Agora que o pó da agitação política parece ter amainado.
Agora que os enormes e excessivos cartazes começam a ser apeados dos seus pedestais, limpando o ambiente de uma exagerada poluição visual.
Agora que os intervenientes nesta disputa pelo poder autárquico estarão a fazer a análise da sua estratégia face aos resultados obtidos.
Agora que os vencedores estarão já a organizar as suas equipas para começarem a dar cumprimento aos programas anunciados.
Agora que terminou o tempo da luta partidária e se inicia o tempo do compromisso político, não só para os vencedores, mas também para a própria oposição.
Agora que parecem estar reunidas as condições para uma reflexão serena, será oportuno fazer-se um balanço deste último período eleitoral que conseguiu mobilizar activamente largas centenas de arouquenses, numa clara manifestação de uma saudável participação cívica.
Ciberespaço político
Se grande parte desta animação política teve o seu palco nas ruas, nos cartazes, nas caravanas, nos contactos pessoais, outra parte desenrolou-se na comunicação social, desde a rádio, à imprensa e sobretudo no ciberespaço, revelando-se em todos eles um grande sentido de participação cívica, ensombrada, nalguns casos, pelo anonimato e por alguns exageros no relacionamento virtual, esquecendo-se, por vezes, que do outro lado estão sempre pessoas.
É neste contexto que se pretende deixar aqui alguns apontamentos sobre cada uma das 5 candidaturas.
Neves Presente e Disponível (58,52%)
Com este slogan adoptado para a campanha do PS, Artur Neves acabou por ver confirmada a sua reeleição como Presidente da Câmara Municipal de Arouca, com uma surpreendente votação, a maior ganha até hoje pelo PS em Arouca.
Mas sejamos realistas. Tal resultado pouco terá a ver, quer com a organização, quer com a implantação do PS em Arouca, embora seja sob a bandeira desta força partidária que, desde há 16 anos, a Presidência da Câmara de Arouca tem sido dirigida, numa terra tradicionalmente considerada de tendência PSD.
E não nos parece que o caso “Campelo de Sousa” que tanto aproveitamento político mereceu, por parte de toda a oposição, tenha afectado o resultado da votação.
Esta expressiva vitória de Artur Neves vem provar, mais uma vez, que a maior parte dos arouquenses já não votam cegamente em símbolos partidários, mas sim em pessoas e projectos. E o extraordinário resultado obtido nestas últimas eleições autárquicas é a prova de que os arouquenses reconheceram o trabalho, a dedicação e a disponibilidade de Artur Neves e acreditaram no realismo do programa apresentado e na eficácia da sua renovada equipa para o concretizar.
Está na Hora (19,68%)
A campanha do PSD e quase toda a sua visibilidade se deveu, em grande parte, à dinâmica da JSD, onde alguns dos seus elementos revelaram potencialidades, quer de maturidade, quer de intervenção política, a não desprezar futuramente, não obstante outros precisarem ainda de fazer uma longa caminhada na aprendizagem do respeito, da democracia e da sensatez.
Sendo Arouca uma zona sociologicamente de tendência PSD, a verdade é que os resultados ficaram muito longe do esperado, quer para a Câmara,(2 mandatos) quer para a Assembleia Municipal (4 mandatos), onde foi, pela primeira vez, ultrapassado pelo CDS/PP.
No que se refere às Juntas de Freguesia foi aí que o PSD conseguiu resistir alguma coisa, muito embora tenha baixado, relativamente às últimas eleições.
É evidente que, mais uma vez, o fenómeno UPA, sendo uma clara cisão do PSD, veio afectar grandemente os resultados, muito embora, em termos aritméticos a soma dos votos da UPA com os votos do PSD não fossem sequer suficientes para a recuperação da Câmara, perdida há 16 anos.
E nem o recrutamento de “ex-jogadores” no campo adversário do PS para a equipa do PSD parece não ter obtido os esperados efeitos, quer na vitória de um, quer na derrota do outro. A haver efeitos com esta criticada angariação, eles até teriam sido eventualmente em sentido contrário ao esperado.
E a manter-se esta situação dentro da área sociológica do PSD, um pouco à imagem do que se verifica no PSD nacional, não se vislumbra, sequer, quando chegará a hora da reconquista.
Portas na Assembleia Municipal. E porque não? (9,65%)
Tal como era previsível, o “fenómeno Portas” em Arouca veio baralhar os resultados eleitorais, sobretudo para a Assembleia Municipal.
Apesar de não ter conseguido meter nenhum vereador na Câmara (pouco faltou) o CDS/PP duplicou os mandatos relativamente aos do PSD e empatou mesmo como os mandatos do PS (8) à Assembleia Municipal.
Esta proeza poderá mesmo vir a dar-lhe a Presidência da Assembleia Municipal, tal como seria desejo de algumas forças partidárias.
Pessoalmente, vejo nessa possibilidade uma mais valia para Arouca, atendendo à figura pública e mediática que viria a ocupar tal cargo.
O Movimento UPA (7,59%)
Gizado quase à medida das aspirações pessoais do seu cabeça de lista, a UPA acabou por sofrer uma pesada derrota que terá mesmo surpreendido os seus próprios ideólogos e estrategas que delinearam a sua campanha numa quase estratosfera política, irreal e bastante desgarrada da realidade arouquense.
Espera-se que o realismo dos resultados alcançados faça reflectir este movimento na aventura cisória no terreno do PSD em que se meteu.
A CDU (1,67%)
Rodeando-se de uma equipa substancialmente renovada e jovem, a CDU também não conseguiu atingir os seus objectivos, perdendo mesmo o único mandato que tinha na AM, o que nos parece constituir um empobrecimento para o debate parlamentar do nosso município. Parece-nos, no entanto que o seu cabeça de lista, apesar de estreante nesta posição e não sendo natural de Arouca, revelou uma postura muito digna e um bom conhecimento dos assuntos relacionados com o desenvolvimento do concelho de Arouca.
Talvez os inesperados votos que o BE alcançou nas legislativas lhe fossem suficientes, agora, para uma presença na Assembleia Municipal.
Mas a verdade é que uma vez mais se comprovou que a votação bloquista é extremamente flutuante e sem grande consistência, como acabou por acontecer não só em Arouca, como em todo o País.
José Cerca
{ 1 comentário }
E é com a sua autoridade de «ateu tranquilo» que Saramago chega ao ponto de criticar imbecilmente o Papa ao dizer «Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem»,