SANTA FRANCISCA CABRINI OU S. JOÃO BOSCO?

por jcerca em 20 de Maio de 2022

Quem entra na igreja do Mosteiro de Arouca depara-se, num dos seus altares laterais, a seguir ao altar da rainha Santa Mafalda, com a imagem de Santa Francisca Cabrini e interroga-se sobre quem seja tal santa e por que motivo aí se encontra, uma vez que nada tem a ver com a cultura de Arouca, ou com a história do seu Mosteiro e muito menos com a religiosidade ou a devoção dos arouquenses.

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Quem foi esta santa?

Francisca Cabrini nasceu no dia 15 de julho de 1850 na região da Lombardia, Itália, sendo a penúltima de entre quinze filhos. Seus pais eram camponeses pobres da região. Desde pequena Francisca gostava de ler a vida dos santos. Sua história preferida era a vida de São Francisco Xavier.

Ao ficar órfã de pai e mãe, quis retirar-se para um convento, mas o seu pedido foi rejeitado por causa da sua frágil saúde. Então, decidiu cuidar de um orfanato.

Tendo-se formado como professora fundou, com algumas companheiras, o Instituto das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, sob a proteção do missionário São Francisco Xavier. Mais tarde, a Congregação recebeu o apelido de “Irmãs Cabrinianas”

Em trinta anos de trabalho intenso, Santa Francisca Cabrini fundou sessenta e sete Casas em países como Itália, França, Américas do Norte e do Sul, inclusive no Brasil.

Faleceu na cidade de Chicago, Estados Unidos, no dia 22 de dezembro de 1917, tendo sido canonizada em 1946. Desde então, passou a ser invocada e festejada como padroeira dos Imigrantes.

Por que motivo chegou ao Mosteiro de Arouca a imagem desta santa?

Não tendo nada a ver com a história do nosso Mosteiro, nem com a devoção dos arouquenses a esta santa, a verdade é que a sua imagem continua, há mais de meio século, exposta no altar lateral do Senhor dos Aflitos, sem que a grande maioria dos arouquenses saiba porquê.

Ao que apurámos, tal imagem foi aí colocada devido a uma promessa de um casal arouquense, residente no Rio de Janeiro, Maria Helena dos Santos Ribeiro e José António Alves Ribeiro. O filho deste casal tendo sofrido um grave acidente, naquela cidade brasileira, terá sido salvo por intercessão desta santa. Durante vários anos da década de 50 do século passado este casal promoveu, na paróquia de Arouca, a festa a santa Francisca Cabrini que constava de missa cantada, sermão e procissão no fim da missa, após a qual era dada a beijar uma relíquia da santa que o casal oferecera à igreja, dentro de um lindo relicário em prata. Certamente que poucos  arouquenses se lembrarão ainda desses festejos. 

Numa das últimas festas realizada no ano de 1963 a imprensa local fez questão de referir que “esta festa é feita a expensas dos grandes devotos desta Santa, a srª D. Maria Helena dos Santos Ribeiro e o seu marido sr. António Alves Ribeiro, arouquenses ausentes no Brasil.”

Santa Francisca ou S.João Bosco?

Pelo que se conclui, a presença desta imagem num dos altares laterais da igreja do Mosteiro de Arouca e a festa que, durante alguns anos, aí foi realizada, terá a ver apenas com uma devoção particular e suportada pelo poder económico que era habitual ser ostentado por essa classe de emigrantes portugueses no Brasil, classe essa que chegou mesmo a ser caricaturizada pelo nosso escritor Camilo Castelo Branco em alguns dos seus romances.

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É óbvio que a devoção a Santa Francisca Cabrini não tem qualquer comparação possível, até porque é inexistente, com a de um outro santo, também ele nascido em Itália, 35 anos antes desta santa e que começou a ser conhecido nesta terra, a partir da chegada dos salesianos ao Mosteiro de Arouca em 1960. Referimo-nos, como é óbvio, a S.João Bosco, o fundador dos Salesianos. Mesmo após a sua saída, em 1982, esta devoção continua viva no coração de muitos arouquenses, nomeadamente daqueles que pertencem à Família Salesiana de Arouca e que é constituída por duas Associações: a Associação do Centro Juvenil Salesiano e a Associação dos Salesianos Cooperadores. Por isso, seria interessante e oportuno que, ao celebrar-se, em setembro próximo, o 40º aniversário da saída de Arouca da Obra de D.Bosco esse altar fosse destinado à veneração deste santo tão querido dos arouquenses e que o Papa S.João Paulo II proclamou como “Pai e Mestre da Juventude” em 1988, por ocasião do 1º centenário da morte de D.Bosco.

Aqui fica o desafio, aberto à discussão..

José Cerca

Publicado no jornal “Discurso Directo” nº565 de  12 de junho de 2022

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