O Papa e o preservativo

por jcerca em 26 de Março de 2009

A evidência corrobora as afirmações do Papa

Sendo o Continente Africano uma das regiões do Planeta mais afectada pelo problema da Sida, era natural que o Papa, na sua última viagem tivesse abordado esse problema.
E o problema foi-lhe logo colocado durante a viagem de avião que o conduzia de Roma a África, precisamente por um dos 70 jornalistas que o acompanhavam.
Apesar dos jornalistas, de várias nacionalidades, lhe terem colocado diversos problemas, à comunicação social só interessou, e completamente desvirtuado do seu contexto, o problema relacionado com o uso do preservativo.
E não faltou logo em tudo o que é comunicação social e, sobretudo no incontrolável mundo da blogosfera, as mais violentas críticas contra a posição do Papa sobre o grave problema da SIDA e a sua relação com o uso do preservativo.

Cientistas dão razão ao Papa

bento_xvi_partida_para_africaO mais caricato no meio de toda esta campanha demolidora contra a opinião do Papa, é que a maior parte das opiniões que apareceram na comunicação social são de pessoas que pouco ou nada sabem deste problema e que fundamentam as suas opiniões apenas em ideologias e não em estudos científicos.

Nesse sentido merece interesse a opinião do Director do Projecto de Estudos sobre Prevenção do S.I.D.A. de Harvard ao referir que as “afirmações do Papa acerca da distribuição do preservativo tornar a epidemia do S.I.D.A. pior estão correctas”

Edward C. Green do Centro de Estudos sobre População e Desenvolvimento de Harvard, (uma das mais conceituadas universidades do Mundo) afirmou que a evidência corrobora as afirmações do Papa ao declarar que a distribuição de preservativos piora o problema do S.I.D.A.

“O Papa está certo” – afirmou Edward Green ao National Review Online -  ou, melhor dizendo, as nossas melhores conclusões vão ao encontro dos comentários do Papa.”

“Existe – acrescentou Green – um paralelo consistente que mostram os nossos estudos, incluindo a “Demographic Health Surveys”, financiada pelos Estados Unidos, entre uma maior disponibilidade e uso de preservativos e uma maior – não menor – incidência de infecções pelo vírus HIV. Isto pode dar-se devido ao fenómeno conhecido por “compensação de risco”, significando que quando a população utiliza uma tecnologia de redução de risco, como o preservativo, muitas vezes essa mesma população perde o benefício da redução desse risco, ao “compensar”, arriscando-se mais do que faria sem essa tecnologia”.

E é curioso  notar que este investigador no seu livro “Repensar a Prevenção do S.I.D.A.” defende uma posição que se aproxima, em  muitos aspectos, da posição defendida por Bento XVI. Nele Green revela que “As soluções, na sua maioria médicas, fundadas pelos grandes doadores tiveram pouco impacto em África. Em compensação, mudanças de comportamento relativamente simples e de baixo custo – como a insistência numa crescente monogamia e no adiamento da actividade sexual para os mais novos – têm tido maior sucesso na luta contra a doença e na sua prevenção.”

A Entrevista ao Papa

O texto completo da entrevista entre o Papa Bento XVI e os jornalistas que o acompanhavam, foi posteriormente divulgado pela imprensa do Vaticano. Mas não parece que esse texto tenha despertado grande interesse por parte da comunicação social

Entre muitas outras questões, o Papa foi confrontado com a seguinte pergunta colocada pelo jornalista Philippe Visseyrias, da France 2:

- “ Santo Padre, um dos maiores flagelos de África é o problema da epidemia de S.I.D.A. A posição da Igreja Católica na luta contra este mal tem sido frequentemente considerada irrealista e ineficaz.”

Bento XVI respondeu:

- “ Eu diria o contrário. Estou convencido de que a presença mais efectiva na frente de batalha contra o HIV/S.I.D.A. são, precisamente, a Igreja Católica e as suas instituições. Penso por exemplo na Comunidade de Santo Egídio, que tanto faz, e tão visivelmente, na luta contra o S.I.D.A; ou nas Camillianas, só para mencionar algumas das freiras que estão ao serviço dos doentes.
Penso que este problema, o S.I.D.A., não pode ser vencido com slogans de propaganda. Se falta a alma, se os Africanos não se entre-ajudarem, o flagelo não pode ser resolvido com a distribuição do preservativo; pelo contrário, arriscamo-nos a piorar a situação. A solução só pode advir de um compromisso duplo: primeiro, na humanização da sexualidade, ou por outras palavras, num renovamento espiritual e humano que traga consigo uma nova forma de proceder uns para com os outros. E em segundo lugar, num amor autêntico para com os que sofrem, numa prontidão – mesmo à custa de sacrifício pessoal – para estar presente junto dos que padecem. São estes os factores que podem trazer o progresso, real e visível.

Assim, eu diria que o nosso esforço deve ser o de renovar a pessoa humana por dentro, o de dar-lhe força espiritual e humana para uma forma de comportamento justa para com o seu corpo e o corpo do outro; e ainda o de ajudá-la a ser capaz de sofrer com os que sofrem e de estar presente nas situações difíceis.

Acredito que é esta a primeira resposta ao problema do S.I.D.A., que é esta a resposta da Igreja e que, deste modo, a sua contribuição é uma grande contribuição. E estamos gratos a todos os que assim contribuem.”

Realçar o acessório e o ignorar o essencial

Sobre a polémica do preservativo tão artificialmente explorada e enfatizada por certa comunicação social, que quase ignorou muitos dos temas abordados pelo Papa, tais como a corrupção, o desperdício de recursos, o tribalismo, a lei do mais forte, a  situação da mulher africana, a fome, a doença, o imperativo da paz,  não resisto a transcrever esta passagem de um artigo publicado no Diário de Notícias por Maria José Nogueira Pinto:

“Os milhões de africanos que caminharam ao encontro do Papa fizeram-no com o espírito de confiança que a Igreja cimentou nesses países onde está, não apenas na liturgia dos templos, mas no terreno, junto das populações, cuidando, tratando, acolhendo, provendo, como pode, à satisfação das suas necessidades mais básicas. Neste Continente que tantos dão de barato como “perdido”, a Igreja desenvolve diariamente mil e uma acções junto daqueles que a geografia privou de toda a dignidade.

Pode-se não acreditar, não ter fé, acreditar e discordar mas não se pode inventar uma outra religião mais conforme aos ditames intelectuais que hoje nos regem, com outra lógica, com outros fundamento. A Igreja que foi a África foi de visita aos seus filhos mais abandonados. Não foi cobrar impostos, nem pedir votos, nem fazer campanha mediática. Foi levar a esperança e dizer a verdade. Por isso mesmo é que os africanos a receberam de coração aberto.”

José Cerca

Publicado no Semanário “Discurso Directo” nº 48 de 3 de Abril de 2009

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1 jcerca 1 de Abril de 2009 às 15:44

Sobre este assunto acho oportuno transcrever este comentário de Francisco José Viegas:

Quando o Papa diz seja o que for, a primeira coisa que se perfila é um vasto
pelotão de flibusteiros e engraçadinhos que não ouve o que o Papa diz mas
comenta o que gostaria que ele tivesse dito. Qualquer cronista avançado e
com gosto pela heresia (que é hoje muito fácil e bem remunerada) diz duas
alarvidades a jeito.

O mais preocupante é ver a insuspeita quantidade de especialistas em
teologia e história eclesial que logo se ergue nas rádios e nos jornais,
como se fossem católicos de ir à missa e se importassem muito com os pobres
que morrem de sida. O ideal, para estes cavalheiros, seria um Papa que
defendesse o aborto, o sexo com animais e a distribuição de preservativos
nas escolas. Isso sim, seria moderno, fracturante e capaz de chamar fiéis.
Fiéis não se sabe a quê.

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