As localidades de Regoufe e de Rio de Frades fazem parte da história, não só de Arouca, como de Portugal e até mesmo da Europa, por estarem ligadas à exploração do volfrâmio na Segunda Guerra Mundial e que, no concelho de Arouca, foi pacificamente partilhada entre ingleses e alemães.
Se em Regoufe a exploração do volfrâmio era feita para os Ingleses, em Rio de Frades o “volfro” destinava-se aos Alemães.
Em ambas as localidades os complexos mineiros são hoje, apenas e infelizmente, ruínas fantasmas de um passado mineiro onde chegaram a trabalhar, só em Rio de Frades, mais de 3.000 pessoas na exploração do volfrâmio usado, então, no fabrico de armamento e que era exportado para o palco da guerra, através de uma mesma via de escoamento dentro do Concelho.
A exploração desenfreada de volfrâmio representou, então, a oferta de novas oportunidades de trabalho, atraindo ao concelho de Arouca, milhares de pessoas de todo o país, quer para trabalharem como mineiros, quer para serem “pilhas” que, então, se tornaram famosas devido ao contrabando deste tão procurado minério.
A “febre do volfrâmio”, a riqueza súbita e o consumo exagerado causaram impacto nos hábitos e costumes da região, tendo deixado marcas profundas, não só na memória das pessoas, como também na paisagem local.
“Suor o deu, miséria o levou”
Para evocar um pouco do ambiente que se criou em Arouca, nesse período da 2ª guerra mundial, por causa desta febre do minério, o grupo de teatro experimental de Arouca – TEA trouxe a Arouca, no passado dia 22 de outubro a peça de teatro “Volfrâmio” que foi levada à cena pelo grupo de teatro da Associação de Promoção e Desenvolvimento de Castelões – APDC.
O texto, bem como a encenação da peça, resultou de um trabalho de pesquisa de Alberto Bastos, da referida Associação e que teve como base principal a obra do arouquense António Vilar intitulada “O Volfrâmio de Arouca no contexto da segunda guerra mundial” (1939-1945) publicada pela Câmara Municipal de Arouca em 1998.
Participaram nesta peça em 3 atos 20 pessoas, devidamente caracterizadas, e que, apesar de amadores, conseguiram evocar, através de diversas cenas, o ambiente criado à sombra desta febre do volfrâmio, entre os anos de 1942 a 1944.
Se no 1º ato, passado nas minas de Rio de frades, se retrata a pesagem e a venda e do volfrâmio, acompanhada, por vezes, por algumas tentativas de trafulhice na qualidade do minério, também se evocam, não apenas as derrocadas no interior das minas, mas também as revistas aos mineiros no início e no fim de cada turno.
No 2º ato, passado no Café Royal do Porto, lugar de encontro de arouquenses endinheirados pela súbita riqueza do volfro, tenta caracterizar-se a exibição dos sinais exteriores desses novos ricos, personificados no “rei do minério” que até se dá ao luxo, não só de ter à sua espera um táxi para o levar de regresso a Arouca, como comete a fanfarronice de fumar notas de 100 escudos perante as suas amantes.
Cenas de pancadaria entre as mulheres frequentadoras do referido café, bem como cenas de bebedeira por parte dos novos endinheirados pela febre do minério, contribuem para aligeirar o decorrer da narrativa teatral.
A última parte desta peça decorre numa tasca na Vila de Arouca, onde os mineiros, enquanto bebem e jogam, vão comentando a decadência da extracção do minério, expressa através da referência à venda da separadora, ao mesmo tempo que evocando problemas de saúde, devido ao “pó do minério”, brindam à memória de todos aqueles que morreram nas minas do volfrâmio. Na verdade, é com tristeza e amargura que concluem que “Suor o deu, miséria o levou”. E assim, do sonho da ambição, alimentada por esta febre do minério, se regressa à simplicidade da vida campesina.
Novas representações
Esta foi a 4ª representação desta peça sobre o Volfrâmio, estando a próxima marcada já para o dia 19 de novembro, em Nogueira do Cravo.
Fazendo parte do património histórico arouquense este agitado período da febre do minério, seria desejável que novas sessões se realizassem noutras localidades do Concelho de Arouca, até porque, nesta sessão, a ocupação da plateia da loja intereativa ficou a 50% .
No final da representação, e após a apresentação de cada um dos atores, o autor do texto e ensaiador, Alberto Bastos, entregou ao grupo TEA um exemplar do texto. Por sua vez, um representante do grupo anfitrião agradeceu a presença em Arouca do grupo da APDC de Castelões a quem entregou algumas lembranças.
José Cerca
Publicado no semanário “Discurso Directo” nº427 de 28 de outubro de 2016






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Parabéns!
Parabéns ao “dono” do blog, idem ao autor da peça e aos actores e encenador, e especialmente ao auroquense António Vilar pelo trabalho desenvolvido para conservação da memória deste passado mineiro e social do lugar.
Este tipo de actividades em torno da memória local é importante, não apenas para os nativos mas também para quem (como eu) procura relatos vividos de actividades mineiras do passado
Bem hajam!
Carlos Calado (geólogo)