NÃO GOSTEI DO QUE VI

por jcerca em 2 de Julho de 2020

A nova entrada de acesso ao Mosteiro de Arouca

É natural que qualquer intervenção num edifício histórico, como o é o Mosteiro de Arouca, nunca seja pacífica e esteja sempre sujeita à diversidade de opiniões. Foi o que aconteceu com as obras de requalificação no Centro histórico de Arouca, nomeadamente com a intervenção na praça Brandão de Vasconcelos, mesmo ao lado do Mosteiro de Arouca. É o que acontecerá, naturalmente, com as obras de adaptação para a instalação de uma pousada em espaços deste Mosteiro, de acordo com o projeto “Revive”. E é o que está a acontecer com as obras, ainda a decorrer, para a “Instalação de uma Estrutura de Acolhimento ao visitante” que passará a ser a nova entrada de acesso ao Mosteiro de Arouca e ao Museu de arte sacra nele instalado há cerca de 70 anos.

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Na visita que fiz recentemente a essas obras fiquei desgostoso com a opção que os responsáveis pela elaboração deste projeto tomaram ao decidirem pintar de branco, na zona de intervenção, toda a superfície em pedra, quer das vetustas paredes deste Mosteiro, quer dos seus belos arcos que as suportam.

A localização do elevador que conduzirá os visitantes do rés-do-chão até ao 1º e 2º pisos pareceu-me bem escolhida e adequada, bem como as rampas para a mobilidade de deficientes. O espaço para a instalação de casas de banho pareceu-me correcto e funcional. A preservação de um troço da parede mais antiga deste Mosteiro, possivelmente do sec.XII, e que ficará protegida por um separador de vidro, pareceu-me muito positiva e interessante.

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Embora ainda em fase de conclusão e apesar de todos estes aspetos positivos, não posso deixar de referir que me chocou a pintura em branco que observei sobre o granito, quer das paredes, quer dos arcos presentes naquela zona de intervenção. Sendo o Mosteiro de Arouca um dos maiores mosteiros em granito não se compreende como é que se vai ofuscar a beleza de tanta pedra com a sua pintura em branco.

Dir-me-ão que esta pintura em branco será para estabelecer um maior contraste com o preto da madeira que revestirá parte deste espaço. Mesmo assim, não ficarei convencido, pois o melhor contraste seria, isso sim, entre a naturalidade rústica da pedra e a macieza suave da madeira.

 

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Acredito que os técnicos que optaram por esta solução, que obviamente até veio encarecer mais a obra, lá terão as suas razões, mas quem estava habituado a ver a beleza de tanto granito em estado rústico, certamente que irá ficar desiludido com esta capa branca com que foi coberto e dificilmente encontrará uma razão para tal opção. Aliás, se a parede primitiva vai ficar ao natural – e muito bem – por que motivo não ficarão ao natural também as restantes paredes e sua arquearia?

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A cerca de dois meses para o fim das obras, bem gostaria de mudar de opinião, ao ver o resultado final desta intervenção, mas parece-me difícil que tal venha a acontecer pois, embora seja um leigo em arquitetura, parece-me que a beleza de todo aquele espaço, que funcionará como estrutura de acolhimento, ficará gravemente prejudicada com a capa de branco com que esconderam a genuidade do granito.

José Cerca

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº519 de  1o de julho de 2020

 

 

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1 VictorCruz 7 de Agosto de 2020 às 14:11

Prof Cerca, parabéns pela sua notícia. Como é possível estragarem a beleza natural das paradas graníticas naquele espaço do convento. Passei muitos anos da minha vida no centro juvenil Salesiano dentro daquelas paredes e agora fico chocado pela transformação
VictorCruz

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