Visita cultural a Trancoso
Em mais uma das suas visitas de estudo, integradas nas aulas de História e de Geografia, a Academia Sénior de Arouca deslocou-se no dia 29 de março ao planalto beirão para conhecer uma das mais típicas vilas de Portugal, a vila de Trancoso cuja história remonta ao período da formação e independência do reino de Portugal.
Tendo recebido do 1º rei de Portugal a sua carta de foral, foi sobretudo do rei D.Dinis que recebeu as imponentes muralhas que ainda hoje circundam toda a zona histórica desta vila (cidade desde 2004) onde se destaca a torre de menagem do seu castelo do sec.X.
Acompanhado pela guia que a Câmara Municipal de Trancoso gentilmente cedeu, o grupo da Asarc iniciou o seu roteiro cultural através desta vila medieval a partir das Portas d’El Rei, percorrendo, com muito interesse, toda a zona histórica desta vila rica em património.
Memórias do Bandarra
Mas se a figura do rei D.Dinis permanece na memória colectiva dos trancoenses por ele aí ter desposado, em 1282, D.Isabel de Aragão, a verdade é que a figura popular do Bandarra (Gonçalo Anes) lhe faz também alguma concorrência memorial. Por isso, era inevitável que a guia turística conduzisse os visitantes através dos espaços que evocam esta mítica figura de Trancoso, desde a sua estátua, situada em frente à Câmara Municipal, até ao seu túmulo na igreja de S.Pedro, ou até mesmo à designada “Casa do Bandarra”, mesmo ao lado da nova Sinagoga judaica.
Mas se esta figura lendária do poeta-profeta Bandarra permanece na memória popular, através de diversas publicações, há uma outra figura que continua também bem arreigada na memória lendária destas gentes, tendo mesmo assumido projecção nacional, devido às suas aventuras libidinosas. Trata-se do conhecido pe. Fernando Costa, pároco da Igreja de São Pedro e que, segundo consta, terá tido 299 filhos concebidos em 53 mulheres. Julgado em 1487, com 62 anos e condenado pela sua vida dissoluta, consta que El-Rei D. João II o perdoou e o mandou pôr em liberdade com o fundamento deste padre ter ajudado a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo, tendo mandado guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo todo este devasso processo.
Segundo informações da guia, a casa onde terá vivido tal padre é hoje um restaurante (O Restaurante o Museu) presentemente fechado e localizado perto da igreja Matriz de Trancoso, actualmente em obras de restauro.
Comunidade judaica
Tal como Belmonte, Trancoso chegou a ser berço de uma das maiores comunidades judaicas em Portugal e várias marcas dessa presença ainda hoje aí perduram, como aquelas que se encontram nas fachadas de muitas casas, bem como no tamanho das suas portas. Uma dessas casas é a “Casa do gato preto”. Embora no domínio privado, esta casa faz parte do roteiro cultural e diante dela foi explicado pela guia aos alunos da Asarc o significado das diversas marcas judaicas que ainda aí permanecem.
Verdadeiramente interessante foi a visita que se fez ao Centro de interpretação da cultura judaica Isaac Cardoso, construído em 2012 numa área onde se julga ter existido a Judiaria de Trancoso. Nele funciona também uma pequena sinagoga destinada ao culto judaico e inspirada na Sinagoga de Tomar.
Depois de percorrida toda a zona histórica de Trancoso e após uma pausa na “Casa da Prisca” para se saborear as “sardinhas doces”, uma especialidade da doçaria conventual cuja origem remonta ao Convento de Freiras da Ordem de Santa Clara, já inexistente, os visitantes da Asarc dirigiram-se para a Quinta de S.Estevão, em Aguiar da Beira, onde lhes foi servido um delicioso almoço.
Solar Casa da Ínsua
Após o abundante repasto dirigiram-se os visitantes da Academia Sénior para Penalva do Castelo a fim de visitarem a Casa da Ínsua.
Trata-se de uma casa senhorial, mandada construir por iniciativa de Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, governador de Mato Grosso e data da segunda metade do século XVIII. .
Integrada numa vasta propriedade agrícola, e rodeada de belos jardins e por uma zona arborizada, com árvores de grande porte, algumas delas trazidas por Luís Albuquerque do Brasil, este solar está, desde 2009, transformado em hotel de 5 estrelas.
Graças à gentileza da sua Direção, os alunos da Academia Sénior puderam, não só admirar a beleza das principais salas que compõem este solar, como também visitar o seu núcleo museológico, onde permanecem, entre muitas outras coisas, marcas das primitivas instalações eletricas, uma vez que este solar, foi dos primeiros locais no país a ter energia eléctrica.
Além das guias que acompanharam os alunos nestas visitas, quer em Trancoso, quer na Casa da Ínsua, esta viagem cultural da Asarc foi também enriquecida com os contributos informativos sobre a região visitada e que foram sendo fornecidos pelos respectivos professores de História e de Geografia, ao longo da viagem.
A todos os que contribuíram para o enriquecimento desta viagem, a Direção da Asarc manifesta o seu público reconhecimento, nomeadamente à Câmara Municipal de Trancoso e à Direção da Casa da Ínsua.
José Cerca
Publicado no semanário “Discurso Directo” nº400
de 8 de abril de 2016






