Mensagem do “Papa Verde” para o Dia Mundial da Paz
Numa altura em que ainda estão bem frescas as esperanças ambientais em defesa do Planeta Terra, que todo o mundo depositou na recente Cimeira de Copenhaga, Bento XVI, a quem já alguém apelidou de “Papa Verde”, escolheu para o 43º Dia Mundial da Paz um tema que não poderia ser mais actual e oportuno: “Se quiseres cultivar a paz preserva a criação”.
A mensagem que o Papa escreveu para este Dia Mundial da Paz, com que se inicia cada novo ano, foi divulgada ainda durante a Cimeira de Copenhaga e visa consciencializar a Humanidade, de que todos fazemos parte da grande “família da Criação” e que o Planeta que habitamos, independentemente dos nacionalismos em que os povos se agrupam, é a nossa “Casa comum” que merece o respeito de todos e exige o desmoronar de interesses e ambições individuais que constituem um grave entrave ao equilíbrio ecológico e até mesmo à própria sobrevivência da Humanidade.
Aliás, as alterações climáticas no Planeta, com as repercussões nos fenómenos metereológicos, provocando, não só o efeito de estufa, como também a subida do nível do mar, produzem graves consequências que já estão a afectar, dramaticamente, muitas regiões do Globo e que são fruto dos atentados ecológicos contra o Planeta.
Embora não se tratando de um documento técnico, o Papa aborda, nessa sua mensagem, alguns dos principais problemas com que a Humanidade se defronta e que não deixam indiferente a Igreja, perante fenómenos, como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais e o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais.
Tendo consciência de que a crise ecológico que o Mundo vive é também um reflexo da crise cultural e de valores, o Papa, nessa sua Mensagem, começa por evocar o papel importante e a responsabilidade que a Igreja tem na defesa da Criação afirmando que “a Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo”. E justifica essa responsabilidade recordando que a Igreja, «perita em humanidade», tem o dever de chamar vigorosamente a atenção para a relação entre o Criador, o ser humano e a criação.
E para essa relação ser preservada, o Papa defende que humanidade tem necessidade de uma “profunda renovação cultural” e que precisa de “redescobrir aqueles valores que constituem o alicerce firme” sobre o qual se pode construir um futuro melhor para todos.
Dirigindo-se, nessa sua Mensagem, não apenas às comunidades cristãs, mas também aos responsáveis das nações e aos homens e mulheres de boa vontade do mundo inteiro, o “Papa Verde” recorda que “o respeito pela criação reveste-se de grande importância, designadamente porque a criação é o princípio e o fundamento de todas as obras de Deus e a sua salvaguarda torna-se hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade”.
Retomando nessa Mensagem algumas das ideias já abordadas na sua mais recente Encíclica “Caritas in Veritate”, o Papa recorda que “o modo como o ser humano trata o ambiente influi sobre o modo como se trata a si mesmo e vice-versa”. É por isso que ele afirma que “os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros”.
Como habitantes desta “Casa comum” que é o Planeta Terra, todos somos responsáveis pela protecção e cuidado da criação. “Tal responsabilidade não conhece fronteiras” – acentua Bento XVI. É por isso que o homem tem o dever de exercer um governo responsável da criação, preservando-a e cultivando-a.
E o Papa reforça essa responsabilidade afirmando que “proteger o ambiente natural para construir um mundo de paz é dever de toda a pessoa.” E considerando essa tarefa um desafio urgente, Bento XVI classifica-a mesmo como “uma oportunidade providencial para entregar às novas gerações a perspectiva de um futuro melhor para todos”.
José Cerca
Publicado no Semanário “Discurso Directo” nº8 de 08 de Janeiro de 2010
Publicado no Quinzenário “Jornal de Arouca” nº756 de 15 de Janeiro de 2010