A CASA DO CEREEIRO DA PARADINHA

por jcerca em 13 de Agosto de 2021

É seguramente a maior casa da Paradinha e a única que continua na posse de arouquenses nascidos e criados neste emblemático lugar, o primeiro de Arouca a fazer parte das Aldeias de Portugal em 2012. Todas as restantes casas foram compradas a restauradas por pessoas fora de Arouca, sobretudo a partir de 1995.

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Estamos a falar da casa do cereeiro da Paradinha como ficou conhecido o sr. Manuel da Costa e Silva, natural de Fornos, Castelo de Paiva e que viria a casar na Paradinha, onde acabaria por desenvolver uma importante atividade no campo do fabrico das velas de cera para o culto.

Segundo as suas netas, Norvinda e Maria dos Anjos, era um homem muito alegre, comunicativo  e muito culto (lia diariamente os jornais) o que lhe permitia dominar qualquer assunto com os muitos amigos que tinha por toda a parte. Era um homem aberto aos outros e possuidor de uma bondade e solidariedade marcantes. Foi homem de uma grande fé e acreditando que a Senhora da Boa Hora estava sempre presente nas pessoas da sua vida, mandou construir a capela em sua honra. Era, pois um homem bastante religioso, o que tornou fácil a conquista dos padres daquele tempo, para esta sua atividade, cuja área comercial se estendia não só a Lamego, a cuja Diocese a Paradinha pertencia, como também a Cinfães e Castelo de Paiva, assim como S. Pedro do Sul, S. João da Madeira e Arouca.

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 A casa

Toda em xisto e coberta com lousas de ardósia, tal como as restantes construções deste lugar, a casa do cereeiro da Paradinha é um magnífico espaço, muito bem situado, logo à entrada do lugar e que se estende verticalmente por três níveis, tendo pedaços de rocha natural na constituição de alguns troços das suas paredes.

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Na ombreira de um dos seus portais está gravada a data de 1886 acompanhada da inscrição “Mandou F. José S.M.” (mandou fazer José Soares Mendes, que era o bisavô de Norvinda  e Maria dos Anjos).

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Quando nela entrámos, no dia 7 de agosto, após a edição de 2021 da “Missa do Rio” e no final da pré-apresentação do livro “Memórias da Paradinha” escrito em co-autoria por Norvinda Assunção, neta do cereeiro da Paradinha, e por José Cerca, fomos surpreendentemente recebidos pelo esvoaçar chilreante de dezenas de morcegos que fizeram desta casa a sua habitação, encarregando-se do afastamento de qualquer fauna menos desejável que lá tentasse entrar.

À frente desta enorme casa e em nível inferior, junto ao ribeiro, fica a primeira casa do cereeiro da Paradinha, “a casa do ribeiro” como era designada. Foi a habitação primitiva do seu sogro recentemente restaurada pela sua neta mais nova, e tendo adjacente a ela um pequeno terreno com frondosas árvores que, além de sombra lhe dão também beleza.

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Um museu em potência

Ao percorrermos as diversas divisões, distribuídas pelos 3 níveis verticais, ficámos verdadeiramente surpreendidos com a quantidade de alfaias que ocupam grande parte delas, quer penduradas nas paredes interiores, umas, quer espalhadas pelo chão, outras. São alfaias, muitas delas já raras de se encontrarem e que se referem, não só à atividade agrícola, como ao tratamento do linho e, obviamente, também ao fabrico de velas de cera que chegou a ser uma das primeiras indústrias criadas no concelho de Arouca, por Manuel da Costa e Silva, o cereeiro da Paradinha.

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A acrescentar a estas alfaias refira-se ainda a existência de um lagar com o respetivo tanque, a sua monumental prensa e outros diversos objetos relacionados com o tratamento da vinha e o fabrico do vinho. Além deste antigo lagar há ainda, numa outra divisão, uma cozinha com forno a lenha, a sua enorme chaminé, bem como todos os numerosos utensílios, dentro dos quais não faltam obviamente, as panelas de ferro.

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 Curiosa nessa cozinha é a existência de uma gruta escavada na rocha natural e que faz parte de uma das paredes da mesma. Segundo Norvinda Assunção, esse buraco, qual frigorífico natural, servia para manter frescas as garrafas do vinho.

Um restauro que se impõe

Sem pretendermos interferir nas decisões dos proprietários desta histórica casa da Paradinha, parece-nos que será urgente iniciar-se todo um complexo e dispendioso processo de restauro, a começar pela sua cobertura, pois o efeito das infiltrações é já bem notório, sobretudo no nível superior, destinado, originariamente, à sala e aos quartos.

É óbvio que um processo de restauro obrigará a um cuidadoso trabalho prévio de tratamento, inventariação e arrumação das numerosas alfaias que aí se encontram amontoadas, bem como do restante recheio.

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Isso implica que se pense seriamente, e em local adequado, na procura de um espaço museológico que permita preservar para a posteridade todo este importante espólio, antes que ele acabe por desaparecer definitivamente. Esta é uma responsabilidade conjunta, não só dos detentores de todo este espólio, como também das entidades que têm a obrigação de preservar o nosso património, não apenas com intuitos turísticos, mas também por motivos históricos e didáticos em função das novas gerações que não podem ignorar o seu passado.

Um espaço museológico 

No livro “Memórias da Paradinha” recentemente publicado, Norvinda Assunção confessa: “Gostaria de reunir todas as peças dessa fábrica de cera e fazer um pequeno museu para mostrar uma interessante atividade criada pelo meu avô que ficou mais conhecido como cereeiro da Paradinha e que é considerado como um dos grandes homens de Alvarenga, embora andasse quase sempre de alpercatas em casa, o que revela a sua grande simplicidade e humildade.” Aliás esta é também a vontade de toda a família.

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Quer venha a ter a configuração de museu, quer de centro interpretativo, a verdade é que se impõe a criação deste espaço em lugar adequado.

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E tal como ninguém criaria um centro interpretativo das minas de Regoufe, ou de Rio de Frades, na Vila de Arouca também não nos parece lógico fazer o mesmo com este importante e raro espólio da Paradinha. Fazê-lo seria privar este emblemático lugar de um património autóctone que lhe pertence e que só cumpriria a sua verdadeira função histórica, pedagógica e turística dentro da própria localidade em que ele se insere.

Como amante da Paradinha e como apaixonado por todo o nosso rico e vasto património aqui deixo este desafio. Concretizá-lo seria, certamente, a melhor homenagem que se poderia prestar ao “Cereeiro da Paradinha”.

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José Cerca

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº546 de  o3 de setembro de 2021

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