O fim da indisciplina

por jcerca em 21 de Junho de 2009

Agora que o ano escolar chegou ao fim, será oportuno ler-se este artigo publicado este fim de semana no Expresso por José Alberto Quaresma e que retrata, globalmente, a situação vivida na maior parte das nossas escolas, no que se refere à disciplina na sala de aula. Querendo, poderá comentar este artigo, clicando em “Comentários” no fim do mesmo. 
José Cerca

expresso

A gente precisa de um olhinho de fora para nos vermos melhor. Desta vez um estudo da O.C.D.E. (e deixemos de lado a bizantina questão se é inquérito ou sondagem) revela que somos dos países da Europa onde os professores perdem mais tempo a manter a disciplina dentro da sala de aula e, ocupados em tarefas administrativas, passam menos tempo a ensinar.

Quem está dentro de uma sala de aula, sobretudo no 2º e 3º Ciclo, sabe que não é fácil chegar àquele momento de acalmia, silêncio, atenção, sem o qual a aprendizagem se torna quase impossível. Passam muitas vezes quinze, vinte, minutos sobre o toque de entrada e o sururu e a rebaldaria continuam.

Em disciplinas, pouco menos que inúteis, como “Formação Cívica” ou “Área de Projecto”, a indisciplina grassa ainda com maior leveza. Nunca compreendi por que razão, de há muitos anos a esta parte, se sobrecarregam os currículos dos alunos com estas disciplinas bizarras, acrescentando mais horas inúteis, roubando tempo e energia, ao que devia ser essencial no Ensino Básico: precisamente a aprendizagem de práticas e de conteúdos de formação básica.

Os conteúdos de “Formação Cívica” são transversais a todas as disciplinas. E não é pelo facto de “Formação Cívica” existir como disciplina autónoma que os problemas, de indisciplina e de falta de civismo dentro das escolas, se atenuaram nos últimos anos. Pelo contrário.

Por outro lado, a disciplina autónoma, de “Área de Projecto”, no Ensino Básico, é um absurdo. Se há projectos a desenvolver com os alunos – e são desejáveis -, o espaço disciplinar ou interdisciplinar é mais do adequado para os concretizar.

Outra das bizarrias que, em minha opinião, não contribuiu para minimizar os problemas de indisciplina dentro da sala de aula, é a descoberta da polvorosa crença de que as aulas de noventa minutos são melhores para as aprendizagens. Num tempo de comunicação instantânea, e de globalização, exceptuando as disciplinas de conteúdos práticos, é penoso para um aluno manter-se atento, e concentrado, noventa minutos consecutivos. E é igualmente penoso para um professor, por mais criativo e perseverante que seja, inventar estratégias mirabolantes que permitam este desiderato.

As aulas, muitas vezes, acabam por ser o prolongamento natural do recreio. O recreio, aquela maravilhosa terra de ninguém, onde é raro ver um vigilante. Onde tudo acontece, do “bullying” à violência impura e dura.

E é o espírito do “recreio” que, salvo muitas excepções, continua a presidir às “boas” práticas educativas. Então nos não foi vendido, durante décadas, o peregrino e ditirâmbico ideário pedagógico de que o professor devia tudo fazer (pinos à parede se fosse preciso) para tornar os conteúdos leves; o professor como “facilitador das aprendizagens”; o professor “estimulador” do aluno para “aprender a aprender”; e outras balelas que nos têm garantido coriaceamente a cauda da Europa nos indicadores da Educação?

Não desesperemos. A indisciplina nas aulas está a desaparecer. O ano lectivo está no fim. As escolas vão entrar num doce sopor. E, lá para Setembro, voltaremos a ouvir falar de arruaça, de indisciplina, de simples bruaá ou de nada mesmo. Passa-se alguma coisa na escola em Portugal

 Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

José Alberto Quaresma

In:http://aeiou.expresso.pt/o-fim-da-indisciplina=f521683

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