Projecto Geoteca e Interteca
Organizado pelo Agrupamento de Escolas de Arouca, sob a coordenação das professoras Amélia Figueiredo e Marta Brandão, ligadas à Rede de Bibliotecas Escolares, teve lugar no passado dia 19 de Junho, na Sala do Capitulo do Mosteiro de Arouca, o I Encontro sobre o Projecto Geoteca e Interteca, que teve como pano de fundo a figura de Abel Botelho, nomeadamente através da sua obra “Mulheres da Beira” e do filme que Rino Lupo realizou em 1921 a partir do conto “Frecha da Mijarela”.
A mesa do Encontro
Tratando-se de um projecto que envolveu várias entidades e que exprimiu, de uma forma muito concreta, a sua transversalidade e a ligação entre a escola e a comunidade local a mesa deste I Encontro era constituída pelo Presidente do Conselho Geral do Agrupamento, Dr.Victor Mendes, pelo Director do Agrupamento, Dr.António Dias Costa, pelo Presidente da Câmara Municipal de Arouca, Eng. Artur Neves, pela representante da DREN, Drº Carla Tavares e pela representante da Rede de Bibliotecas Escolares, Drª Elisabete Carvalho.
Ideias com mérito
Depois de cada um dos elementos da mesa ter usado da palavra para manifestar o seu apreço pelo projecto, acentuando a sua ligação com o Geopark Arouca, foi a vez das professoras bibliotecárias, Amélia Figueiredo e Marta Brandão, explicarem, não só a génese do projecto, como tiveram também ocasião de apresentar as principais actividades realizadas nas escola, no âmbito do mesmo.
Partindo da ideia do Geoparque Arouca que, na altura, preparava a sua candidatura à rede Europeia de Geoparks e, por outro lado, a existência de uma rua em Arouca com o nome de Abel Botelho desencadeou a elaboração do projecto Geoteca e Interteca que, tendo por base “Arouca como recurso”, pretendeu incentivar a comunidade local para a preservação e estudo do seu património local.
Assinatura de Protocolo
Inserido no programa deste Encontro em que foram debatidas as potencialidades Culturais de Arouca, foi assinado um protocolo de colaboração científica e cultural, entre a Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda, o Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão e a Universidade do Porto.
No âmbito deste protocolo e em representação da Real Irmandade, o prof. Doutor Arnaldo de Pinho referiu a sua importância para o estudo do vasto património arouquense e adiantou que está já em estudo a elaboração de um outro com a Universidade de Aveiro, no sentido de estudar o valioso espólio musical existente no Museu de Arte Sacra.
Por sua vez, o dr. Manuel Joaquim da Rocha, em representação do Centro de Estudos D.Domingos de Pinho Brandão, referiu o espólio deste bispo arouquense e que é composto por mais de 30 mil volumes, à espera da criação de um espaço adequado para serem colocados à disposição da comunidade.
Finalmente, a Vice-Reitora da Universidade do Porto referiu que este protocolo é um importante passo para ligar o conhecimento e a pesquisa cultural local às universidades, contribuindo assim para o aprofundamento e divulgação da cultura arouquense e também para a promoção externa de Arouca. Pela Universidade do Porto assinou o protocolo a Directora da Faculdade de Letras Drª Fátima Marinho.
O Colóquio
O ponto central deste Encontro, subordinado ao tema “Arouca como espaço e cenário de cultura” foi certamente o colóquio que teve como referência central a obra de Abel Botelho e que foi moderado pela Vice-Reitora da Universidade do Porto, Drª Maria de Lurdes Correia Fernandes.
Este colóquio constou de três palestras. A primeira, apresentada pela Directora da Faculdades de Letras da Universidade do Porto, Drª Fátima Marinho, falou de Abel Botelho na Literatura Portuguesa, centrando a sua comunicação na análise da patologia social presente em cinco obras deste escritor.
Abel Botelho e a “frecha da Misarela” foi a comunicação apresentada pelo Dr. António Manuel Silva e na qual foram desvendados alguns dados interessantes sobre a vida deste escritor que, não sendo arouquense, revela um conhecimento pormenorizado da descrição que dela faz no seu conto “Frecha da Mijarela”, podendo mesmo ser considerado, depois de Pinho Leal, um dos primeiros monógrafos de Arouca.
Por sua vez, o Dr. Manuel Joaquim Moreira da Rocha, através de um raro conjunto de fotos antigas falou da Vila e do Concelho de Arouca no tempo de Abel Botelho, focando alguns aspectos interessantes sobre o espaço, os homens e as obras, entre o fim da Monarquia e o início da República, tendo concluído pela existência de um relacionamento colaborativo entre o poder político (Câmara) e o poder religioso (Mosteiro).
Do Geoparque à Geoteca
Estando a ideia do Geoparque de Arouca na génese deste Projecto da rede de Bibliotecas Escolares era óbvio que, no Programa deste I Encontro, fosse referido todo o trabalho de parceria existente entre a Associação Geoparque Arouca e as escolas do Agrupamento de Arouca.
Essa comunicação esteve a cargo da Drªa Daniela Rocha que considerou o Geoparque como um território agregador de todas as potencialidades, não só geológicas, como culturais, paisagísticas e gastronómicas, contribuindo, assim, para o desenvolvimento do geoturismo em Arouca.
Sendo o Geoparque também um território de Ciência e de Educação, o
programa educativo da AGA, através das inúmeras actividades que tem desenvolvido com as escolas, tem contribuído para incentivar os alunos para o estudo e preservação dos valores patrimoniais de Arouca.
Foi referido, a este propósito, que o tema das pedras parideiras e da trilobites de Arouca já mereceu, por duas vezes consecutivas, presença nos exames nacionais de Biologia e Geologia, o que demonstra o interesse que estas raros fenómenos geológicos arouquenses têm vindo a despertar no Ensino.
A Frecha da Mijarela
Atracção turística, assaz conhecida e localizada na Serra da Freita, a Frecha da Misarela tem sido, desde há muito, motivo de inspiração, não só para escritores, como para pintores, músicos e poetas.
E foi sob o signo desta beleza natural que este I Encontro terminou.
Depois da leitura, pela Drª Olímpia Loureiro, de excertos do conto de Abel Botelho “A frecha da Mijarela”, publicado em “Mulheres da Beira” e que deu origem ao filme do mesmo nome realizado por Rino Lupo em 1921, teve lugar a projecção deste filme mudo.
Para uma melhor compreensão da sua gramática narrativa e respectivo enquadramento histórico foi feita uma análise a alguns elementos descritivos do filme e que esteve a cargo de Hugo Barreira, finalista da História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Depois da projecção teve lugar um momento musical com canções do “Cancioneiro de Arouca” interpretadas pelo grupo “Vozes da nossa Escola” dirigido pelo prof. Nuno Bessa. E, como não podia deixar de ser, a emblemática “Frecha da Misarela” fez parte deste breve reportório musical com que se encerrou este I Encontro sobre o Projecto Geoteca e Interteca que constitui uma importante jornada cultural, tendo “Arouca como espaço e cenário de cultura”.
“Vozes da nossa Escola” interpretando a Frecha da Misarela
José Cerca
Publicado no quinzenário "Jornal de Arouca" nº767 de 30 Junho 2010
