Têm sido numerosas e frequentes, nas últimas semanas, após o lançamento da sua última obra, “Caim” inspirada num “manual de maus costumes e num catálogo de crueldade”, tal como Saramago apelidou a Bíblia, têm sido numerosas, dizia, as afirmações polémicas, provocadoras e agitadoras de Saramago sobre temas, situados, sistemática e obsessivamente, no âmbito da religião, da fé e do cristianismo, com destaque para a Igreja Católica.
Na sequência de tais afirmações provocatórias, têm surgido os mais díspares comentários, uns nitidamente contra, outros decididamente a favor e em defesa do autor das polémicas afirmações que foram feitas, não à mesa de um qualquer café, mas perante as câmaras de televisões, ou à frente de microfones de outros meios de comunicação social.
Seria absurdo e materialmente impossível exigir-se que as serenas e tranquilas águas de um qualquer lago ficassem indiferentes ou inertes a um pedregulho que alguém lançasse para o seu interior.
As águas só não responderiam ao lançamento da dita pedra, com uma sequencial formação de ondas, se elas estivessem completamente geladas.
Esta analogia da pedra e do lago vem a propósito de um conjunto de comentadores saramaguistas que, não só defendem cegamente as afirmações do autor da mais recente re-criação da história bíblica de Caim e Abel, como condenam, intransigentemente, toda a indignação que por todo o lado tem surgido na sequência, não tanto do livro em si, como sobretudo das suas polémicas afirmações proferidas por ocasião e após o seu lançamento.
Quereriam, talvez, os tais defensores de Saramago que o pacífico lago das crenças religiosas e da fé de milhões de crentes estivesse completamente gelado e ficasse indiferente ao arremesso de tantos calhaus provocadores.
Se Saramago defende o direito à “dissidência e à blasfémia”, tal como referiu em directo, num dos canais televisivos do País, terá todo o direito de o fazer, em seu próprio nome.
Mas será que os milhões de crentes, não terão também o direito ao respeito pelas suas convicções religiosas, pelas suas crenças e ritos sagrados?
As mais recentes afirmações de Saramago, baseadas numa leitura simplista e literal do Livro Sagrado, não me parecem que se integrem, minimamente, neste salutar princípio do respeito pelas convicções religiosas e pelos valores sagrados que certos símbolos, ou objectos, como a Bíblia, merecem, desde há milhares de anos, para milhões de crentes e até de muitos não crentes.
O que vale a Saramago é que os cristãos, à imitação d’Aquele cuja doutrina pretendem seguir, são tolerantes, compreensivos e sabem perdoar, mas não são gelo e também têm o direito à indignação.
Se tais provocações saramaguistas fossem dirigidas, a outro livro sagrado, como por exemplo, o Alcorão, talvez o prémio Nobel fosse obrigado, por segurança pessoal, a seguir o caminho do escritor Salman Rushdie, condenado à morte em 1989 pelos líderes do Irão, por causa de seu livro “Versos Satânicos”.
Sinceramente, mesmo no meu pleno direito à indignação, não desejo, nem defendo que tal venha a acontecer, pois tenho um pressentimento de que Saramago ainda vai acabar por ser tocado pelo dedo do Deus que diz não existir, apesar de conhecer as histórias da Bíblia, melhor do que muitos cristãos.
José Cerca
Publicado no Quinzenário “Jornal de Arouca” nº751 de 30 de Outubro de 2009
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Saramago, o combatente, não dará lugar a Saramago, o convertido?!
Surgiu uma nova polémica em torno de José Saramago. Agora por causa da sua obra mais recente sobre a Bíblia e, mais propriamente, sobre o episódio de Caim.
Ainda não li o livro, mas fui apanhado pelo foguetório e pelos estilhaços da polémica.
Inclusive, tomei conhecimento de que o eurodeputado do PSD, Mário David, que é também vice-presidente do Partido Popular Europeu, chegou ao cúmulo de defender que José Saramago devia renunciar à nacionalidade portuguesa. Que barbaridade inquisitória! Depois dos resquícios salazarentos de Manuela Ferreira Leite sobre a fantasiosa asfixia democrática temos agora outro membro do PSD a invocar os tempos da inquisição, que também serviu de pretexto a um tal Sousa Lara (também do PSD e membro do Governo de Cavaco Silva) para excluir Saramago da lista de candidatos portugueses ao prémio Nobel.
Conheço mal Saramago e a sua obra. Mas não ignoro o valor literário que lhe é reconhecido internacionalmente.
Pelo pouco que sei de Saramago creio que, no essencial, apenas temos em comum o facto de sermos portugueses que querem o melhor para o seu país.
Saramago nega a existência de Deus. Eu, como católico, acredito nela. Na política, Saramago sempre se afirmou comunista e, pelo menos em tempos idos, foi defensor da ditadura do proletariado, enquanto eu, como socialista, sempre fui contra qualquer forma de ditadura e a favor da democracia pluralista e da liberdade, sem quaisquer constrangimentos.
Nos planos religioso e político não encontro, pois, valores fundamentais que me liguem a Saramago. E, até por isso estou à vontade para dizer o que penso sobre as incursões religiosas dos seus escritos.
A Bíblia não foi escrita por Deus. Foram homens, de diversas épocas, linhas de pensamento e interesses que lhe deram forma. E, naturalmente, cada um escreveu à sua maneira e como soube, influenciado pelos respectivos interesses e em conformidade com a liberdade de que usufruía na época. Tal como Saramago agora faz, enquanto escritor de reconhecido mérito, falando do que sente, dos seus interesses e desinteresses e com uma liberdade de expressão que, felizmente, não tem censura.
Porém, o mérito conferido a Saramago não lhe reconhece o primado da verdade. As suas interpretações são apenas suas e de quem a elas adira.
Não foi o facto de Saramago ter imaginado um romance entre Jesus Cristo e Madalena que abalou minimamente a minha crença em Cristo. De contrário, se porventura esse ficcionado romance tivesse existido (o que, tanto quanto sei, não está provado), a dimensão humana de Cristo continuaria, para mim, inabalada e, por certo, ainda mais humanizada.
Quando Saramago vai buscar velhas histórias como a de Caim para dizer que a Bíblia é um manual de maus costumes, para mim isso apenas significa que Saramago se orientou por meros critérios de jornalismo para poder empolar más notícias, sabedor de que, nos tempos que correm, as “boas novas” não se vendem tão facilmente ou, até, vendem-se mal!
Se isso fosse ao encontro dos propósitos e interesses de Saramago, ele teria descoberto na Bíblia inúmeras passagens de bons costumes e de boas medidas, inclusive à luz dos tempos actuais – p. e., “bem–aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”.
Numa época em que tanto se fala de fome e de injustiça no mundo, esta passagem (e muitas outras que continuam bem actuais) não serviria para apresentar a Bíblia como um valioso manual de bons costumes? E, para o Saramago comunista isto não evocará algo de essencial?!
Com escritos que contam milhares de anos, é inevitável que a Bíblia contenha passagens e mensagens que, aos nossos olhos, já não fazem qualquer sentido.
Cada coisa tem a sua época e, em nome do rigor, deve ser analisada à luz dos critérios dessa época. Se assim não se fizer, qualquer dia ainda teremos Saramago (ou qualquer outro) a defender que D. Afonso Henriques foi um terrível bandoleiro e malfeitor que recorreu a processos belicistas e atentatórios da paz mundial para roubar um valioso conjunto de terrinhas aos proprietários que as tinham na sua posse!
A Bíblia foi escrita por homens e não por Deus. E quando Saramago se manifesta contrário a algumas das suas passagens, considero que está, apenas, a manifestar a sua discordância relativamente aos escritores que as produziram. Como Saramago não acredita em Deus não se me afigura racional que o combata, porque ninguém no seu perfeito juízo ousa combater aquilo cuja existência nega.
A crença (a fé) em Deus não se explica como a matemática ou a biologia. Sente-se ou não se sente! Saramago não a sente e, portanto, não acredita. Contudo, tem tanto direito a exprimir os seus sentimentos, interesses e pensamentos como eu que a sinto e acredito, com especial fundamento e inspiração nos ensinamentos de Cristo.
Se eu tivesse as credenciais de Saramago para a escrita baseava-me na Bíblia e publicava um livro a exprimir exactamente o contrário do que ele apregoa, porque não tenho a menor dúvida de que tinha uma infinidade de fundamentos e ilustrações para o poder fazer.
Saramago é um homem com virtudes e defeitos como os demais. Aquilo que disse e que porventura ainda venha a dizer sobre religião tem tanto valor como aquilo que eu digo, embora reconheça que o que ele afirma tem infinitamente mais impacto mediático.
Mas esse impacto, apesar de grande, é mesmo assim ridiculamente insignificante para poder abalar a crença e a fé dos que a sentem.
Até por isso não se compreendem algumas posições extremadas que emergiram de vários quadrantes, inclusive de sectores da igreja católica.
Quem sente e acredita em Deus deve ter lucidez e serenidade para se dispensar de contribuir para o peditório de Saramago com polémicas que apenas servem para lhe aumentar o volume de vendas!
Roma e os seus exércitos e instituições tinham bem mais poder do que Saramago e, mesmo assim, os combates sangrentos e sem tréguas que travaram contra o ideário cristão e os cristãos tiveram o desfecho histórico que é bem conhecido: Roma foi vencida e converteu-se ao cristianismo.
Nessa época a máxima era: “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Adequando-a aos tempos actuais bem se pode dizer, com irrefutável propriedade: “a Saramago o que é de Saramago e a Deus o que é de Deus”
Afinal, quem sabe se Saramago, o combatente, não dará lugar a Saramago, o convertido?! Seguramente, é uma questão à qual nem o próprio Saramago tem o mérito de saber responder com inequívoca precisão…
Saramago, o combatente, não dará lugar a Saramago, o convertido?!
Ver artigo completo em: h t t p: / / adiante.bloguepessoal.com/
Cuidado, que isto pode gerar um incidente diplomático!
A nível internacional, nacional e local…
Com o Vaticano, com Hespanha e…até mesmo com Arouca.
Só que
O perdão cristão de facto é revolucionário e é essa a grande inovação:
Se alguém te bater numa face, oferece a outra. Não é fácil, pois não?
Ontem até pareceu! O Perdão Cristão é Universal.
Saramago (foram cardos, foram prosas, foram saramagos), estás perdoado.
“As críticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais, que revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais e uma total incompreensão da linguagem poética e narrativa de desde há mais de três mil anos.”
A polémica levantada, não tanto pelo último livro de Saramago, inspirado na história bíblica de Caim e Abel, mas sobretudo pelas suas polémicas e provocadoras afirmações sobre a Bíblia, Deus e a religião, tiveram o efeito benéfico de chamarem a atenção para este Livro Sagrado, ao mesmo tempo que provocaram uma autêntica exegese bíblica por todo o ciberespaço. Gostei de ler esta vinda de alguém ligado à religião hebraica. É um pouco longo este texto, mas merece bem a sua leitura:
http://bit.ly/3UqlDS
MEUS COMENTARIOS à afirmaçao deliberada/ insultuosa do cidadao (ainda) portugues JS “O Papa parece-me um hipocrita”(e doutras de igual falta de calibre!)durante entrevista extensa que concedeu ao DN. Publico-os aqui CONTRA A INSOLENCIA e CINISMO de TODOS QUE USAM MÁ-FÉ, pq o pasquim DN se recusou recursiva/ a publicar exercendo sobre minhas opinioes declarado bloqueio ou CENSURA (mas nao sobre esta ilusao de nobel — boneco+cheque+pseudo humano):
Este saramago parece-me um OPORTUNISTA.
Este saramago parece-me um INSULTADOR SOCIAL.
Este saramago parece-me um TARADO PSICOPATA (nao ha nenhum psicologo isento independente nao-amordaçavel que queira analisar este caso patologico, em crescendo até à cova?)
Este saramago parece-me um nobel PREMATURO.
Este saramago É UM ARROGANTE MORBIDO, É UM RESSABIADO PAROLO, É UM CASO PATOLOGICO, E pensa que é UM PSEUDO-deus mas BACOCO!
Agora parece-me que um PSEUDO-deus da ignorância, estupidez, ofensa e falta de respeito (= má-fé) é uma qualquer ERVA DANINHA, UM saramago!
Rodericus (Guimaraes,Porto,Lisboa)
A polémica tão oportunisticamente levantada por Saramago,a propósito da promoção comercial do seu último livro já não se resume apenas ao espaço Lusitano, mas também tem tido ecospor todo o Mundo. Acabei de ler um vindo da Alemanha: “Caim em Saramago” escrito por um teólogo arouquense a trabalhar nesse País. Leiam-no aqui:
http://bit.ly/4wvdfd
Passo a citar um email que recebi sobre o artigo que escrevi e que o Dr. José Cerca teve a amabilidade de acima referenciar. O email diz: “Gostei de Ver Camões como bombeiro deste fogo da maldade! Afinal o fogo do amor camoniano a combater o outro! Não escreva mais sobre este “gajo” que os suecos usaram como os franceses usaram Linda de Suza, para estigmatizarem Portugal e os Portugueses em flashes imagéticos opostos ao que nós somos!. Está ao nível da Maitê Proença.” Fim da citação.
Naturalmente que Portugal é universal e tem lugar para todos os antagonismos e da discussão sai a luz. O problema está na tesoura que se traz na cabeça e sensura tudo o que não corresponda à própria opinião e aos próprios interesses. A falta de formação simplifica o trabalho incendiário de quem abusa da ingenuidade.
José Saramago sabe bem atear fogos. A melhor resposta ao fogo da maldade será o esclarecimento, a formação cultural. Na escuridao da desinformação, da ignorância e do egoismo até os pirilampos se tornam grandes luzeiros. Precisamos é promotores do amor, do amor jesuino e do amor camoniano. Só este fogo purifica e desenvolve!
António da Cunha Duarte Justo