entendidos” – respondeu-me ele, enquanto continuava apoiado no miradouro e voltado para o vale que dali se contemplava.
- Gostaria de poder travar um melhor conhecimento consigo, mas está difícil de nos entendermos. Até parece que vivemos em mundos diferentes!…
- “Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar”!…- respondeu-me o jovem, sempre no seu estilo enigmático, continuando a revelar uma profundidade de pensamento, com uma certa matriz filosófica, cujo sentido me estava a escapar quase na sua totalidade.
- Embora sem entender completamente onde o meu amigo quer chegar, não posso deixar de concordar consigo.
Ao ouvir isto, o jovem volta-se de novo para mim e com um sorriso meio enigmático, mas profundamente encantador, diz-me, pausadamente, acentuando cada uma das suas palavras:
- “É mais difícil julgarmo-nos a nós próprios do que aos outros”!…
Um silêncio desceu sobre nós, talvez para nos ajudar a ambos a refletir na grande verdade que acabava de ser dita por esta estranha personagem que eu acabara de encontrar mergulhado na beleza solitária da Serra da Freita, naquela linda tarde de Primavera. Depois, com um ar muito sério e adotando uma atitude magistral acrescentou, vincando cada uma das suas palavras:
- “Se conseguires julgar-te a ti próprio és um autentico sábio”!…
Fiquei surpreendido por esta estranha figura começar a tratar-me por tu. Isto deu-me um certo à vontade e trouxe uma maior aproximação entre nós, tornando-me assim um pouco mais efusivo e menos reservado:
- Bravo!…Bravo!…Essa agora entendi totalmente e concordo, em absoluto, com tão grande verdade!…
- “As pessoas crescidas estão sempre a precisar de explicações!”
Não sei se foi uma indireta à minha presunção, acabada de manifestar, ou se foi mais uma das suas verdades, cujo sentido voltou a escapar-me. Mesmo assim, não tive relutância em manifestar, uma vez mais, a minha ignorância e a minha dificuldade em acompanhar o seu enigmático discurso. Ao que ele me respondeu:
- “As crianças têm de ser muito indulgentes para as pessoas crescidas”.
Novamente intrigado com esta resposta, fiquei na dúvida se ela não seria uma crítica direta à minha dureza e lentidão de compreensão.
A tarde caminhava para o seu fim. Lá longe, no horizonte avermelhado, o Sol começava a mergulhar no oceano, pintando um cenário de uma beleza indescritível e que era bastante frequente admirar-se daquele belo miradouro da Freita.
- Lamento imenso, mas temos que nos despedir, pois o dia está a chegar ao fim e o Sol não tarda a por-se no horizonte – disse eu, apontando para o poente onde nuvens, tingidas de vermelho, começavam a esconder os raios do Sol.
- “Se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol” – respondeu o jovem com um encantador sorriso tão belo e caloroso como o Sol que se acabava de por, lá longe, no horizonte, todo matizado de tonalidades vermelhas e douradas.
Foi então que, de súbito, uma espécie de raio atingiu a minha mente, trazendo luz à minha lenta compreensão. Afinal, aquele belo e simpático jovem que tinha ali à minha frente era, nem mais nem menos, que o Principezinho!…. E ao recordar-me do seu enigmático discurso que tinha tido comigo, mais essa certeza se consolidou.
Transtornado e comovido com esta surpreendente descoberta ia a falar, já com os braços abertos para o abraçar, quando ele, levantando a sua mão e com o dedo indicador erguido, me diz pausadamente:
- “Só conhecemos o que cativamos!”
Ao ouvir isto, uma enorme empatia surgiu, de repente, entre nós, ao mesmo tempo que um grande abraço acabava de selar a nossa amizade e o nosso surpreendente encontro. E, continuando com a sua linguagem enigmática, mas profunda e cheia de grande sabedoria, o Principezinho remata:
- “É bom ter tido um amigo, mesmo quando se vai partir!”
Ao ouvir a palavra “partir” sair da boca do Principezinho, uma sensação de tristeza profunda me invadiu, ao pressentir, dentro de mim, a partida inesperada daquele amigo que acabara de me “cativar”. E ao ler no meu rosto a tristeza que começava a brotar do meu coração o jovem Principezinho observa, com o dedo erguido para mim:
- “É tão triste esquecermo-nos de um amigo”!….
Ia para concordar com ele, pois desta vez não tive qualquer dificuldade em compreender a sua linguagem, mas o jovem, com uma certa tristeza e mágoa no seu rosto, conclui:
- “Nem toda a gente teve um amigo na vida!”
- Felizmente que não é esse o meu caso – ia eu a começar a responder, quando, de repente, sem saber como, o jovem Principezinho desapareceu da minha vista, deixando-me ali sozinho, mas com uma sensação de paz e de uma felicidade interior inexplicáveis. Não sei para onde terá ido este meu fascinante amigo, mas certamente que terá partido para um outro Planeta bem mais digno da sua cativante inocência, da sua extraordinária bondade e da sua profunda sabedoria.
- Adeus, meu querido Principezinho! Na verdade, “só conhecemos o que cativamos”! E tu cativaste-me para sempre!…

José Cerca – 25.09.2026