ELOGIO AO ORGANISTA

por jcerca em 14 de Julho de 2011

A propósito do último concerto no Mosteiro de Arouca,  encontrei este texto na internet e que aqui reproduzo em homenagem ao organista titular do orgão ibérico do Mosteiro de Arouca, Nicolas Roger:

No inesperado do tempo moderno chega uma notícia de música antiga, séculos de memória no desenho do seu som cheio, forte e envolvente.

O trabalho do organista é feito de impulsos, força e tenacidade mas resulta de invisíveis lágrimas, longos pesadelos e muito sangue pisado.

Seja no Mosteiro de Arouca ou na Matriz de Mação, seja na Sé de Évora, ou na Basílica dos Mártires, seja na Catedral de São Paulo em Londres, seja lá onde for que defronte o seu desafio de melodias a nascer, o organista defronta uma memória de sons acumulada em mais de quarenta anos de prática. Entre as teclas, os botões e os pedais, muitas vezes lidando com peças originais com centenas de anos de idade, o organista é um navegador forçado a tomar decisões em pequenas frações de tempo

O organista é o discreto pastor do som, esse rebanho disperso pelo horizonte sem fim do campo e da serra onde nem as pedras nem o cão podem ajudar. Apenas os dedos, ágeis, firmes e certeiros, transmitem às teclas brancas e negras uma gramática de sons que levanta a melodia do rés da terra para o azul do céu.

Tal como na oração (ou no poema) há neste gesto um ligar de novo, uma liturgia secreta que ninguém desvenda mas que todos podem ouvir. E, ouvindo, o tempo fica diferente com inesperadas e novas coordenadas, com felizes e longos encontros.

Esta é uma música antiga e moderna (ao mesmo tempo) que não agride, não distrai, não cansa porque, pelo contrário, a sua melodia afirmativa, solene e determinada, traz aos ouvidos de quem recebe o seu usufruto um intervalo de paz, de alegria e de júbilo.

Texto recolhido aqui:

 http://aspirinab.com/jose-do-carmo-francisco/vinte-linhas-636/

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