Onda de anticlericalismo instalou-se na comunicação social

por jcerca em 7 de Abril de 2010

A pretexto, quer da pedofilia, quer de quaisquer outros assuntos que possam chamar a atenção, negativamente, para a Igreja, tem-se verificado, sobretudo nestes últimos tempos, uma concertada onda de anticlericalismo que tomou conta de certos meios de comunicação social, já não falando do mundo da blogosfera e de algumas  redes sociais.

E mesmo quando se trata de citações de terceiras pessoas feitas por membros da Igreja, como aconteceu agora com a leitura, perante Bento XVI, de um pequeno excerto da carta de um judeu referindo uma certa analogia entre a campanha contra o Papa e contra a Igreja e a perseguição nazi aos judeus, mesmo nestes casos e através de uma intencional distorção dos factos, se apontaram baterias contra a Igreja.

Ainda não há muito pouco tempo, o mesmo aconteceu quando  Bento XVI na Universidade de Ratisbona citou uma frase do Imperador bizantino Manuel II sobre Maomé e logo a mesma histeria mediática acusava o Papa de atacar o Islão e de pôr em causa o diálogo entre cristãos e muçulmanos, quando na verdade o contexto em que tal frase foi citada nada teve a ver com a leitura que dela veio a fazer a comunicação social 

Atirar a primeira pedra 

Constituída por seres humanos e limitados como todos os mortais, não se pretende dizer que não existam erros na igreja Católica, ou mesmo noutras religiões, como existirão, certamente, noutras organizações, sejam elas de cariz religioso, político ou social.

O que nos surpreende é a concertação e o timing escolhido para a divulgação de certas e determinadas notícias visando todas elas o mesmo objectivo. Mas o mais caricato, no meio disto tudo, é que são pessoas que até se orgulham de professar o seu ateísmo as que mais se insurgem contra o Papa e contra tudo o que tem a marca do religioso, como aconteceu ainda recentemente com a polémica à volta de Saramago e do seu Caim. 

Preservativos para o Papa

Um caso paradigmático dessa onda anarquista e anticlerical é a que já foi divulgada por alguns média sobre a preparação de uma acção de distribuição de preservativos nos dias e nos locais por onde o Papa passar, por ocasião da sua próxima visita a Portugal.

Encabeçada por três jovens de Direito da Universidade do Porto, esta iniciativa pretende ganhar adeptos em redes sociais não só de pessoas como de movimentos relacionados com a Sida, gays, lésbicas, transexuais e afins.

Consideramos esta triste e lamentável iniciativa de uma irresponsabilidade a toda a prova e de uma falta de respeito, não só pelo raro momento que o nosso País vai viver, como pela maioria do povo português que se considera católico e sabe que são instituições apoiadas ou ligadas à Igreja Católica as que mais têm contribuído, não só em Portugal, mas no mundo inteiro para apoiarem as vítimas da Sida. 

 Uma falsa luta 

Por mais que os organizadores deste infeliz, irresponsável  e despropositada acção tentem negar, a verdade é que não é a luta contra o flagelo da Sida que está em causa, mas sim mais uma acção anticlerical e antipatriótica,  que ignora propositadamente  o respeito e o prestigio que o Papa nos merece, bem como as convicções religiosas de milhares de portugueses.

Não se procure, pois, camuflar o que está demasiado à mostra e evidente a todos.

De jovens esperava-se muito mais atitudes construtivas, do que meras encenações folclóricos e oportunistas como esta da distribuição de preservativos a qual não trará  qualquer contrapartida válida e positiva para a causa que falsamente dizem querer defender.

É que, pondo em causa valores não só patrióticos, como também religiosos, esta manifestação que fere, logo à partida, o respeito por convicções religiosas de muita gente, que não apenas os católicos, perde toda a sua credibilidade pela inoportunidade em que é lançada e pela falsidade de que está a ser revestida, embalada na onda anticlerical que todos os dias salta para a ribalta de certa comunicação social.

Qualquer  português de bom senso, seja crente ou não crente, se  sentirá indignado. Qualquer  católico, ou seguidor de outra religião se sentira envergonhado!

 José Cerca

Publicado no Jornal”Discurso Directo” nº101 de  9  de Abril  2010

{ 25 comentários… lê abaixo ouadiciona }

1 Lucinda 7 de Abril de 2010 às 13:27

Estou plenamente de acordo. Sinto-me envergonhada com toda esta campanha!

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2 José Cerca 9 de Abril de 2010 às 7:02

Sobre este assunto tão actual, aconselho a leitura deste excelente artigo escrito por alguém cuja opinião sobre o tema em questão, não poderá ser considerada por ninguém de tendenciosa ou suspeita, o que por isso mesmo lhe dará ainda mais credibilidade. A LER com muita atenção.

http://bit.ly/aZXxxp

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3 Norberto castro 9 de Abril de 2010 às 13:49

Como costumo dizer no café, esta polémica, não é minha.
Mas já que estamos a citar outras fontes, recomendo a leitura atenta, da opinião deste “nosso” eurodeputado:

http://ruitavares.net/textos/cesar-esta-a-ganhar/

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4 José Cerca 10 de Abril de 2010 às 4:59

Não, meu caro Norberto, esta luta também e tua, é minha é de todos aqueles que não querem enveredar por um jacobismo anticlerical sem qualquer sentido crítico e objectivo.
E, infelizmente, o exemplo que me apontas não serás o mais indicado e isento, pois é de todos conhecida a posição do bloco de esquerda em tudo o que se refere a valores defendidos não só pela Igreja católica, como por qualquer religião.
Em resposta apraz-me convidar-te a ler este outro texto, desta vez de um conterrâneo nosso a trabalhar na Alemanha.
Argumentar com inteligência e desapaixonadamente sem conotação com qualquer ideologia política contribui para a promoção do respeito e da tolerância, inimigas de qualquer jacobismo anticlerical.
http://bit.ly/bhbSSh

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5 Norberto Castro 12 de Abril de 2010 às 5:43

A posição do Bloco não é única. isto é O Bloco pode ter uma posição oficial, mas os seus deputados ou euro-deputados, têm autorização para pensar pelas suas cabeças, e o Rui Tavares é um dos que de facto pensa.

Continuando as citações, lamentando apenas, que não haja mais participantes , este nosso “dialogo”, esperando no entanto que haja leitores:
http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/10987-o-imbecil-coletivo-no-ataque-a-igreja.html

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6 José Cerca 12 de Abril de 2010 às 5:44

O imbecil colectivo no ataque à Igreja.
Está com sotaque brasileiro e refere-se um pouco à realidade no Brasil mas os argumentos invocados pelo autor deste artigo não deixam de ser interessantes e de contribuir para desmascarar toda esta insane campanha contra a Igreja e o Papa.
http://bit.ly/c9PIMx

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7 José Cerca 12 de Abril de 2010 às 15:31

Caro Norberto
À primeira vista as coisas até parecem combinadas, mas foi pura coincidência a sugestão simultânea para a leitura deste artigo.
Sim, parece-me que as pessoas lêem, mas muitos desses leitores não querem, não têm tempo ou, porventura, terão receio de comentar. E o comentário, desde que se pautue pelo respeito e pelo civismo é sempre enriquecedor.

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8 joaquim toscano 12 de Abril de 2010 às 17:05

Vivemos num tempo de “caça às bruxas”.

Atirar a primeira pedra

Essa já tem correlação com a do Bode Expiatório que era apedrejado fora da muralha para que a cidade (Jerusalém) comemorasse e comesse, sem culpa, o cordeiro …
Gibson, na sua Paixão, passa uma cameo-apearence terrível em que o espectador menos preparado não apanha nada de nada.

Os que professam o seu ateísmo…são crentes
Nas suas convicções, nas pedras da calçada, na ordem natural das coisas, no caos…

Uma falsa luta

Do que acima se escreveu, e do que de facto o País, com tantas acções vergonhosas e criticáveis, e O Mundo precisam é de
Atitudes Conscientes, Éticas e Construtivas, independentemente de Credos e Religiões
Porque, em Modelo Teórico, na política e religião… tudo para o Bem.

Envergonhado não, antes triste.

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9 Maria 14 de Abril de 2010 às 16:58

Centrando-me na primeira parte do seu texto: Independentemente do ser católico ou não, são precisamente declarações não do zé da esquina, nem da maria do café, nem do xavier do blog, mas sim declarações como a mais recente por parte do secretário de estado do vaticano que mostram um total desrespeito pelo ser humano e por essa mesma razão não precisam de intermediários para qualquer pessoa se indignar.

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10 Maria do Rosário 14 de Abril de 2010 às 17:17

Antes de mais desejo a todos uma boa noite,

Certo é que a pedofilia é uma prática que ao longos dos séculos tem sido comum, felizmente, actualmente, há em torno desta uma grande crítica e inclusive penas, que deveriam, contudo, ser mais penosas.

A Igreja, como eu, ou qualquer outro cidadão no Mundo de facto, cometemos erros, mas temos de ser capazes de assumi-los e, quando necessário, sermos punidos.
Os crimes de pedofilia são velhos, no clero ou no seio da nossa família, certo será que, quando os últimos são descobertos, são automaticamente julgados. E os da Igreja? Com que regulariedade vemos os crimes de pedofilia julgados? Com que regulariedade não temos conhecimento deles (por serem omitidos?).

Quanto ao atirar a primeira pedra, deixo um desabafo. Assisti à maioria das Eucaristias da Páscoa da minha Paróquia e, nem numa, o Padre pediu desculpa aos crentes pelas noticias (que se sabem verdadeiras) ao Povo! Contudo, em todas que assisti, o Padre descreveu pormenorizadamente os erros dos Cristãos, os nossos pecados!!

Meu Caro, está na hora de mudar mentalidades: Jesus falou-nos em Parábolas, há-que adaptá-las à realidade em que vivemos! A Sida (e a gravidez precoce) é uma realidade, há-que preveni-la!

Cumprimentos

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11 djapois 14 de Abril de 2010 às 17:20

é triste haver catolicos contra esta opiniao dos preservativos ,gays ,bissexuais,lesbicas etc etc.
acham provocaçao quando a realidade é esta ,a sida,que os catolicos sempre puseram de parte e sempre disseram ajudar e a ajuda deles foi sempre descreminar os mesmos e apontar o dedo. que ajuda é essa?
ou entao abstinencia,que quer dizer deixar de ter relaçoes sexuais quando se tem alguma doença… é triste haver este tipo de pensamento,porque ate os catolicos fazem relaçoes sexuais e alias ,sem preservativo.que relegiao é esta afinal que apoia indiretamente a sida os bébés indesejados entre outras coisas?a igreja e outras relegioes estao a apoiar indiretamente este tipo de casos quando nao abrem os olhos e ajudam este flagelo mundial que nao acontece so em portugal… se deus existisse realmente nao era contra o preservativo ,nao havia fome,nao havia luta,nao havia descriminaçao,ou é preciso ir pro céu pra todo o mundo ser livre? é surreal em pleno seculo 21 estas coisas acontecerem e ninguem apoiar estas causas.
nao é imbecil ataque ha igreja mas sim ataque a mudanças de mentalidades pra que abram a mente desta gente e percebam que ha um problema mundial ,nao é guerra graças a deus mas sim a sida que mata mais de 1.0000 de pessoas a cada minuto.
civismo é ver a realidade onde ela esta e nao fechar os olhos a esta tristeza que esta a acontecer tanto em portugal como no mundo,pela igreja o preservativo nem existia,e a sida se propagava ainda mais e mais a toda a hora….
portugal esta podre ,pela frente as pessoas sao todas muito certinhas ninguem comete erros ,todos fazem sexo sem preservativo ,ha casos de pedofilia nos padres onde eles sao catolicos ,ha uma realidade escondida por pessoas que acham e fazem os outros acreditar que estao certos quando a realidade é outra,por traz fazem tudo ao contrario ,ate porque ninguem ve ninguem sabem quem sao . que relegiao é esta afinal?mentiras, ipócrisia,falso muralismo?! tristezaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

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12 Darius 15 de Abril de 2010 às 6:59

Caro José Cerca

Comecei por comentar e acabei por escrever um texto, com o título “A nova cruzada”, que expressa a minha opinião em relação a este caso e serve de comentário ao seu “post”.

Mas permita-me, mesmo assim, questioná-lo. Se fosse confrontado com o silêncio cúmplice de toda a comunidade local num caso de pedofilia por parte de um colega seu e envolvendo um seu descendente, menor de idade, como reagiria?

Acusaria todos aqueles que pretendessem denunciar o infractor como “anarquistas delatores” e acusá-los-ia de ataque á privacidade da vítima?
Ou responsabilizá-los-ia por terem sido, de certa forma, coniventes com a situação?

Acredito que não seria cúmplice no silêncio e denunciaria tamanha barbárie.

Apenas mais dois comentários.

1- Nem o tal excerto referindo o anti-semitismo, nem a citação de Manuel II Paleólogo feita em Ratisbona terão sido tão inocentes, e ingénuos, quanto podem parecer.

2- Porque razão e de forma é que essa “onda anarquista e anticlerical” (anarquista porquê?), poderá pôr em causa “valores patrióticos” com a distribuição de preservativos? Ou será que a defesa de ideais que colidam com interesses religiosos se transformam em manifestações de falta de bom senso?

Darius

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13 Inês 15 de Abril de 2010 às 8:40

É so para dizer que acho indecente a falta de liberdade que aqui há!
É obvio, sendo um site deste tipo, que os dogmas tinham que se manter, nao respeitand0 as restantes opinioes. Podem calar alguns, mas nao todos! Papa, que defende e absolve pedofilos, papa que encobre corruptos e gentinha que nao merece respeito pois nao respeitam as restantes opinioes! mas porque sera? Sera porque é verdade? e como a igreja sempre viveu para aparencias se calhar fica mal comentarios que dizem a real verdade! A vossa hipocrisia enjoa, e é ridiculo saber que o papa se veste e reveste de ouro, enquanto ha pessoas a morrerem, é revoltante ouvir o papa que se julga a santidade e que todos o veneram , dizer que o correcto nao é usar o preservativo! Ha milhoes de pessoas que morrem por fazerem exactamente o que o papa disse! Sera que voces todos conseguem dormir bem com isso? Apaguem o comentario ; ) , eu nao me vou calar nem aqui nem em outro lado, garanto!

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14 Norberto castro 15 de Abril de 2010 às 13:14

Tiago André,
Até podes ter toda a razão (ou nenhuma), porque de facto , do que escreveste, eu pouco percebi.

Culpa minha…

Responder

15 Nuno 15 de Abril de 2010 às 16:19

No tempo do Salazar é que era, não é?

;-)

Responder

16 Carlos 16 de Abril de 2010 às 8:20

Sendo Cristão no sentido geral e com alguma reserva em relação á igreja católica (que de vez em quando frequento), acho por bem referir o seguinte:

1º – Concordar com a generalidade do texto do post:
2º – Abominar, sem reservas, todas as formas de pedofilia, sejam dos padres, dos bispos, dos juizes, dos jornalistas, dos politicos, dos…;
3º – Discordar completamente da campanha negra que está a ser montada contra a igreja católica, mais parecendo uma “cruzada”, neste caso de sentido contrário e que mais não pretende do que “anular” uma sociedade que ainda tem alguns valores para a transformar em espaço oco, vazio, onde a regra do vale tudo seria dominante;
4º – Nunca devemos tranformar a parte como sendo o todo pois assim cairiamos na tentação de dizer que todos os homossexuais são pedófilos. No “caso Casa Pia”, os pedófilos não eram homossexuais?
Isto para dizer que a igreja, enquanto ideia e conjunto de valores, não deve nem pode ser julgada pelos actos de um ou mais dos seus membros o mesmo se passando nas familias, nas empresas, nas autarquias,
Um abraço

Responder

17 jcerca 16 de Abril de 2010 às 14:10

Carlos
No meio de tanto comentário que tenho lido sobre este assunto, e em que em muitos deles prevalece a irracionalidade, porque escritos não com inteligência, ou sensatez, mas sob o efeito de sentimentos a revelarem algum desequilibrio emocional, felicito-o pelo seu comentário sensato, ponderado e lúcido.
São comentários assim que contribuem para o esclarecimento e para elevarem o nível destes debates.

Responder

18 Darius 16 de Abril de 2010 às 17:12

“Discordar completamente da campanha negra que está a ser montada contra a igreja católica…”

Mas qual campanha? Aonde? Como? De que forma?

Será que denunciar, criticar ou condenar a pedofilia e a violência é “ fazer campanha” ou revela desequilíbrio emocional? Exigir a verdade e que se faça justiça é “fazer campanha” ou uma manifestação irracional?

Ou será que devemos ser cúmplices no silêncio e pactuar com a ocultação de crimes?
Será que o que se passou na Irlanda é algo que se deva aplaudir e esconder da opinião pública? Será que a violação da intimidade de inocentes deve ser tolerada e promovida?

A única campanha existente é a da vitimização que permite, através de atitudes de subserviência, que se desvalorizem e tolerem actos grotescos como a pedofilia e a violência, apenas e só, porque foram cometidos por representantes do clero. Membros esses que, segundo algumas mentes submissas, deveriam ser inimputáveis.

Como humanos, somos falíveis e os membros eclesiásticos serão tão vulneráveis ao raciocínio caprichoso, tão passíveis de serem tentados, tão subornáveis, crédulos e desleixados como o resto da humanidade. Por isso deixemo-nos de tretas e sejamos sérios.

2º – Abominar, sem reservas, todas as formas de pedofilia, sejam dos padres, dos bispos, dos juízes, dos jornalistas, dos políticos, dos…;

Se assim é aonde é que está a “campanha negra” contra a igreja? Na sua divulgação?

Deveria proteger-se os seus protagonistas ocultando-os da justiça e do conhecimento público facultando-lhes a reincidência? Deveria manter-se um pacto de silêncio cúmplice concedendo-lhes imunidade? Deveria promover-se a violência e tolerar-se a barbárie?

Afinal quem é que está a fazer campanha?
Perdoem-me a frontalidade mas referirmo-nos a algo em termos como “abominar sem reservas” e discordar da sua divulgação, denúncia e condenação, justificando-o como uma “campanha negra”, é promover a hipocrisia e a ignorância. É afirmar-se sério sem aderir á causa.

Darius

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19 jcerca 18 de Abril de 2010 às 13:00

Em resposta aos dois comentários de Darius prefiro fazê-lo através deste artigo de João César das Neves publicado no Diário de Notícias do dia de 12 de Abril e escrito com inteligência e sentido histórico, requisitos que faltam a muitos dos comentadores sobre este tema. Intitula-se “A nona bem-aventurança” e aconselho a sua leitura.

“Um dos fenómenos mais espantosos da história da humanidade é o ataque à Igreja. Esse processo, tão aceso estes dias, é sempre muito curioso.
Primeiro pela duração e persistência. Há 2000 anos que os discípulos de Cristo são perseguidos, como o próprio Jesus profetizou. E cada ataque, uma vez começado, permanece. A Igreja é a única instituição a que se assacam responsabilidades pelo acontecido há 100, 500 ou 1500 anos. Os cristãos actuais são criticados pela Inquisição do século XVII, missionação ultramarina desde o século XV, cruzadas dos séculos XI-XIII, até pela política do século V (no recente filme Ágora, de Alejandro Amenábar, 2009).
Depois, como notou G. K. Chesterton em 1908, o cristianismo foi
atacado “por todos os lados e com todos os argumentos , por mais que esses argumentos se opusessem entre si” (Orthodoxy, c. VI). Vemos criticar a Igreja por ser tímida e sanguinária, pessimista e ingénua,laxista e fanática, ascética e luxuosa, contra o sexo e a favor da procriação, etc. Mas o mais espantoso é que os ataques conseguem convencer-nos daquilo que é o oposto da evidência mais esmagadora.
Os iluministas provaram-nos que a religião cristã é a principal
inimiga da ciência; supersticiosa, obscurantista, persecutória do
estudo e investigação rigorosos. A evidência histórica mostra o
inverso. A dívida intelectual da humanidade à Igreja é enorme. Devemos a multidões de monges copistas a preservação da sabedoria clássica.
Quase tudo o que sabemos da Antiguidade pagã veio dos mosteiros. Foi a Igreja que criou as primeiras universidades e o debate académico moderno. Eram cristãos devotos os grandes pioneiros da ciência, como Kepler, Pascal, Newton, Leibniz, Bayes, Euler, Cauchy, Mendel,Pasteur, etc. Até o caso de Galileu, sempre citado e distorcido,mostra o oposto do que dizem.
Depois, os jacobinos asseguraram-nos que a Igreja é culpada de
terríveis perseguições religiosas, étnicas e sociais, destruição
cultural de múltiplos povos, amiga de fogueiras e câmaras de tortura, chacinas, saques e genocídios. No entanto, a evidência de 2000 anos de história real de cristãos concretos é de caridade, mediação, pacifismo. Tudo o que o nosso tempo sabe de direitos humanos, diplomacia, cooperação e tolerância foi bebê-lo a autores cristãos.
A seguir, os marxistas vieram atacar a Igreja por ser contra os
proletários e a favor dos ricos. Quando é evidente o cuidado
permanente, multissecular e pluricultural dos cristãos pelos pobres e infelizes, e as maravilhas sociais da solidariedade católica no apoio aos desfavorecidos.
Vivemos hoje talvez o caso mais aberrante: a Igreja é condenada por…pedofilia. A queixa é de desregramento sexual, deboche, perversão. Mas a evidência histórica mostra que nenhuma outra entidade fez mais pelo equilíbrio da sexualidade e a moralização da vida pessoal da humanidade. Mais uma vez, o ataque nasce do oposto da verdade.
Serão as acusações contra a Igreja falsas? Elas partem sempre de um núcleo verdadeiro. Houve cristãos obscurantistas, persecutórios,cruéis, injustos, luxuosos, como hoje há padres pedófilos. Aliás, em 2000 anos de história, e agora com mais de mil milhões de fiéis, tem de haver de tudo. A distorção está na generalização ao todo de casos particulares aberrantes. Não sendo tão má quanto o mito, a Inquisição foi péssima. Mas a Inquisição não representa a Igreja e a própria Igreja da época a condenou. Os críticos nunca combatem os erros, sempre a instituição. Hoje não se ataca a pedofilia na Igreja, mas a Igreja pedófila.
A razão do paradoxo é clara. Cada época projecta na Igreja os seus
próprios fantasmas. Ninguém atropelou mais o rigor científico que os iluministas. Ninguém foi mais sangrento que os jacobinos. Ninguém gerou maior pobreza que os marxistas. Ninguém tem mais desregramento sexual que o nosso tempo.
O ataque à Igreja é uma constante histórica. A História muda. A Igreja permanece. Porque ela é Cristo. Dela é a nona bem-aventurança:”Bem-aventurados sereis quando vos insultarem e perseguirem” (Mt 5,11).”
JOÃO CÉSAR DAS NEVES

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20 Darius 19 de Abril de 2010 às 4:17

Fiquei surpreendido, pela negativa, mas mesmo assim surpreendido. Decepcionado até.
Esperava mais. Esperava convicção na defesa de uma ideia e não o assumir de uma posição subserviente. Esperava emoção no debate e não a adopção de uma atitude reverencial que dificultasse distinguir entre a realidade e a aparência das coisas. Esperava mais empenho na defesa dos argumentos evitando que estes se tornassem dogmas mortos.

Caro J. Cerca, já conheço o referido artigo, autêntica “apologia da ignorância”, escrito por um crente confesso que rejeitando a isenção teima, contradizendo-se a favor das suas convicções, em rejeitar a ideia da existência de um abismo entre a seriedade e a frivolidade.

Um autor que denuncia, condena e lamenta-se pelo facto de a igreja continuar a ser responsabilizada actualmente pelo seu passado mas, por conveniência, serve-se desse mesmo passado para enaltecer e elogiar eventos eclesiástico conseguidos na época.
Por outras palavras, critica por se fazer referência a um passado menos transparente e conseguido por parte da igreja que, subentende-se, deveria manter-se escondido da opinião pública, mas por outro lado, não hesita em referir esse mesmo passado em revelações convenientes ou de conveniência.

É um texto repleto de imprecisões, tendencioso, caricato, já ultrapassado e contrariado pelas palavras de Bento XVI que ao afirmar “ a igreja tem sido ferida pelos nossos pecados” terá confirmado que, efectivamente, os casos denunciados são uma realidade e não um mero ataque dos infiéis. A recepção ou encontro com as vitimas é a prova que justifica toda esta histeria, na defesa da mediocridade, como puro folclore.

Quando vivemos num mundo a preto e branco dificilmente conseguimos diferenciar as cores mas, existe sempre a possibilidade, até por questões de consciência, de concedermos o benefício da dúvida a questões que possam contrariar as nossas convicções.
A verdade e a razão são incontornáveis e, afinal, a subserviência, pela fé, pode ser comprometedora.

Depois do silêncio cúmplice, as manobras de diversão e por fim a responsabilidade. Esperemos que seja feita justiça e que toda esta gritaria contribua para o erradicar da violência sobre aqueles cuja fragilidade é alvo de gente sem escrúpulos.

Responder

21 Carlos 19 de Abril de 2010 às 9:16

… Como eu gostava de ver alguns “heróis” (escondidos?) dos tempos modernos a ter a mesma coragem para afrontar a hierarquia muçulmana!
Será porque é inquestionável??
Ou porque as caricaturas de Dinamarca ou os “Versos Satánicos”, os fazen pensar duas vezes antes de “atirar a pedra”?
Haja coragem!…

Responder

22 Darius 20 de Abril de 2010 às 4:29

Caro Carlos

Se pretendemos acreditar em algo, devemos fazê-lo por ser verdade e não, por ser uma ilusão só aceitável na ausência de crítica que procure garantir a sua veracidade. O debate de ideias serve para isso mesmo, ajustar o nosso pensamento à realidade e ao considerar a minha argumentação como simples “atirar pedras” deixa transparecer a pretensão de mudar a realidade de acordo com as suas ideias.

Também partilho desse seu sentimento em relação às “caricaturas” e aos “versículos satânicos” que revelam, afinal, que a liberdade religiosa é apenas uma conveniência para a concretização de objectivos e que a “ideia abstracta”, germinada na mente dos crentes, não é assim tão pura e inocente como pretendem fazer crer.

Infelizmente, ainda existe gente com a ideia errada de que uma falsidade se torna verdadeira por se acreditar fortemente nela e que, teimando em privilegiar a ignorância, professam uma ideologia que se destaca pela violência com que condicionam todos aqueles que se atrevem a denunciar os completos disparates da sua argumentação e pensamento.

É comum a verdade provocar reacções adversas mas ignorá-la seria promover a mediocridade e, a intolerância manifestada confirma que o respeito pelas crenças e opiniões dos outros não é uma atitude defendido por “Deus”.
Mas como costumo dizer, o eticamente correcto e o politicamente correcto acabam por ser ferramentas que nos condicionam e oprimem.

Darius

Responder

23 jcerca 20 de Abril de 2010 às 6:13

Meu caro Darius
Pelo vistos vou, mais uma vez, surpreendê-lo e decepcioná-lo com a sugestão de mais um artigo, desta vez de Vasco Pulido Valente, publicado no “Público” do dia 18 de Abril e intitulado “O PAPA E A PEDOFILIA” e que possivelmente também já conhecerá como homem culto e actual que me parece ser.
Embora o vá decepcionar também “pela negativa” sugeria-lhe que o lesse com a serenidade crítica de quem não se julga dono absoluto da verdade, mas aceita que outros tenham pontos de vista diferentes dos seus e que estão também no seu direito de os defenderem sem que para tal os qualifiquemos de “apologia da ignorância”. Todos temos a nossa quoata parte de ignorância. Sejamos suficientemente humildes para o aceitar.
Respeito-o, agradeço-lhe a sua participação neste blog, mas como é óbvio, não posso concordar com todas as ideias que aqui vai alojando. Por coerência e por respeito às minhas convicções!
Vamos então à leitura de mais este artigo:

O PAPA E A PEDOFILIA
Em 1936, um historiador alemão que vivia na Catalunha ouviu por acaso um grupo de camponeses que falava sobre a Igreja. Para espanto dele, os camponeses, que tinham assassinado e torturado milhares de católicos, repetiam as críticas dos folhetos contra Roma, distribuídos na Alemanha do século XVI. Se a Igreja não muda, o anticlericalismo também não. De Lutero ao “Iluminismo” e da grande revolução francesa aos pequenos jacobinos de
Portugal e Espanha, que há pouco menos de cem anos queriam ainda, como Voltaire, “esmagar a Infame”, a Igreja é invariavelmente acusada pela sua presuntiva riqueza e pelo comportamento sexual do clero. Agora chegou a vez da pedofilia, porque na sociedade contemporânea a pedofilia se tornou no
último crime sexual.
Claro que Bento XVI já disse que a pedofilia era um crime, além de ser um pecado, e acrescentou que os padres pedófilos tinham feito mais mal à Igreja do que mil anos de perseguição. Claro que Bento XVI mandou investigar o caso, removeu bispos, suspendeu padres, castigou culpados. Claro que nem ele, nem a Igreja são responsáveis pelas declarações, de facto ofensivas, de
algumas figuras menores do Vaticano ou da Conferência Episcopal Portuguesa.
Mas, como de costume, a lógica não abala o anticlericalismo. O
anticlericalismo decretou que a Igreja intencionalmente encobre (ou encobriu) a pedofilia e não vai mudar. Quem sabe, mesmo à superfície, alguma história sabe que desde o princípio isto foi assim. Ratzinger, que não nasceu ontem, com certeza que não se perturba.
Até porque provavelmente percebe que, por detrás do escândalo do
encobrimento, está o ódio ao Papa “reaccionário”; ao Papa que se recusou a transigir com a cultura dominante em matérias como o divórcio, o aborto, a homossexualidade, o celibato do clero e a ordenação de mulheres. Não ocorreao anticlericalismo que a integridade da Igreja pode exigir essa rigidez, como já mostrou a rápida ruína do anglicanismo. Ratzinger compreende que,
sem o apoio do Estado ou influência sobre ele, a Igreja depende
essencialmente da convicção e da força com que conseguir conservar a sua doutrina. Qualquer fraqueza a transformará numa instituição vulgar, à mercê da opinião pública e das mudanças do mundo. Isso Bento XVI não quer. Como não quer encobrir a pedofilia.
Vasco Pulido Valente
Fonte: Público, 2010-04-18

Responder

24 Carlos 20 de Abril de 2010 às 7:25

Caros Darius e José Cerca,

permitam que encontre um ponto de consenso: a repulsa da pedofilia.
(como diz VPV, “…porque na sociedade contemporânea a pedofilia se tornou o ultimo crime sexual.”)

E permitam esta ideia, que é convicção pessoal:
Acima das pessoas estão, claramente, as instituições! E no caso da igreja, enquanto instituição, acima dela está, claramente, a ideia do divino, quer se seja crente ou não!

No fundo, o que importa aqui é saber até que ponto a prática diária da igreja afecta essa ideia de divino, de mensagem e de fé!

Do meu ponto de vista, afecta!

Mas isso não me desvia do que é fundamental: a parte nunca é o todo!
E mais do que isso: este provado anticlericalismo não pretende, penso, atingir homens que são pedófilos. Pretende, isso sim, atingir a estrutura, a ideia do divino e destruir todos os pilares morais da humanidade!
A estrutura da igreja católica (incluindo o papa), foi o meio que se encontrou para lá chegar!…

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25 Darius 24 de Abril de 2010 às 16:08

Caro J. Cerca

Num debate de ideias, criticam-se as ideias e não as pessoas. Este nosso esgrimir de argumentos não foi excepção e a divergência de opinião proporcionou uma argumentação que me terá surpreendido e decepcionado pela opção, como estratégia de defesa, do uso de “artigos de opinião” como supostos argumentos de autoridade.
Nada disto é pessoal e pelo facto de como anfitrião, sem me conhecer de lado nenhum, permitir a publicação dos meus comentários, divergentes no conteúdo em relação às suas convicções, define-o certamente como uma pessoa séria e responsável.

Vasco Pulido Valente é um autor de eleição.
O texto, que já conhecia, é esclarecedor. A seriedade e isenção, com que o autor expõe o seu raciocínio, permitem perceber os contornos de um “duelo de titãs” que se tem vindo a eternizar.

A responsabilidade de toda esta mediatização fica a dever-se á crise moral e de valores que atingiu a igreja. Afinal que moral poderá ter “a tribo” que conhece abusos sexuais de menores na sua própria organização e opta por fechar os olhos, raramente punindo os agressores?
As exigências e o aproveitamento político exercido pelo “anticlericalismo” pretende apenas enfraquecer e tirar vantagem de uma igreja fragilizada. Uma igreja obrigada a resistir ás investidas exteriores através do reforço da convicção na sua doutrina.

A posição que tenho defendido, além de condenação, é de critica para com aqueles que manifestam sentimentos de indignação pela divulgação de actos de pedofilia no “clã” eclesiástico, cuja hierarquia, assumindo uma postura de vitimização, promoveu a versão do “ataque” ou “investida” dos infiéis, ignorando que as verdadeiras vitimas são crianças e jovens abusados por sacerdotes.

Meras opiniões.

Saudações
Darius

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