Morreu com 35 anos de idade, quando muito se esperava, não só do seu talento poético e da sua promissora criação literária, como também do seu fecundo sacerdócio.
Num dos últimos dias da sua vida, sentindo aproximar-se a hora da sua partida confessou: «Tenho pena de morrer tão novo; queria ser poeta do amor e da santidade».
Ocorrendo no dia 26 de março deste ano o 50ºaniversário da partida para a sua “Primavera” tantas vezes evocada em numerosos dos seus poemas, será oportuno evocarmos a vida e a obra de Cassiano Guimarães, poeta e sacerdote da Congregação Salesiana.
Foi numa dessas manhãs primaveris de Março que a sua tão suspirada Primavera nasceu finalmente para ele. A sua “Primavera”, a sua “Madrugada eterna de ventura”, a sua “Manhã de Mimosas” a sua “Primavera de Deus”, tão liricamente cantada pela sua rara sensibilidade, não eram para ele mais do que o símbolo metafórico da Primavera Metafísica, da Esperança de Sião, da Eternidade que a manhã de 26 de Março de 1963 lhe veio finalmente abrir, em Bagaúste, na linda região do Douro.
O seu belo soneto “Madrugada” é, certamente, o prenúncio bem expressivo desse dia:
Senhor, findou‑se a noite. . . É dia! É dial!
Bate‑me o Sol nos olhos! Madrugada!
Quanta folha no chão, morta, calada,
Como depois de austera ventania!. . .
Senhor, findou‑se a noite!. . .É dia! É dia!
Na árvore despida, abandonada,
Cantam as andorinhas de alegria
O despertar da nova Madrugada!!
Senhor, longe de Ti, que int’ressa a vida?!
Noite de um sonho, uma ilusão perdida
Que busca, busca sempre e nunca espera…
Senhor, Senhor, sou Teu! Toma‑me inteiro!
Fugiu a noite! Foi‑se o cativeiro!
É madrugada! É vida! É primavera!!
(“Manhã de Aleluia” – 57)
O homem, o poeta, o sacerdote
Cassiano Guimarães nasceu em Medrões, Santa Marta de Penaguião, a 19 de Novembro de 1927. Cedo sentiu a atração pela vida sacerdotal. Frequentou o Seminário menor de Poiares da Régua, o Noviciado em Mogofores, tendo em 1949 feito a profissão perpétua, na Congregação Salesiana. Cursou Filosofia no Estoril e teologia em Becford (Inglaterra). Inteligência e grande bondade tornaram-no querido dos colegas, superiores e amigos. Foi ordenado sacerdote em Mogofores em 31 de Maio de 1953.
“Gastei 15 anos! Minha mocidade,
Para hoje nesta pedra descansar!
Que int’ressam sacrifícios e renúncias,
A aridez e a luta,
Se, enfim, toquei, meu Deus, no Teu altar?…”
A chegada de Cassiano Guimarães ao sacerdócio é descrita pelo poeta com um sentimento de grande humildade de quem, embora sentindo-se indigno, pretende fazer dessa meta atingida “uma vereda humilde de ascensão”.
Ser uma “vereda humilde de ascensão” para os homens seus irmãos foi essa a missão do poeta-sacerdote Cassiano Guimarães. E foi-o não só pelo seu ministério sacerdotal, mas também, e há-de continuar a sê-lo, pela sua poesia que é bem um eco da sua alma de apóstolo, que sente e sofre dentro de si, a descrença da pobre humanidade, cada vez mais perdida na sua autossuficiência, cada vez mais afastada de Deus e dos valores do Evangelho.
Como sacerdote que é, Cassiano Guimarães exprime em muitos dos seus poemas a angústia, a preocupação e a tristeza de sentir que a sociedade coloca Deus fora dos seus interesses, muitos vivem como se Ele não existisse, ou até como se ele fosse um obstáculo contra as suas metas de uma felicidade que, afinal, jamais os deixará verdadeiramente felizes, porque procurada longe de Deus. É por isso que ele se interroga:
“Senhor, longe de Ti, que interessa a vida?”
Para o poeta preocupam-no os homens de hoje, num vaivém contínuo, atarefados pelos seus numerosos afazeres, que já não têm tempo de parar e pensar naquilo que, ao fim e ao cabo, os espera: Deus, a Outra Vida, a Eternidade.
E numa ânsia grande de fazer refletir essa pobre humanidade, o poeta, vai-se colocar numa encruzilhada, qual “estranho sinaleiro”, a mandar “parar a gente toda, os carros a passar a toda a brida”.
E fui-me colocar na encruzilhada
Onde passavam todos os caminhos
Que se perdem no mundo desta vida…
E fiquei lá o dia inteiro
No centro, como estranho sinaleiro…
E mandava parar a gente toda,
Os carros a passar a toda a brida…
A todos perguntava para onde iam.
E todos me diziam que à cidade,
Ao campo, à fonte, à feira, ao jogo, à caça,
Ao baile, à festa, a um não sei quê sem fim…
E ao fim do dia, quando o Sol partiu,
Pus-me a escutar na encruzilhada, só,
Os ecos desta vida
Que a noite, ao longe, adormecia em mim…
E ao luar…. o Santo Peregrino
Da Pátria de Além-Mundo,
Pus-me a chorar nas contas do meu terço
A pobre Humanidade….
No pó levada do vaivém da vida
Cega, lá ia, em barulhenta lida
Sem se lembrar de Deus, da Eternidade….
( “O Mundo em Mim”- 64)
O mar e a rocha
Artista da palavra que tão sedutoramente a sabe utilizar; criador de imagens e de comparações que tão artisticamente embelezam os seus poemas, Cassiano Guimarães, na sua relação com Deus sente-se uma rocha, ora acariciada pelas ondas do mar, ora batida pela fúria das marés:
Tu foste o Mar, meu Deus, e eu fui a rocha…
Tu tinhas força em Ti para me desunires,
Para me destruíres,
E não quiseste…
Foste tentando aos poucos…
Às vezes,
Em noites de luar,
Passaste-me carícias,
Beijaste-me,
A ver se me abrandavas,
E não pudeste…
Mas outras vezes,
Em ira paternal,
Bateste-me zangado,
E eu crispei-me, finquei-me… e endureci
Como um coral…
Por muito tempo andaste…,
Por muitos anos…
Assim…
Não qu’rias que dezenas de pedaços
Se despregassem
Mortos… de mim !…
O que esperavas, Tu, ó Mar, meu Deus,
De mim, da rocha,
Não era a sujeição;
O Teu amor, que em fúria lhe batia,
Dela só qu’ria
Uma entrega de amor,
A rendição!
E um dia,
Tanto bateste,
Que enfim desmoronei…
E caí vivo em cinco pedregulhos
No fundo do Teu seio, onde acabei…
Fiquei em Ti…
Absorvido em Ti…
Eu já não era eu…
Os cinco pedregulhos de mim mesmo
Ficaram jogas
Que Tu rolas, rebolas sobre a areia
Nesse tão louco amor que me rendeu!…
( “O Mundo em Mim”- 14,15)
A peneira
Apenas com 35 anos de vida, 10 de sacerdócio, morreu muito cedo o Pe. Cassiano Guimarães. Cedo mas rico porque soube dar-se totalmente, sem reservas, a Deus e aos irmãos, na generosidade dos seus 16 anos.
É símbolo expressivo desta ânsia de doação o seu poema tão simples e, ao mesmo tempo, tão encantador, “A peneira”, no qual, através de belas metáforas, Cassiano exprime a simplicidade da doação e o desapego à vida, querendo fazer dela apenas uma peneira nas mãos de Deus:
SENHOR, eu quero ser
Nas Tuas mãos
Uma peneira…
E leva-me, Senhor, de eira em eira…
Que ela a todos dê branca farinha
E fique só com palha, coitadinha…
De eira em eira…, de irmão a irmão…,
Criva, Senhor, meu pobre coração.
Peneira-o bem, Senhor, peneira-o bem,
Que a todos dê por Ti tudo o que tem.
Se nem lugar me derem nas choupanas,
Se em paga me espetarem de praganas,
Só Te peço que não deites ao chão
A peneira com que tens crivado pão.
Que maior paga enfim me podes dar
Que sem prémio algum Te qu’rer amar ?…
E assim… sofro, Senhor, e em gozo abundo
Por nada achar em paga neste mundo !…
(“O Mundo em Mim”- 26,27)
A vida e a morte em Cassiano Guimarães
Apaixonado pela vida, Cassiano Guimarães viu, a um determinado momento da sua curta existência, os seus projetos confrontarem-se com inevitável morte que chegaria demasiado cedo, interrompendo assim abruptamente todos os seus sonhos.
Pela leitura dos escritos que Cassiano nos deixou facilmente nos apercebemos deste dualismo que é frequente ao longo da sua obra e que o coloca entre o desejo de concretizar um vasto conjunto de sonhos e a consciência que tinha dos inesperados limites da sua existência.
Mesmo assim, e não obstante os sonhos, os desejos e os projetos que tinha construído para a sua vida, a morte nunca lhe meteu medo.
Prova disso são um conjunto de 30 poemas que ele escreveu sobre este tema e que foram coligidos em “Ciprestes”, embora nunca tivessem sido publicados.
Trata-se de um conjunto de belíssimos poemas, repassados de uma fina sensibilidade existencial e que são escritos pelo poeta ”para lembrar ao Mundo a Eternidade” (4). Nesses poemas o poeta exprime“ânsias de infinito” (17), saudades “desse Além sem fim”(14 e 15), ou desejos pela chegada desse “Eterno Dia” (25)
Presente em quase todos os poemas que constituem este “Ciprestes”, a morte é uma constante temática subjacente em todos eles.
Mas ao contrário do comum dos mortais, para Cassiano Guimarães a morte é simplesmente o “fim de uma estrada” e o regresso “aos braços de Meu Pai nesse outro Mundo” (25), no “Reino da Ventura” (32).
A escrita ao serviço da evangelização
Para Cassiano Guimarães a sua atividade literária era como que um autêntico prolongamento da sua atividade pastoral, como dedicado sacerdote e exímio orador que era.
Pressentindo a chegada da sua partida deixa numa das páginas do seu Diário este desabafo:
“Tenho para aqui originais a encherem‑se de pó, enjoados da espera. Gostaria imenso de fazer carreira literária, dar aos outros a pequena mensagem da minha arte, a que o Senhor me deu; levar a fome de Deus nos meus livros, comunicar às almas de tantos outros irmãos este mundo interior onde todos os caminhos vão dar às portas de Deus, a este outro mundo que está nas margens de lá. Paciência. Até a esta satisfação de escrever tenho de renunciar….”
E numa outra passagem manifesta este seu desejo:
«Tenho entre a papelada vários manuscritos. Creio que poderão fazer algum bem, se vierem a ser impressos. Bem gostaria de continuar o apostolado da pena como poeta, mas o Senhor parece que vem chamar‑me. Só peço uma coisa: que publiquem os inéditos”.
Morrendo apenas com 35 anos de idade, Cassiano Guimarães, além de uma vasta colaboração em várias revistas, deixou publicadas várias obras em poesia: “Mundo em mim”, “Manhã de Aleluia”, ”Poemas de um sacristão”, e “Avé-Maria”.
Em prosa deixou “O grilo das asas de ouro” e “Contos” este no prelo.
Postumamente foram publicadas “Manhã de Nuvens” e “O que minha avó me contou”, ambas num mesmo volume.
Poemas de um sacristão
Vestindo a roupagem literária de um simples sacristão de aldeia, cujos versos se encontram fechados, desde há muito numa gaveta, Cassiano Guimarães, com os seus “Poemas de um Sacristão “pretende fazer destes seus versos, aliás como de toda a sua obra literária, um outro púlpito.
Orador fluente, pregador nato que dava gosto ouvir, o Pe. Cassiano faz dos poemas deste sacristão apelos veementes à conversão de vida, gritos de profeta contra a indiferença religiosa, num mundo cada vez mais secularizado e em que o avanço da descristianização o preocupa já.
Cassiano Guimarães era um homem apaixonado, um sacerdote generoso, idealista que albergava dentro de si um coração enorme capaz de abraçar o Mundo inteiro. E esse desejo traduz-se em frequentes versos apelativos que o poeta grita ao Mundo na ânsia de o levar a endireitar os caminhos do Senhor, qual profeta a pregar no deserto da indiferença religiosa, do laicismo, do materialismo e da descristianização.
E é através dos seus versos quais sermões poéticos destinados a um público arredado do seu púlpito, que Cassiano Guimarães quer também chegar.
Ó vivos, vivos, loucos, insensatos,
Rádios, conquistas, prémios, descobertas,
Livros, jornais, anúncios e revistas,
Barulho, agitação, pó, movimento!
Para quê tudo isso, irmãos, irmãos,
Se tudo é sombra, sombra de outra vida,
Se tudo é fumo e pó que leva o vento?…
(“Poemas de um sacristão” – 69)
E o seu diagnóstico para a situação em que a Humanidade vive, leva o poeta a apontar o afastamento de Deus e a ausência da paz de Deus no coração do homem como a causa principal de tantos males que torturam e desorientam este Mundo:
Ó meus irmãos, o que dá guerra e crimes,
Tormentos, suicídios e prisões,
Nada mais é que a escravidão do vício,
A tenebrosa noite das paixões!
Não é dinheiro o que no mundo falta,
Não é a fome que tortura o mundo,
Não é doença nem miséria, não!
O que tortura o mundo é a ausência amarga
De Deus de tantos lares, de tantas almas. . .
É a paz de Deus que falta ao coração.
(“Poemas de um sacristão” – 76)
Cinquenta anos se passaram. No entanto, a sua mensagem continua atual, a sua poesia continua fresca e viva para afinar a nossa sensibilidade. É que Cassiano Guimarães deixou-nos na sua obra uma mensagem, “uma mensagem de certeza, de luz, de paz, uma mensagem de verdade e de sentido no caos de tanta poesia modernista. Uma mensagem que todos entendem, porque é a de um poeta que fala com a linguagem do coração e a humildade dos simples”.
Tendo despertado para Cassiano Guimarães, há 50 anos, a sua “Madrugada eterna de ventura”, é lá, onde a “Madrugada é sempre madrugada” que certamente ele se encontra, dando largas à poesia infinita numa “sinfonia etérea de mil fontes” nos “eternos roseirais da Vida”. Que saibamos desfrutar da sua mensagem, ainda tão atual, através da obra literária que nos deixou.
José Cerca