Carta Pastoral dos Bispos Portugueses

 

Numa altura em que a Escola Portuguesa manifesta publicamente um profundo mal estar, quer por parte de professores, quer por parte de alunos, o qual tem vindo a ser evidenciado, não só na comunicação social, como através de expressivas manifestações sociais, quiseram os Bispos Portugueses, atentos a essa crise, dar o seu contributo na reflexão sobre a mesma.

A Carta Pastoral, recentemente publicada pela Conferência dos Bispos Portugueses, reunida em Fátima, é um documento bastante oportuno e que aborda, de uma maneira séria, profunda e objectiva, os grandes problemas que afectam a Escola Portuguesa.

Independente de qualquer filosofia política ou de qualquer corrente partidária, este documento bem mereceria a profunda reflexão de todos aqueles sob os quais recaem as principais responsabilidades na condução dos destinos da Escola Portuguesa, a começar pelos nossos Governantes.

De facto, pelo importante papel que desempenha na sociedade portuguesa e pela crise que vem enfrentando, a escola é uma instituição que – afirmam os Bispos, nesse documento – “não nos pode deixar indiferentes, bem como a todos os cidadãos que tenham preocupações relacionadas com o presente e o futuro do país” .

 

Uma análise politicamente corajosa

 

Perante o que se vive actualmente na Escola Portuguesa, considera a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP)  que é “necessário analisar e avaliar, com serenidade e profundidade, os problemas emergentes mais importantes que afectam, no nosso tempo, a vida da escola, para melhor os poder enfrentar”.

Sem pretenderem querer limitar o problema do ensino apenas à actual conjuntura política, dizem os Bispos Portugueses que o Estado tem sido, por vezes, “em virtude das políticas dos diversos governantes, um obstáculo à melhoria da qualidade da escola portuguesa”. E referem mesmo alguns exemplos concretos ao afirmar que: “as reformas educativas sustentam-se frequentemente em trabalhos técnicos de gabinetes que infundem no sistema, por imposição linear imediata, mudanças que substituem outras mudanças ainda não devidamente implementadas nem avaliadas. Assim se lança ou favorece o caos permanente e a insegurança nos profissionais docentes que trabalham nas escolas”.

Nesta sua análise, acrescentam ainda que algumas medidas “ são impostas, sem valorizar a diversidade de escolas e contextos e desprezando a liberdade de actuação dos professores, pais, autarquias e outros agentes locais, com projectos educativos próprios”.

A melhoria das escolas

 

Vinda de uma instituição com um papel histórico relevante na educação portuguesa e com um considerável peso no actual panorama dos estabelecimentos de ensino do País, esta análise sobre a presente situação da Escola Portuguesa, é reforçada por dados bem concretos entre os quais os bispos, ao referirem-se à escola católica, apontam “a capacidade inovadora nos processos e meios educativos, o valor e seriedade dos resultados obtidos na educação dos alunos e no seu aproveitamento escolar e, sobretudo, a preferência manifestada pelos pais, sempre que os filhos a ela possam aceder”.

Consideram os Bispos Portugueses que o Estado, sendo parte do problema, será obviamente também parte da solução, pelo que se exige, neste campo, “muito mais ousadia e inovação aos diversos grupos políticos, pois sucessivos governos têm sido incapazes de encontrar um modelo de actuação de um estado regulador, articulado com um sistema onde reine a liberdade, a autonomia e a responsabilidade dos professores e dos actores sociais que com eles cooperam”.

E vai mais longe ainda a CEP, ao afirmar que “a racionalização instrumental, económica e técnico-funcionalista não deve constituir o principal referente do desenvolvimento e melhoria das escolas. Estas devem, antes, guiar-se pela promoção constante da dignidade humana, pela formação de uma interioridade criativa e solidária no coração de cada estudante, em constante confronto com o mistério da vida humana”.

Um contributo muito positivo e oportuno

 

Afastado de lutas partidárias, de reivindicações sindicais, ou de aproveitamentos políticos, este documento dos Bispos Portuguesas deverá merecer uma leitura atenta, por parte de todas as entidades directamente ligadas ao problema da educação portuguesa, pelo diagnóstico e pistas de solução que nele residem e pelo contributo que ele representa para a reflexão de problemas da nossa sociedade, com particular incidência sobre a vida das pessoas e o bem da comunidade, como é o problema da Educação que encerra em si – tal como é referido nesse documento - um “papel decisivo na transformação dos indivíduos e das suas atitudes”.

 

Considerando que a educação é uma realidade muito mais ampla do que a experiência escolar, e que não pode ser vista apenas como um conjunto de actividades, os Bispos Portuguesas afirmam, nesta sua reflexão, que “cada vez mais a escola tem de se considerar uma comunidade educativa alargada, que integra alunos, a entidade responsável pela escola pública, estatal ou privada, os educadores, professores e pessoal não docente, os pais e outros encarregados de educação e a comunidade circundante”. Daí que a cooperação de todos os membros da comunidade educativa e a sua coesão em função dos objectivos pretendidos são inseparáveis do projecto educativo concreto de cada escola, tal como recomendam os Bispos Portugueses.

E concluem com a síntese de um conceito de Educação que conduza e promova a Educação Integral da Pessoa Humana ao afirmarem que “a nossa esperança radica numa educação antropologicamente fundada, que se oriente pela educação integral de cada pessoa, em liberdade, num quadro de convivência solidária, em ambientes escolares de árduo trabalho e pedagogicamente estimulantes, em que os professores sejam educadores competentes e eticamente fundados e dedicados. Em que os alunos trabalhem, aprendam e sejam educados para uma inserção social participativa, crítica e criativa e em que as comunidades locais acalentem, apoiem e estimulem a aprendizagem de todos ao longo de toda a vida”.

José Cerca

Artigo publicado no Semanário “Discurso Directo”, nº29 de 21 de Novembro de 2008

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Bandeira Verde hasteada na E.B.2,3 de Arouca

por jcerca em 31 de Outubro de 2008

Numa cerimónia breve e simples, mas que mobilizou a comunidade escolar da EB23 de Arouca, teve lugar no passado dia 28 de Outubro, o hastear da Bandeira Verde num dos mastros da Escola.

Aproveitando o intervalo a meio da manhã, todos os alunos se concentraram no átrio da Escola para presenciarem o içar da Bandeira Verde, Galardão atribuído no âmbito do Programa Eco-Escola a que aquele estabelecimento de ensino aderiu desde o ano lectivo passado.

Um mês antes, precisamente a 26 de Setembro, uma delegação da escola composta por alunos do 7º ano e por algumas professoras, tinha-se deslocado a Torres Vedras para receber a Bandeira Verde, agora desfraldada no mastro da escola.

Após o hastear da Bandeira, a Coordenadora do Programa na Escola E.B.2,3 de Arouca, Joana Condesso, entregou ao representante de cada uma das 30 turmas da escola uma copia do Eco-código bem como um apelo para um maior empenhamento nas actividades, de âmbito ambiental, que a escola vai desenvolver ao longo do ano lectivo.

A presença deste galardão naquela escola representa, de certo modo o reconhecimento do esforço desenvolvido por muitos alunos, professores e funcionários que, em parceria com a Câmara Municipal e a Urtiarda, têm procurado dar resposta a problemas detectados no âmbito ambiental.

Na opinião da professora responsáveel pela coordenação do Programa Eco-Escola, é com especial agrado que se constata, neste arranque de um novo ano lectivo, o interesse renovado de um elevado número de alunos pelos projectos e actividades que uma verdadeira Eco-Escola exige. Salientando o papel importante que o Programa poderá desenvolver junto dos alunos e de toda a comunidade escolar para a promoção da Educação Ambiental, a referida professora manifestou todo o seu empenho em que a escola seja digna da bandeira que, a partir de agora, passará a desfraldar no mastro da escola.

È de registar que mais 6 Escolas do Agrupamento vão também aderir a este Programa, sem do elas, EB1 de Porto Escuro, EB1 de Ponte de Telhe, EB1/JI de Várzea, EB1 de Paços, Moldes, EB1/JI de Paço, Alvarenga e Jardim de Infância de Bacelo, Tropeço.

O que é o Programa Eco-Escolas?

Trata-se de uma iniciativa de âmbito europeu sob a responsabilidade da Fundação para a Educação Ambiental, destinado fundamentalmente às escolas do ensino Básico e Secundário e que visa encorajar acções e reconhecer o trabalho desenvolvido pelas Escolas em benefício do Ambiente.
Este Programa está orientado para a implementação da Agenda 21 ao nível local e visa a aplicação de conceitos e ideias de educação ambiental à vida quotidiana das escolas. Pretende ainda encorajar acções no âmbito da Educação Ambiental e estimular junto das escolas o hábito de participação nos processos de decisão e a tomada de consciência da importância do ambiente no dia-a-dia. Nesse sentido, o Programa Eco-Escolas fornece fundamentalmente método-logia, formação, materiais pedagógicos, apoio e enquadramento ao trabalho desenvolvido pelas escolas.

Não se trata, portanto, de um Programa que tenha como objectivo premiar monetariamente projectos específicos de melhoria do ambiente, mas sim implementar metodologias de acção junto das camadas mais jovens, em prol da defesa do ambiente.

A Bandeira Verde é, pois, o galardão que atesta publicamente a adesão da Escola E.B.2,3 de Arouca a este projecto internacional.

José Cerca

Artigo publicado no Semanário “Discurso Directo”, nº27 de 7 de Novembro de 2008

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Família Salesiana de Arouca visita Mirandela

por jcerca em 11 de Outubro de 2008

Foi há 25 anos que os Salesianos saíram de Arouca. Foi há 25 anos que a Congregação Salesiana iniciou a sua actividade em Mirandela.

Vinte e cinco anos depois de aí terem chegado, após o encerramento do Ex-Colégio Salesiano de Arouca, os Salesianos marcam hoje uma presença bem visível e acarinhada pela população da cidade do Tua, onde construíram, num terreno que lhes fora doado por uma benfeitora, um magnífico e espaçoso complexo educativo designado “Centro Juvenil Salesiano de Mirandela”.

Além de uma moderna e ampla igreja ao serviço da população mirandelense, a Obra salesiana nesta cidade é composta por modernas instalações onde funcionam salas de estudo, salões de jogos, refeitório, dormitório, auditório para teatros e projecções e grandes espaços ao ar livre para a prática desportiva.

Dispondo ainda de um internato que acolhe 3 dezenas de jovens oriundos de famílias disfuncionais ou com ambiente problemático e aí colocados pela Segurança Social, grande parte das instalações deste Centro Juvenil estão ao serviço não apenas dessas crianças e jovens, como também da população juvenil de Mirandela, designadamente da Catequese e ocupação de tempos livres.

Foi para conhecer a Obra salesiana em Mirandela, 25 anos após a sua saída de Arouca, que um grupo de 50 pessoas ligadas à Família salesiana de Arouca, quis deslocar-se a esta cidade, no passado Domingo, 5 de Outubro.

Acompanhados pelo Coordenador local dos Salesianos Cooperadores de Mirandela e após terem participado na Eucaristia Dominical com a comunidade paroquial dirigida pelos salesianos, os visitantes arouquenses tiveram ocasião de visitar a cidade, apreciando os seus numerosos espaços ajardinados e admirando a beleza que o rio Tua lhe confere.

Após o almoço-convívio teve lugar, no Auditório do Centro Juvenil Salesiano, um encontro com elementos da família Salesiana mirandelense, em que foram apresentadas algumas das actividades desenvolvidas pelos núcleos da Família salesiana de Arouca e de Mirandela. Foi projectada ainda uma Apresentação multimédia sobre Arouca, o que despertou nos presentes o desejo de visitarem a nossa terra, logo que possível, retribuindo assim esta visita.

Antes do regresso a Arouca uma breve paragem para o abastecimento dos visitantes com as famosas alheiras de Mirandela.

José Cerca

Artigo publicado no Semanário “Discurso Directo”, nº23 de 10 de Outubro de 2008

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REPAROS

por jcerca em 3 de Outubro de 2008

Atentado ambiental na Freita

Cada vez mais a Serra da Freita é um lugar preferido por muitas pessoas que, sobretudo aos fins-de-semana, aí se dirigem para passarem momentos de lazer, fruindo dos inúmeros recursos ambientais e paisagísticos que ela nos oferece.

Infelizmente, nem todos os seus numerosos utentes possuem consciência cívica e educação ambiental que os tornem dignos de desfrutarem as numerosas belezas que a Freita encerra.

Foi com um sentimento de revolta que, num dos últimos passeios que demos pela Serra, deparámos com um tanque de lavar roupa, largado no sopé do marco geodésico de S.Pedro, o Velho, a poucos metros da estrada que desce do radar até ao Parque de Campismo.

Em estado praticamente novo, apenas ligeiramente rachado num dos cantos, alguém, verdadeiramente “generoso” terá feito o sacrifício de subir a Serra da Feita para doar tão útil equipamento a quem dele vier a precisar.

Só que não seria preciso tão grande esforço, pois estamos certos de que, mesmo rachado, não faltaria quem o aproveitasse, evitando assim este crime ambiental.

Agora vir largá-lo em plena Serra da Freita, não passa pela cabeça de ninguém, a não ser que a mesma sofra de alguma anomalia pouca cívica, como a desta insólita doação à Serra da Freita.

José Cerca

Artigo publicado no  “Jornal de Arouca”, nº726 de 30 de Setembro de 2008

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PARÁBOLAS DO NOSSO TEMPO

por jcerca em 24 de Setembro de 2008

O bom samaritano

O velhinho descia os largos e longos corredores do Aeroporto internacional de Tel Aviv, em Israel. Com dois pesados sacos nas mãos e um volumoso sobretudo, pendurado num cabide que, por sua vez, escondia ainda um outro casaco debaixo desse mesmo sobretudo, o homenzinho mostrava evidentes dificuldades em controlar, com os braços e as mãos, toda a sua complicada bagagem. De uma das mãos pendia-lhe ainda uma bengala e na outra o seu bilhete que segurava afincadamente por entre os dedos.

Pelos imensos corredores daquele movimentado aeroporto, centenas de turistas cruzavam-se indiferentes às manifestas dificuldades que aquele viajante revelava. Mas essas dificuldades acabariam por chamar a atenção de um grupo de turistas portugueses, no momento em que ele deixou cair um dos embrulhos que tentava segurar com as suas mãos e braços já demasiado ocupados.

Preparando-se para regressar ao seu País depois de uma peregrinação, durante uma semana, pelos principais lugares sagrados da Terra Santa, um desses peregrinos correu logo em auxílio do velhinho, aliviando-lhe as mãos dos pesados sacos que elas tentavam, a custo, segurar.

Experimentando recorrer a algumas idiomas para tentar comunicar com este solitário viajante, apenas conseguiu aperceber-se de que era russo o que inviabilizou, à partida, toda e qualquer comunicação verbal entre eles.

De onde vinha, para onde ia, porque viajava assim sozinho num aeroporto enorme, seriam algumas das muitas perguntas que surgiriam espontaneamente, caso se conseguisse encontrar algum código linguístico comum, mas perante essa impossibilidade restava apenas o código gestual e facial entre ambos.

Juntamente com o bilhete e o passaporte, fortemente agarrados pela pinça dos seus dedos, destacava-se, escrito à mão e em letras grandes, um pequeno papel com a indicação do terminal onde ele deveria apanhar o avião rumo a Moscovo.

Bem mais aliviado e visivelmente contente pela ajuda que inesperadamente lhe surgira no momento em que mostrava dificuldades em dominar toda a sua esquisita bagagem, o velhinho lá se dirigiu para o terminal B9 acompanhado pelo seu desconhecido e inesperado samaritano.

Pelo caminho iam-se trocando algumas palavras estéreis, já que de nenhuma delas conseguia nascer qualquer comunicação verbal inteligível, mas mesmo assim uma profunda empatia se estabeleceu entre ambos, de tal modo que as palavras se tornaram desnecessárias para dar lugar à expressão de satisfação, de contentamento e de alegria que passou a brilhar no rosto de ambos.

Cego de um olho e evidenciando também sérias dificuldades auditivas, nada disso impediu, contudo, uma original comunicação entre aqueles dois desconhecidos, durante os largos minutos ao longo do percurso que os conduziria ao terminal B9. E as palavras ininteligíveis entre ambos acabaram por dar lugar a gestos de solidariedade, de ajuda e de gratidão.

Ao chegar ao terminal e depois de pousada num banco toda a sua numerosa bagagem, o velhinho pagou bem paga a ajuda que acabara de receber, através de um comovente sorriso que iluminou o seu rosto tisnado pela idade e por meio de um abraço que espontaneamente dera ao seu samaritano.

Mesmo assim não faltaram cautelosos fariseus a salientar a imprudência do gesto, a sublinhar o perigo de uma bomba que poderia estar escondida nos sacos que transportava, a imaginar um terrorista disfarçado de mendigo.

No momento em que abandonava a Terra Santa, de regresso ao seu País, esta foi, certamente, a maneira mais gratificante que este peregrino poderia encontrar para terminar assim a sua peregrinação por muitos dos lugares outrora percorridos pelo narrador da parábola do Bom Samaritano que continua hoje e em qualquer lugar com uma extrema actualidade.

Assim saibam os Samaritanos de hoje estar atentos e não fecharem nunca os olhos à realidade que os circunda.

José Cerca

(Aeroporto de Bruxelas, 10 de Setembro de 2008)

Artigo publicado no  “Jornal de Arouca”, nº726 de 30 de Setembro de 2008

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