Dia da Mãe:uma breve homenagem
Aquilo que todos nós já tivemos, muitos de nós ainda têm e alguns já deixaram de ter é aquele ser a quem chamamos MÃE e que na voz poética de Almeida Garrett “é a mais bela obra de Deus”.
Um outro poeta, Simões Dias, afirma-nos que
A gente não sabe
Avaliar quanto vale
Um afecto de Mãe
Num coração maternal.
E Augusto Gil, numa comparação expressiva afirma-nos:
Mãe que ao seu menino beija
Os labiozinhos em flor
Comunga, como na igreja,
Recebe Nosso Senhor.
É ainda Júlio Brandão quem nos diz esta verdade popular:
Há duas coisas no mundo
Que não se podem contar:
Beijos que as mães dão aos filhos,
Areias que tem o mar.
Cantada por poetas e objecto de tema para escritores e artistas, a MÃE é aquele ser insusbtituível em qualquer família.
Para todas elas, em jeito de homenagem, este belíssimo poema de Guerra Junqueiro em que ele, quase no final da sua vida, evoca, com grande saudade, a doce memória que lhe ficou de sua MÃE:
Minha mãe
Minha mãe, minha mãe! Ai que saudade imensa
do tempo em que ajoelhava, orando ao pé de ti.
Caia mansa a noite; e andorinhas aos pares
Cruzavam-se, voando em torno dos seus lares,
suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebreu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu.
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço
vendo a lua subir, muda, alumiando o espaço
eu balbuciava minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Guerra Junqueiro
Etiquetas: Guerra Junqueiro, mãe, poema
4 de Maio, 2008 às 17:49
Envio um outro poema à Mãe e à Matemática
Mãezinha
A terra de meu pai era pequena e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta, dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data, 3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade, chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos…
(De resto, as senhoras casadas, pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento, eram meninas casadoiras,
seriíssimas, discretas, mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas, não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas; outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se não se sabe porquê.
A que sobeja chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
António Gedeão
5 de Maio, 2008 às 3:02
Obrigado, Cristina pelo teu contributo.
Um outro lindo poema, de um outro grande poeta português e que eu, efectivamente desconhecia.
José Cerca