José Saramago, ao deslocar-se esta semana à capital italiana para apresentar o seu livro “O Caderno”, em que estão compilados textos por ele escritos entre Setembro de 2008 e Março deste ano no seu blog, cometeu a infelicidade e ousadia, não só de acusar o Papa Bento XVI de «cinismo” como apelou também à necessidade que há de responder com a «insolência da inteligência viva» à «insolência reaccionária» da Igreja.
Mas não se ficou por aqui este iluminado Prémio Nobel da Literatura que não pára de criticar e de se imiscuir em assuntos que o não deviam preocupar, uma vez que se confessa de «ateu tranquilo».
E é com a sua autoridade de «ateu tranquilo» que Saramago chega ao ponto de criticar imbecilmente o Papa ao dizer «Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem»,
E armando-se em arauto e defensor da verdade, qual fundamentalista, a apelar à guerra santa, Saramago apela também aos seus correligionários: “Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder».
Segundo Saramago, interessa pouco à Igreja o destino das almas e o que sempre procurou é o controlo dos seus corpos.
Mas não contente com as críticas ao Papa e à Igreja, Saramago não se coibiu também de criticar o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi a quem apelidou de ser ele próprio a “doença do país».
Se o diagnóstico de Saramago relativamente ao primeiro Ministro italiano, detecta nele a “doença do país», a verdade é que estes dislates e as suas “iluminadas” diatribes contra o Papa e a Igreja só poderão ter como causa também uma outra doença, a doença da cegueira de espírito que lhe terá roubado a lucidez intelectual, tão necessária a quem já foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura.
A exegese bíblica segundo Saramago
Não satisfeito com os iluminados disparates em Itália, Saramago, dias depois, em Portugal, mais propriamente em Penafiel, por ocasião do lançamento de mais uma obra sua, ele que se confessa ateu, não se coíbe também de proferir um conjunto de disparates sobre a Bíblia que qualifica de “um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Esta e muitas outras afirmações que nos recusamos aqui transcrever, revelam não só a sua iconoclastia religiosa a que já nos habituou, mas sobretudo a sua completa ignorância sobre a interpretação bíblica, perfeitamente comparável à de uma criança que lê, pela primeira vez, a Bíblia, como se de um mero romance se tratasse.
Uma vez mais me vou convencendo que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, sempre passível de crítica como muitas outras coisas, terá definitivamente adulterado a sensatez e a lucidez intelectual de Saramago.
Ou será mesmo, mesmo da idade?
José Cerca
{ 31 comentários… lê abaixo ouadiciona }
Caro senhor
Parece-me que quem é “cego do espírito” é o senhor e outros que assim pensam. A verdade é que, não sendo apreciador da maior parte da obra de Saramago, vejo neste seu ultimo livro, a transposição da opinião de muitas pessoas sobre a igreja católica e a bíblia para um livro. Esta é pura e simplesmente uma crítica e não deve ser entendida como um ataque …!
Vamos lá a ver se não enveredamos pelo caminho que outras religiões levaram, e se somos um pouco mais tolerantes com quem discorda dos vossos ideais…!
Têm sido milhares os comentários sobre este vasto conjunto de disparates de Saramago todos obsessivamente centrados no mesmo assunto:Deus, a religião, a igreja e a Bíblia.
Não resisto a transcrever este:
No melhor Nobel cai a nódoa
José Saramago lê a Bíblia- e isso é uma boa notícia, porque a Bíblia é grande literatura, como sabe qualquer pessoa culta, mesmo quando não se é crente; e é um texto que acompanha a história da humanidade, através da poesia, da história, das parábolas.
José Saramago não sabe ler a Bíblia – e isso é uma péssima notícia, quando falamos de um prémio Nobel, que é suposto ser culto.
José Saramago tem boa memória – porque se lembra sempre da Inquisição e das Cruzadas, que todos sabemos que foram crimes.
José Saramago tem algumas falhas de memória – porque não se lembra das centenas de milhar de pessoas mortas por Estaline no Gulag soviético.
Quando a leitura do mundo e da vida se fica por banalidades preconceituosas e ignorantes, só podemos lamentar…
António Marujo
in http://religionline.blogspot.com/
Entre muitos outros comentários, gostei da fina ironia deste que encontrei no Blog “Aspirina B”:
O mercado é sagrado
Uma figura da Bíblia serve como fonte de inspiração para um escritor. Esse escritor odeia os outros escritores que criaram a tal figura. E odeia os leitores desse livro cheio de livros e de histórias inventadas, umas, e registadas, outras, onde foi roubar o material literário. Acontece que o escritor vende os seus livros, não os oferece nem guarda no baú. O escritor está velho e gasto, fragilizado, mas não pára. Pode estar cheché, não está gagá. A seguir a este, virá outro livro. Outro negócio. Agora é só o tempo de ofender os católicos, os cristãos e os judeus. Porque o mercado é sagrado.
Também gostei deste comentário, entre muitos outros. Encontrei-o no no blog Obliviário:
Não é o deus do ou no Antigo Testamento que não é muito simpático. Ao que parece (e a memória recente portuguesa é muito selectiva) no rescaldo revolucionário pós-1974 Saramago também não o era. Mas, vamos por partes. Antes da Bíblia ser compilada não existia violência? Por Zeus, Ishtar ou Ahura Mazda! coisa mais ridícula! claro que existia! Os mitos (muitos deles condensados no AT) são, em geral, violentos, arquetípicos de caos e destruição, vingança e inveja. Em suma: da biologia humana. Saramago aparece tarde de mais para nos ensinar o caminho marítimo para a Índia. Mas apesar de ser um cego ideológico, está longe de ser mais um dos estúpidos e néscios de que se compõe o mundo de que falava o Novo Testamento. Saramago, mesmo senil, cadavérico, tristemente marxista e saudosamente leninista sabe quando se deve vergar ante o Rei da Suécia, beijar a mão ao Capitalismo, ou espicaçar as Religiões. É tudo uma questão de timing. Ainda assim, tenho a impressão de que a Bíblia continuará a ser um best-seller, a adoração a Deus prosseguirá e Saramago, morto ou vivo, apenas a lembrança de um nobelitado português.
in http://obliviario.blogspot.com/2009/10/caim-ou-inveja-do-outro.html
E já agora, aconselho a ler também este comentário, por ser insuspeito e de alguém que se diz ateu e “em total e irreconciliável desacordo com o Cristianismo”.Encontra-se aqui:
http://pesporrente.blogspot.com/2009/10/vozes-de-burro-nao-chegam-ao-ceu.html
“Que Deus nos livre das religiões”
Diz com muita virtude o meu mano Luís Toscano
que por essa Europa fora (não só a UE) trabalhou com Gente de todas as profissões de fé (leiam religiões) durante mais de vinte anos…e que como autodidacta considero pessoa de grande saber, sem complexidades…simples!
É triste e deprimente ver um Nobel a produzir obra na sua fase de senescência e a agredir sensibilidades gratuitamente.
Creio que mesmo em Penafiel, ao “malhar” na Bíblia” malhou também no “Al Corão” mas deve ter dito muito em segredo lá para com os seus botões “graças a Deus que sou Ateu, materialista confesso etc e tal”. Quê, um velho Salman Rushdie a ser perseguido agora por aqueles extremistas Islâmicos, Oppus Dei, (L)MP4… e afins? Não queriam mais nada, pois não?
Quanto ao final do reparo: quando falamos de sensatez e lucidez adulteradas, claro que é próprio da (senil) idade, mas também de uma cassette (com méritos e deméritos) mas que de tanto rodar…Acaba por estragar.
…continuação do “Ensaio sobre a cegueira”…
morfeu
Sobre este assunto da Biblia, transcreve-se aqui um pequeno excerto da obra do escritor italiano Erri de Luca “Caroço de Azeitona”, onde este escritor (agnóstico, mas que sabe hebraico e já traduziu vários livros da Bíblia para italiano) fala de episódios e personagens da Bíblia.
Uma boa parte da humanidade não tem consciência de ter saído de Deus. Muito aflige o acto de confiança, antes do acto de fé. Permaneço, como não crente, alguém que passa pelas escrituras sagradas e não um residente. (…)
Ler as escrituras sagradas é obedecer a uma precedência do escutar. Começo as minhas manhãs com um punhado de versículos, para que o meu dia tenha um fio condutor. Posso depois dispersar-me durante o resto das horas correndo atrás do que tenho para fazer. No entanto, mantive para mim um penhor de palavras duras, um caroço de azeitona para andar a girar na boca.”
Erri de Luca está hoje em Lisboa a apresentar “O Dia Antes da Felicidade” e dará várias entrevistas a meios de comunicação social
http://religionline.blogspot.com/
A propósito deste post, deixo aqui uma passagem muito interessante do último livro do Dr. Augusto Cury – “O mestre dos mestres – Jesus, o maior educador da História”. Aconselho vivamente a sua leitura.
Antes da transcrição do texto porpriamente dito, falarei do Dr. Augusto Cury. Este homem considera-se o maior ateu de muitos daqueles que se consideravam grandes ateus, como foi o caso de Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Jean- Paul Sartre.
Este médico psiquiatra e psicanalista, como ateu que era, pesquisava a inteligência de Jesus Cristo indagando continuadamente se ele era fruto da imaginação humana, da criatividade literária, ou se realmente tinha existido. Como pesquisador da inteligência, investigou no campo da sua especialidade, ou seja, no campo da construção dos pensamentos descritos nas quatro biografias de Jesus (que são chamados de evangelhos: o de Mateus, o de Marcos, o de Lucas e o de João). Pesquisou a lógica, os limites e o alcance da sua inteligência. Passo a citar o texto que mencionei acima.
“Aqueles que se dizem ateus têm como assuntos preferidos Deus ou a negação da Sua existência. Todo o ser humano – não importa quem seja, ateu ou não – gosta de incluir Deus na pauta das suas ideias mais importantes. A maioria dos ateus realmente não acredita em nada? NÃO. A maioria dos ateus fundamenta o seu ateísmo não num corpo de ideias profundas sobre a existência ou não de Deus, mas como resultado da indignação contra as injustiçãs, incoerências e discriminações sociopolíticas cometidas pela religiosidade reinante em determinada época.”
Em jeito de conclusão, penso que era importante deixar para aqueles que realmente sabem exprimir a sua opinião, porque pelo facto do José Saramago ser Prémio Nobel da Literatura não lhe dá o direito de se tornar um expert nesta matéria.
Depois deste meu post, espero que o Pedro não me venha chamar de “cega de espírito”, apenas expôs a minha opinião, baseada em alguém que realmente tem legitimidade e saber.
Eu respeito a opinião dos outros!
Fiquem bem!
A polémica levantada por Saramago por causa das suas diatribes contra a Bíblia, Igreja, Deus e Religião, que ultrapassaram todo o razoável que se poderia esperar de um Prémio Nobel, aqueceu tanto que acabou por ofuscar aquela outra provocada pelos disparates da actriz brasileira Maitê Proença contra os Portugueses.
Se navegássemos um pouco pelo mundo da blogosfera seriam imensos os comentários, uns a favor, mas a maior parte contra as recentes afirmações de Saramago, por ocasião da sua última obra, ironicamente uma vez mais inspirada numa das histórias do Livro mais lido em todo o Mundo: a Bíblia.
Transcrevo aqui dois breves extractos de um desses comentários publicado no Blog “Aspirina B – não mata, mas alivia”:
“As declarações de Saramago acerca da Bíblia e religião têm a indisfarçável marca da senilidade. O seu cérebro regrediu ao infantilismo, mostra-se incapaz de discernir entre sentidos literais e figurados, denotação e conotação, sinal e símbolo, fantasia e realidade, histórias e História. ….
O fel de Saramago é primário e patético demais para merecer consideração. A sua visão materialista e biológica da divindade é grotesca, pois em nada corresponde aos significados dos textos, das práticas e das experiências dos religiosos. É enquanto cidadão que ele ofende os crentes, não enquanto pensador ou escritor. Como escritor, que escreva o que quiser. Como pensador, que pense se conseguir, o que não é o presente caso. Muito longe vai o tempo em que se deu a vida e o destino contra as tiranias de capa ou espada cristã – muitas e muitas vezes em nome dessa mesma Bíblia manipulada pelas feras e do sopro de liberdade que as suas palavras guardam. Muitos morreram para que Saramago pudesse ter nascido numa sociedade secularizada, científica e humanista. Essa guerra acabou, Deus morreu – não persigas o Deus ressuscitado, Saramago, pois ele esconde-se agora nos miseráveis e tu continuas a procurá-lo dentro do teu narcísico bestunto.
in http://aspirinab.com/valupi/escuta-israel/
Achei engraçada esta sequência de posts no Twitter de “livrosXescritos”:
Se Saramago diz que Deus não existe é porque não existe mesmo! Diz que a Bíblia é disparatada, é porque é mesmo! Até lhe deram o Prémio Nobel!!!
Só que também deram o Prémio Nobel a Barak Obama, madre Teresa, Albert Schweitzer, o bispo Ximenes Bello. Agora é que começo a ficar baralhado!!
Com tanta gente a receber o Prémio Nobel, a acreditar em Deus e a achar a Bíblia interessante, já começo a desconfiar da opinião do Saramago
Também não é razão para lhe pedir que deixe de ser português. Se tivéssemos que pedir isso a cada um que diz disparates ficaríamos sem população
E conclui assim:
É a polémica da ignorância! Nem Saramago tem competência para falar da Bíblia nem os que gritam pelo escândalo a lêem sequer. Treta!
António Abreu Freire no seu Twitter “LivrosXescritos”
Eu respeito sempre a opinião de todos. Ignoro-a.
Não é perciso ter grau académico, nem posição ou status…apenas é necessário ter a mente e o coração de tal maneira livres e abertos para entender que o deus que é colocado nos altares das igrejas não é um Deus de amor total.
Eu, com imensa tranquilidade acredito num DEUS de amor total que não revejo, nem nunca revi no Deus dos altares. Um Deus moldado por homens sempre pronto a castigar.
Saramago não desrespeitou os que acreditam no Deus dos altares, do alto da sabedoria dos seus oitentas, manifesta tranquilamente a sua crença.
Eu acredito no Deus de Saramago, amo o Deus que saramago quer mostrar….porque por incrível que pareça a alguém, de certeza que Saramago ama DEUS.
Bem, nesse caso, contrariamente ao que Saramago tem afirmado, ele será um ateu, graças a Deus.
Depois de ler estes disparates concluo que, de facto, pouco separa o provincianismo de alguns portugueses do fundamentalismo iraniano.
O homem só escreveu um livro com uma opinião que não agradará a todos! O que é que isso tem de mal? Quem tem fé, continua a ter. Não é um livro que retira a fé a quem continua a acreditar muito embora a mediatização de atrocidades cometidas pela Igreja, ou em nome de livros sagrados…
Cresçam… ou então emigrem para o Irão, pois lá estarão no vosso meio natural.
Liberdade de expressão é a liberdade para os outros dizerem não apenas o que consideramos gravemente falso, mas também o que consideramos inadmissível, ofensivo e indesejável.
Se começarmos a policiar o pensamento alheio, mostrando-nos muito ofendidos e dizendo que certas afirmações são intoleráveis, não estamos a explicar por que razão tais afirmações são falsas, estamos apenas a fugir do assunto, dizendo que é inadmissível promover a independência da mente.
Se bem percebi considerar o primeiro-ministro italiano, “a doença do país” ou “a coisa” é uma crítica aceitável mas no que toca ao “papa”, que será inimputável, não é sequer tolerável. Quanto a si considera-se no direito de criticar, achincalhar e insultar o escritor. Se assim é fico elucidado, ou melhor, esclarecido.
Para a Ana (se é que o é) a reacção mais do que justa e natural a provocações lamentáveis do sr. Saramago contra um livro que, além de ser património da Humanidade e o mais lido em todo o Mundo, é também objecto de fé e de veneração de milhões de crentes, são “disparates” de gente provinciana e fundamentalista.
O que Saramago disse não foi uma mera opinião, mas sim um insulto a valores sagrados perfilhados por milhões de pessoas e que merecem o respeito de crentes e não crentes.
Afinal,parece que para a Ana a única pessoa que tem razão e que está certa é o sr. Saramago que, num rasgo de iluminação ateísta se pôs, uma vez mais, como é seu timbre, a dispara(ta)r contra Deus, contra a Bíblia, contra o Papa, contra a Igreja Católica, etc.etc.
Não a aconselho a emigrar para o Irão, mas a regressar ao Gulag Soviético onde certamente terá ocasião de avivar a memória das “atrocidades cometidas” pelo regime soviético, ainda não há muitos anos.
“Vejo que este povo é um povo de cabeça dura. Agora portanto deixa-Me, porque a minha ira vai acender-se contra eles até os destruir…”
“…porque EU, Javé teu Deus, sou um Deus ciumento: quando me odeiam,castigo a culpa dos pais nos filhos,netos e bisnetos…”
porque será que saramago disse isto: “um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”.
é que não se percebe mesmo!!!
Como Deus se deve estar a divertir com a situação e muito provavelmente a dizer para com os seus botões: Coitadinhos deles todos (Saramago e crentes) …. como estão longe!!!
Sr. José Cerca,
Não defendo Saramago, mesmo por que disto ele não necessita, porém permita-me discordar, se é que o senhor permite contrariar seus pensamentos, porém sua crítica de sobre a ” completa ignorância sobre a interpretação bíblica, perfeitamente comparável à de uma criança que lê, pela primeira vez, a Bíblia, como se de um mero romance..”, pergunto-lhe:
A bíblica é isenta de uma análise historiográfica?
Somente deve ser lida sob a ótica de “escritura sagrada”?
Questionamentos sempre ofendem os crentes?
A possibilidade do ateísmo ser uma opção válida, está completamente descartada de sua análise?
O debate de idéias prós e contras é para o senhor inadmissível quando o assunto envolver o seu “teos”, ou seu deus cristão?
Como resposta a alguns comentários anteriormente publicados, prefiro calar-me e dá-la a Daniel Oliveira, que se confessa ateu convicto e por isso mesmo será menos suspeito na sua opinião.
O texto foi publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009 e pode ser lido aqui:
http://aeiou.expresso.pt/evangelho-de-um-primario=f543176
Caro JCerca
O eticamente e o politicamente correcto, a par da religião (mas deixemos esta por agora), estão a empurrar a sociedade para o abismo porque, ao ignorarmos, por conveniência, que a liberdade de expressão, apenas, dá legitimidade – para manifestarmos as nossas crenças –, mas não confere razão, afastamo-nos da verdade.
A opinião de Daniel de Oliveira é apenas, e só, uma opinião. Exactamente como a de Saramago. O problema é que qualquer pessoa que ponha ideias feitas em causa gera anticorpos porque, dessa forma, procede á análise cuidadosa e profunda dos nossos preconceitos mais queridos, que nos impedem de opções de isenção, como foi a sua em relação ao texto, ou a “alergia” ás palavras do escritor.
Na minha opinião, é certamente suspeita, toda esta “histeria” fica a dever-se ao problema das interpretações – convenientes ou por conveniência –, á intolerância e á duplicidade, ou ambas, dos crentes. E digo isto porque a interpretação literal dos textos, “desencriptadores” á parte, permite-nos concluir exactamente o que Saramago referiu.
Quando se diz que a bíblia é “a verdade” ou “o sagrado” não se deve excluir, por conveniência, alguns textos para posterior interpretação conveniente, de forma metafórica. Ou é, ou não é. Afinal, foi a interpretação literal que penalizou Galileu.
Darius
P.S.: Pode parecer deselegância ou atrevimento comentar “contra” o anfitrião mas, faço-o porque acredito na divergência de opinião, no fundo o motor de todas as conversas.
MEUS COMENTARIOS à afirmaçao deliberada/ insultuosa do cidadao (ainda) portugues JS “O Papa parece-me um hipocrita”(e doutras de igual falta de calibre!)durante entrevista extensa que concedeu ao DN. Publico-os aqui CONTRA A INSOLENCIA e CINISMO de TODOS QUE USAM MÁ-FÉ, pq o pasquim DN se recusou recursiva/ a publicar exercendo sobre minhas opinioes declarado bloqueio ou CENSURA (mas nao sobre esta ilusao de nobel — boneco+cheque+pseudo humano):
Este saramago parece-me um OPORTUNISTA.
Este saramago parece-me um INSULTADOR SOCIAL.
Este saramago parece-me um TARADO PSICOPATA (nao ha nenhum psicologo isento independente nao-amordaçavel que queira analisar este caso patologico, em crescendo até à cova?)
Este saramago parece-me um nobel PREMATURO.
Este saramago É UM ARROGANTE MORBIDO, É UM RESSABIADO PAROLO, É UM CASO PATOLOGICO, E pensa que é UM PSEUDO-deus mas BACOCO!
Agora parece-me que um PSEUDO-deus da ignorância, estupidez, ofensa e falta de respeito (= má-fé) é uma qualquer ERVA DANINHA, um saramago!
Rodericus (Guimaraes,Porto,Lisboa)
Fantástica esta oportunidade que José Cerca nos dá de aquecermos as mãos e o cérebro tanto na fogueira de crentes como na fogueira de ateus!
A nossa imagem de Deus ou não Deus será sempre condicionada à nossa capacidade e natureza.
Saramago fez afirmações defendendo a sua opinião que desagrada a uns e agrada a outros. Estranho parece é que, aqui, alguns não considerem o mesmo direito que dão a Saramago aos opositores deste.
É humano e bíblico que a mesma luz do espírito vista da própria perspectiva apareça como luz e vista da perspectiva do outro se reduza a “cegueira de espírito” . Assim a mesma postura que para uns significa achincalhar, vindo dum lado, se vem do outro passa a ser razoável! Naturalmente, os cínicos branqueiam a sua tolerância e a sua opinião nas águas virgens da indiferença. Sabem que quem fala deixa o rabo de fora!…
Fala-se da maldade da religião ou do partido como se estes não fossem compostos de homens e mulheres. A lógica acobarda-se aos próprios interesses. A tesoura que cada um de nós traz na cabeça pode muito. O problema é que a própriatesoura é, geralmente, invisível e imperceptível para o mesmo. Interessante seria a tentativa de apresentar um discurso mais argumentativo, mesmo na apresentação da própria opinião!
Da discussão sai a luz!
Obrigado a todos por me darem oportunidade para pensar!
António Justo
Não é possível, na prática, a troca de idéias um religioso e um não religioso.
Invariavelmente a contraposição a qualquer posição religiosa, vira uma ofensa.
Para um debate ser possível, dentro evidentemente de um processo dialético, seria necessário que as posições, em princípio, estivessem abertas a mudar de opinião após o debate, se convencidas fossem pelo lado opositor.
Tal situação não é possível ser admitida por qualquer religioso que eu conheça.
Pelo que percebo nos ateus, é que podemos virar teístas numa boa, a qualquer momento, desde que o “teos” seja-nos devidamente apresentado.
Só isso.
Portanto a discordância ou concordância não é com Saramago, porém contra todos que demonstrem pensamentos contrários.
Lembro que o processo dialético busca na discussão das teses e antíteses, chegar-se a um plano superior, quem sabe as sínteses.
A minha afirmação é esta. No processo de discussão religiosa, ninguém abre mão de suas teses ou antíteses, nem admitem “à priori” que poder-se-ia chegar a uma nova posição.
Notadamente a parte religiosa não abre mão de seus conceitos originais, “nem a pau”, rsrs
Um abraço.
Caim e Abel, duas faces da mesma medalha que somos cada um se nós!
O problema é que ateus como teistas viram em militantes, dado seu credo se tornar parte da própria identidade expressa sem a perspectiva do outro! Por outro lado quem cala não conta. Infelizmente cada qual defende apenas o reino dos seus interesses e não há a cultura dum pensar justo! A perspectiva de Caim terá de integrar nela a perspectiva de Abel e Abel terá de reconhecer nele a perspectiva de Caim. Querer ter a razão final é tornar-se só Caim.
Todos os crentes, quer creiam em Deus ou não, não conseguem abdicar da sua crença ateia ou religiosa em processo. Problema se tornaria se a uma tese apresentada por Saramago não fosse possível a antitese duma dialética construtiva interessada numa síntese! Problema é também o facto do senhor Saramago ter apresentado a sua compreensão da Bíblia como a compreensão pura e simplesmente. Naturalmente que cristãos possam reagir e tentar explicar outras maneiras de compreender os 73 livros da Bíblia. Assim seria lógico que tenha havido tentativas de explicar outras leituras da Bíbila numa dialética que a acompanha sempre. Assim era necessário explicar que na Biblia está documentada a dialética entre a cultura pastoril e a cultura sendentária, entre a cultura do campo e a das cidades, tal como se vê em Caim e Abel. Como sempre, na luta entre a província e a cidade há interesses muito concretos a defender. Saramago tal como Caim não aceita a mundivisão do seu irmão Abel. A imagem de Deus que Saramago ataca é naturalmente também a sua. Querer reduzir a realidade bíblica a infantilismos e cair na contradição de negar Deus e ao mesmo tempo responsabilizá-lo pelo mal e por fim chamá-lo “filho da puta”, tal como Saramago faz na página 82 di seu livro. Quem ele quer atingir não será naturalmente Deus mas os filhos do tal “filho da p.” que não serão melhor que o seu Deus a destruir! Que em cada cultura, nos antagonismos que lhe são próprios e até benéficos, esteja presente Caim e Abel em disputa, é muito natural e benéfico, o problema é não nos darmos conta de que somos os dois e não notarmos o papel que representamos em cada momento em que falamos ou agimos! Naturalmente que quem vai à missa de Saramago não goste de outras missas e vice-versa. Desumano seria se não nos respeitássemos uns aos outros, conscientes de que todos andamos encostados a algo que não queremos reconhecer. É a nossa liberdade de escravos, mas esta escravidão pode tornar-se libertadora! Ao fogo do inferno sucede-se o fogo das palavras e dos próprios interesses e a agressão é também uma naeira de libertar a consciência, como nos ensina Caim! A continuarmos assim não haverá infernos para uns e paraísos para outros mas democraticamente inferno para todos, salvem-se os nossosBelzebus, esses gozam de imunidade!
Quem faz a guerra não pode lavar-se nas águas da inocência. Naturalmente que Saramago sabia muito bém que quem ataca não é vingativo, vingativo tornam-se os outros. A divindade Nobel ofendida exige o louvor dos seus devotos. No fim há muita beatice ateia e crente ao serviço dos respectivos dogmatismos e da própria seriedade. A grandeza dos que se destinguem precisa da pequenez dos que os fazem!…
De lamentar seria que se formassem grupos incompatíveis, dum lado súbditos republicanistas e e do outro súbditos teistas uns contra os outros.
Quem diz o que quer ouve o que não quer…. Importante é que todos são pessoas honradas se não querem assumir o papel de Caim!
António Justo
Parabéns, caro António Justo.
No meio de tanto barulho, de tanta poeira levantada com o caso Saramago, eis que surge um comentário sereno, sensato, não ofuscado, nem por preconceitos religiosos, nem por convicções ateístas, como muitos daqueles comentários que têm vindo a lume, não só neste blog, como por tudo quanto é ciberespaço.
Para mim “O debate de idéias prós e contras não é inadmissível”como pretendeu fazer crer RBarbieri. Mas qualquer debate tem regras, princípios e, sobretudo, deverá ser feito com uma postura intelectual como aque acabaste de manifestar. Que sirva de lição a quem se considera iluminado ou detentor de toda a verdade.
Parabéns pela lucidez e inteligência do teu comentário.
José Cerca
A bem da possibilidade de emitir opinião, mesmo que diversa da maioria.
O barulho e poeira levantados, normais, são decorrentes da opinião inicial onde se falou em “infelicidade e ousadia” , comparações tais como “qual fundamentalista, a apelar à guerra santa”, “doença da cegueira de espírito que lhe terá roubado a lucidez intelectual”, “criticar imbecilmente” e vai por aí.
Em todas estas afirmações fogem do campo da antítese para entrar na crítica ao elaborador da tese, o que invalida o processo dialético já no seu princípio.
Quando disse que na prática observada o debate religioso não é possível, isto se caracteriza pela postura adotada pela grande maioria das pessoas.
Estaria eu fora da realidade? Ou o desejo de alguns sobrepuja o contexto encontrado.
Apesar de toda a lucidez e contemporização apresentadas nas idéias de Antonio Justo, retruco que numa discussão onde se estão defendendo posições entre ateus e teístas, temos que nos abster de basear nossos posicionamentos em conceitos que estão justamente sendo discutidos.
Exemplifico: ele separa as pessoas em “Caim e Abel” que é um exemplo mitológico puramente bíblico, e na frase “É humano e bíblico que a mesma luz do espírito vista da própria perspectiva apareça como luz e vista da perspectiva do outro se reduza a “cegueira de espírito” , entendo que seria uma posição apenas humana na discussão e não “bíblica”.
Afinal de contas a posição ateísta não considera a bíblia uma escritura sagrada e muito menos detentora de todas as verdades universais.
E para ocorrer uma discussão sobre a “bíblia” , há necessidade de suspender o julgamento da sua validade, podendo após uma eventual discussão o ateísta aceitá-la como verdadeira e o teísta desconsiderá-la como escritura sagrada, pois caso não haja esta pré-disposição em ambos, o debate torna-se inviável conforme afirmei.
Teriam que estar fora da discussão posições como: “A bíblia é sagrada porque é uma obra de Deus” e “Deus existe porque está atestado pela bíblia”.
A redução da chamada “realidade” bíblica a infantilismos atribuída a Saramago, é de fato uma reação crítica de quem não admite que a bíblia seja criticada.
Por outro lado não vejo nenhuma contradição em negar Deus e responsabilizá-lo pelo mal existente no mundo. Se o Deus antropomórfico não existe, nem o Deus Cristão ou Islâmico ou Judáico ou Induísta, ou qualquer outro, não significa que a sua imagem não exista e em nome dela tenham sido e continuem sendo cometidas atrocidades pelos homens.
Seria mais ou menos como dizer que Papai Noel não existe, porém atribuir a culpa de um consumismo natalino à sua imagem explorada pelo homem.
Tudo questão de interpretação.
Aconselharia o senhor Roberto Barbieri a , sempre que fizer citações referêncie a sua autoria para na tentativa de se levar a braza à própria sardinha não se levantar areia para os olhos de quem não está atento. De resto também a dialética não é mais que um instrumento de trabalho limitado!
A física quântica e a teologia trinitária já há muito que questionaram a física tradicional (aplicação das leis da física newoniana para explicar toda a realidade) o que está na base do mecanicismo e do determinismo. De resto, para continuarmos o discurso antagónico, com mais seriedade aconselho-o a voltar a ler o meu texto. Não seria útil para a discussão confundirmos a semântica com a fonética.
Aconselho-o a ler o texto CAIM E ABEL – DUAS FACES DA MESMA REALIDADE no meu blog http://antonio-justo.blogspot.com/; na sua introdução melhor entenderá a minha tese de que tudo é processo, e até mesmo a dialética dirigida para o Bem!
De resto tanto ateus como teistas são muito boas pessoas com a mesma origem, como se pode verificar nas nossas macaquices. O Mestre da Judeia já sabia disso e por isso dizia: pelas obras é que mostrareis o que sois.
António Justo
Ao ler o texto uma segunda vez verifiquei que em vez de newoniana se leia newtoniana relativa ao grande físico Newton um grande da macro-física! Opasso dado em frente n através das teorias da relatividade e da física quântica são tão revolucionárias no mundo da física que talvez leve séculos a entrar na consciência popular, tal como aconteceu com a física de Newton! Se algo importante queremos encontrar de comum na física e na teologia trinitária é a lei da complementaridade.
António Justo