A FLORESTA E OS INCÊNDIOS

por jcerca em 28 de Março de 2017

 Primeiras Jornadas da Floresta em Arouca

Depois do trágico incêndio que consumiu grande parte da floresta em território arouquense em agosto de 2016, impunha-se uma profunda reflexão e um sério debate sobre “a floresta e os incêndios”.

Numa iniciativa conjunta da Associação Circulo Cultura e Democracia e da Câmara Municipal de Arouca foi possível reunir um conjunto de agentes locais, profunda e dedicadamente empenhados no sector da floresta, bem como um naipe de reputados investigadores que, desde há muito, estudam o fenómeno dos fogos e das suas causas e consequências na floresta portuguesa.

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Foi assim que, nos dias 24 e 25 de março de 2017, surgiram em Arouca as primeiras Jornadas da Floresta.

Com uma formatação muito bem pensada e melhor conseguida, estas Jornadas permitiram, não só a partilha do testemunho de 10 agentes locais ligados à floresta e à problemática dos incêndios, bem como a divulgação do conhecimento científico partilhado por 6 investigadores ligados a diversas instituições universitárias e possuidores de uma vasta publicação sobre estas temáticas.

Testemunhos dos agentes locais

Realizadas no espaço do auditório municipal, na Loja intereativa de Turismo, estas jornadas foram abertas com a intervenção do Vereador Dr.Marcelo Pinho, em representação da Câmara Municipal, e do Dr. Manuel Brandão Alves pelo Circulo Cultura e Democracia.

Depois de se congratular pela concretização desta iniciativa que conseguiu reunir um vasto e diversificado conjunto de pessoas, bem conhecedoras do universo florestal, que envolve cerca de 150 empresas, sendo um dos sectores económicos com mais futuro em Arouca, Marcelo Pinho informou das diligências, já em curso, por parte da Câmara Municipal, no sentido de vir a ser criado um “corredor ecológico” ao longo da estrada de Arouca a Alvarenga, para protecção de incêndios e ao mesmo tempo para embelezamento da paisagem.

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Por sua vez, Manuel Alves manifestou a sua convicção de que a maneira como tratarmos da floresta e cuidarmos do ambiente são importantes sustentáculos da nossa democracia. Reconheceu, no entanto, que a problemática da floresta e dos fogos é muito complexa, dada a geologia dos terrenos, a tipificação das árvores e a interacção humana com o ambiente.

Dois olhares sobre a floresta

Nos diversos testemunhos que compuseram o 1º painel destas Jornadas, moderado por Cláudia Oliveira, delinearam-se dois olhares diferentes, mas complementares, sobre a floresta.

Enquanto agentes locais ligados à indústria da extracção florestal em Arouca, falaram da floresta como importante suporte para a empregabilidade e para a economia local e nacional, dois movimentos cívicos, a “Matéria-Prima” e o “Movimento Gaio”, partilharam um interessante e animador conjunto de iniciativas, levadas a efeito nas encostas da Serra da Freita, no intuito de devolver à natureza a sua matéria-prima, destruída nos últimos incêndios, chamando, assim, a atenção para o envolvimento da comunidade local e para o importante papel da cidadania na reflorestação e na sensibilização à educação ambiental.

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No debate que se seguiu a este painel foram lançadas algumas interessantes sugestões, umas sobre a sobreirização da floresta arouquense, outras sobre a necessidade da reconversão do castanheiro bravo através da enxertia, bem como da importância da certificação da castanha arouquense. Ficou também no ar um alerta para os perigos da monocultura do eucalipto em detrimento das espécies autóctones.

O primeiro dia destas Jornadas  da Floresta foi encerrado por duas importantes palestras, uma sobre a gestão partilhada  da floresta, proferida pelo Dr. Américo Mendes, um especialista em economia e política florestal da Universidade Católica do Porto e a outra proferida pelo ex-Secretário de Estado, Eng. Victor Louro que abordou a mobilização dos cidadãos para a gestão eficiente da floresta. Constatando que grande parte das decisões políticas sobre a floresta parte mais dos gabinetes do que da auscultação dos cidadãos, Victor Louro defendeu um processo participativo que conduza a um maior papel dos cidadãos na gestão deste bem público que é a floresta portuguesa.

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O fogo, inimigo da floresta

Estruturalmente estas Jornadas da Floresta organizaram as suas temáticas à volta de dois grandes blocos. Se no primeiro dia o debate esteve centrado na floresta e na grande riqueza que ela representa para a economia local e nacional, o 2º dia dedicou a sua atenção e preocupação ao combate ao grande inimigo da floresta que são os incêndios.

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Nesse sentido, era indispensável a presença dos Bombeiros Voluntários no 2º painel destas jornadas, os quais estiveram representados pelo seu ex-comandante, Carlos Esteves e pelo segundo comandante José Filipe Amorim Pinho, tendo ambos fornecido, não só informações sobre a evolução dos meios de combate aos incêndios nesta Associação, como também uma análise à progressão e combate aos últimos grandes incêndios que assolaram a floresta arouquense em 2005 e 2016 e no último dos quais foi consumida cerca de 60% da área florestal de Arouca (21 mil hectares).

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De uma maneira menos histórica e menos técnica, mas muito mais testemunhal, foi a participação do Presidente da Junta de Tropeço, Adriano Soares Francisco que, desde há muitos anos, lidera um grupo de cidadãos da sua freguesia empenhados na preservação e na luta contra os incêndios. Na verdade, referiu este autarca, gastam-se milhões na luta contra os incêndios e pouco se faz na sua prevenção.

Este segundo painel contou ainda com a participação do Eng. Manuel Rainha, técnico superior do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e responsável pela gestão do perímetro florestal da Serra da Freita e da Mó e que apresentou algumas estratégias para a gestão de combustíveis nesses perímetros florestais.

Partilha do conhecimento científico

Além dos testemunhos destes agentes locais o segundo dia destas jornadas contou ainda com o contributo de três investigadores sobre a temática dos fogos florestais.
O primeiro foi o eng. José Miguel Pereira do Instituto Superior de Agronomia e que falou sobre os fogos rurais em Portugal e sobre as principais causas dos fogos investigados, bem como sobre os perfis dos incendiários.

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A problemática do fogo controlado, seus objectivos e regulamentação foi abordada pelo engenheiro florestal Paulo Fernandes da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Finalmente, o eng. Agrónomo Eugénio Sequeira falou sobre as condições de um combate eficaz e eficiente do fogo, referindo as consequências do despovoamento e do abandono das terras na propagação dos fogos, bem como o impacto que as imagens dos incêndios provocam junto dos pirómanos.

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O intenso programa destas jornadas terminou com a realização de uma mesa redonda, moderada por Brandão Alves, do Círculo Cultura e Democracia e em que participaram todos os palestrantes que vieram trazer importantes contributos científicos sobre “A floresta e os incêndios”, temática central destas primeiras jornadas da Floresta.

José Cerca

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