O voto útil numas eleições inúteis

por jcerca em 12 de Junho de 2009

O verdadeiro significado da abstenção

 Como era previsível e apesar do apelo ao voto útil, numas eleições inúteis, o grande vencedor destas eleições, ditas europeias, mas de que de Europa nada tiveram, foi a abstenção.

Por mais comentários que se tenham feito, poucos políticos parecem ter interpretado o verdadeiro significado desta elevada abstenção. Preocupados com tricas partidárias e absorvidos em acusações mútuas esquecem-se, ou fingem ignorar, que a causa desta crescente abstenção são eles próprios, os políticos.

Se tivesse estado bom tempo, a culpa seria do calor que desviou muitos votantes para as praias.

Se tivesse estado mau tempo, a culpa seria, por sua vez, da chuva que impediu as pessoas de irem votar.

Mas nem o tempo esteve tão mau como isso, nem o calor foi demasiado tentador para levar as pessoas a trocarem um dever cívico pelo prazer da praia.

A verdade é que não foi a Meteorologia a grande responsável por tão elevada abstenção, mas sim a classe política que só se lembra do povo quando precisa do seu voto, para se manter no poder, não a zelar pelo bem público, mas a olhar, na maior parte dos casos, pelos seus interesses.

Veja-se o que aconteceu com a proposta de lei sobre o financiamento dos partidos políticos. Unanimidade quase absoluta. Unanimidade escandalosa numa época de crise em que o país se encontra.

Ainda bem que o Presidente da Republica acabou por vetar, e muito bem, tão escandalosa pretensão dos partidos políticos cuja lei até daria para os partidos terem lucros ao fim das campanhas!

Veja-se o que está a acontecer, desde há tanto tempo, com a escolha do novo Provedor da Justiça. Aqui, em vez de unanimidade há desinteligência total e boicote absoluto por parte das forças partidárias que não se entendem quanto à escolha de uma personalidade para ocupar um cargo que deveria estar acima de qualquer força partidária.

Muitos e muitos outros casos poderíamos aqui chamar para demonstrar o desinteresse que a classe politica tem vindo a provocar em muitos cidadãos, devido à má actuação de muitos dos nossos políticos.

Considerando o Presidente da República, no seu discurso do Dia de Portugal, celebrado em Santarém, três dias depois do primeiro de três actos eleitorais,  que terão lugar ainda este ano, que os níveis de abstenção aí verificados “são um sintoma de desistência, de resignação, que só empobrecem a democracia“, não deixou, por outro lado, Cavaco Silva de apontar o dedo à falta de credibilidade dos agentes políticos. E foram palavras com destinatário muito concreto e objectivo:

“A abstenção deve, além disso, fazer reflectir os agentes políticos. A confiança dos cidadãos nas instituições democráticas depende, em boa parte, da forma como aqueles que são eleitos actuam no desempenho das suas funções.”

E remata com uma constatação, cada vez mais óbvia e palpável na nossa sociedade:

“Se não tivermos órgãos de representação prestigiados, será difícil aumentar a participação dos eleitores e demonstrar-lhes que o seu voto é importante e útil para a formação das decisões de interesse geral.”

Será que os nossos políticos ouviram e compreenderam bem esta mensagem tão clara e directa?

 José Cerca

Publicado no Semanário “Discurso Directo” nº 59 de 19 de Junho de 2009

{ 3 comentários… lê abaixo ouadiciona }

1 F Brito 14 de Junho de 2009 às 18:13

Infelizmente esta é a pura verdade. Já não temos orgãos de representação prestigiados que nos possam levar a bom porto. Daí ……votar em quem? De palavras e boas intenções já estamos todos fartos. Eu fui dos que não votei. Estou cansado de ser enganado e sou dos que já votei em diferentes forças partidárias e acabei sempre por sofrer uma desilusão. Enfim……. não estou resignado mas desiludido. A mentalidade dos políticos tem que mudar urgentemente e enquanto os interesses nacionais não estiverem á frente dos interesses políticos e os interesses colectivos á frente dos particulares não vamos a lado nenhum.

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2 benvinda 18 de Junho de 2009 às 9:50

.. muito além de toda esta mensagem e cartão vermelho, dada aos nossos políticos, lamento muito é nunca haver informação precisa e total, de todos os partidos e políticos sem excepção, porque apelam ao cumprimento do dever cívico, de votar, não há abstenção, mas não dizem nem esclarecem que se houvesse uma maioria de votos em branco, era muito complicado, todos estes senhores saltavam fora… isso não dizem eles, pois acredito que se o dito povo, disto soubesse, votavam em branco….

Benvinda

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3 Biranta 2 de Setembro de 2009 às 14:54

A única medida que pode obrigar os políticos a mudar de rumo e que pode “mobilizar” os eleitores para a participação cívica é a que DEVOLVE a dignidade (e a importância) aos cidadãos; trata-se da VALORAÇÃO DA ABSTENÇÃO. Esta é, aliás, uma medida, elementar, que torna o sistema eleitoral realmente democrático. Este sistema eleitoral é o mesmo que permitiu a Hitler subri ao poder e, portanto, legitimou todos os seus crimes e abusos, já devia ter sido convenientemente alterado há muito, mas a desonestidade dos políticos é assim… e reflecte-se não apenas no sistema eleitoral vigarista.

Leiam, assinem e divulguem a PETIÇÃO PARA VALORAÇÃO DA ABSTENÇÃO, para acabar, de vez comos slogans de propaganda nazi usados para estigmatizar os que, no legítimo uso dos seus direitos fundamentais, decidem NÃO votar, porque não se justifica o esforço, porque participar em eleições só servem para eleger gente que nos ignora e nos avilta.

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