ESCOLHA CONFIRMADA, RESPONSABILIDADE ACRESCENTADA

por jcerca em 16 de Outubro de 2009

 Agora que o pó da  agitação política parece ter amainado.

Agora que os enormes e excessivos cartazes começam a ser apeados dos seus pedestais, limpando o ambiente de uma exagerada poluição visual.

Agora que os intervenientes nesta disputa pelo poder autárquico estarão a fazer a análise da sua estratégia face aos resultados obtidos.

Agora que os vencedores estarão já a organizar  as suas equipas para começarem a dar cumprimento aos programas anunciados.

Agora que terminou o tempo da luta partidária e se inicia o tempo do compromisso político, não só para os vencedores, mas também para a própria oposição.

Agora que parecem estar reunidas as condições para uma reflexão serena, será oportuno fazer-se um balanço deste último período eleitoral que conseguiu mobilizar activamente largas centenas de arouquenses, numa clara manifestação de uma saudável participação cívica.

Ciberespaço político

Se grande parte desta animação política teve o seu palco nas ruas, nos cartazes, nas caravanas, nos contactos pessoais, outra parte desenrolou-se na comunicação social, desde a rádio, à imprensa e sobretudo no ciberespaço, revelando-se em todos eles um grande sentido de participação cívica, ensombrada, nalguns casos, pelo anonimato e por alguns exageros no relacionamento virtual, esquecendo-se, por vezes, que do outro lado estão sempre pessoas.

É neste contexto que se pretende deixar aqui alguns apontamentos sobre cada uma das 5 candidaturas.

Neves Presente e Disponível (58,52%)

Com este slogan adoptado para a campanha do PS, Artur Neves acabou por ver confirmada a sua reeleição como Presidente da Câmara Municipal de Arouca, com uma surpreendente votação, a maior ganha até hoje pelo PS em Arouca.

Mas sejamos realistas. Tal resultado pouco terá a ver, quer com a organização, quer com a implantação do PS em Arouca, embora seja sob a bandeira desta  força partidária que, desde há 16 anos, a Presidência da Câmara de Arouca tem sido dirigida, numa terra tradicionalmente considerada de tendência PSD.

E não nos parece que o caso “Campelo de Sousa” que tanto aproveitamento político mereceu, por parte de toda a oposição, tenha afectado o resultado da votação.

Esta expressiva vitória de Artur Neves vem provar, mais uma vez, que a maior parte dos arouquenses já não votam cegamente em símbolos partidários, mas sim em pessoas e projectos. E o extraordinário resultado obtido nestas últimas eleições autárquicas é a prova de que os arouquenses reconheceram o trabalho, a dedicação e a disponibilidade de Artur Neves e acreditaram no realismo do programa apresentado e na eficácia da sua renovada equipa para o concretizar.

Está na Hora (19,68%)

A campanha do PSD e quase toda a sua visibilidade se deveu, em grande parte, à dinâmica da JSD, onde alguns dos seus elementos revelaram potencialidades, quer de maturidade, quer de intervenção política, a não desprezar futuramente, não obstante outros precisarem ainda de fazer uma longa caminhada na aprendizagem do respeito, da democracia e da sensatez.

Sendo Arouca uma zona sociologicamente de tendência PSD, a verdade é que os resultados ficaram muito longe do esperado, quer para a Câmara,(2 mandatos) quer para a Assembleia Municipal (4 mandatos), onde foi, pela primeira vez, ultrapassado pelo CDS/PP.

No que se refere às Juntas de Freguesia foi aí que o PSD conseguiu resistir alguma coisa, muito embora tenha baixado, relativamente às últimas eleições.

É evidente que, mais uma vez, o fenómeno UPA, sendo uma clara cisão do PSD, veio afectar grandemente os resultados, muito embora, em termos aritméticos a soma dos votos da UPA com os votos do PSD não fossem sequer suficientes para a recuperação da Câmara, perdida há 16 anos.

E nem o recrutamento de “ex-jogadores” no campo adversário do PS para a equipa do PSD parece não ter obtido os esperados efeitos, quer na vitória de um, quer na derrota do outro. A haver efeitos com esta criticada angariação, eles até teriam sido eventualmente em sentido contrário ao esperado.

E a manter-se esta situação dentro da área sociológica do PSD, um pouco à imagem do que se verifica no PSD nacional, não se vislumbra, sequer, quando chegará a hora da reconquista.

Portas na Assembleia Municipal. E porque não? (9,65%)

Tal como era previsível, o “fenómeno Portas” em Arouca veio baralhar os resultados eleitorais, sobretudo para a Assembleia Municipal.

Apesar de não ter conseguido meter nenhum vereador na Câmara (pouco faltou) o CDS/PP duplicou os mandatos relativamente aos do PSD e empatou mesmo como os mandatos do PS (8) à Assembleia Municipal.

Esta proeza poderá mesmo vir a dar-lhe a Presidência da Assembleia Municipal, tal como seria desejo de algumas forças partidárias.

Pessoalmente, vejo nessa possibilidade uma mais valia para Arouca, atendendo à figura pública e mediática que viria a ocupar tal cargo.

O Movimento UPA (7,59%)

Gizado quase à medida das aspirações pessoais do seu cabeça de lista, a UPA acabou por sofrer uma pesada derrota que terá mesmo surpreendido os seus próprios ideólogos e estrategas que delinearam a sua campanha numa quase estratosfera política, irreal e bastante desgarrada da realidade arouquense.

Espera-se que o realismo dos resultados alcançados faça reflectir este movimento na aventura cisória no terreno do  PSD em que se meteu.

 A CDU (1,67%)

Rodeando-se de uma equipa substancialmente renovada e jovem, a CDU também não conseguiu atingir os seus objectivos, perdendo mesmo o único mandato que tinha na AM, o que nos parece constituir um empobrecimento para o debate parlamentar do nosso município. Parece-nos, no entanto que o seu cabeça de lista, apesar de estreante nesta posição e não sendo natural de Arouca, revelou uma postura muito digna e um bom conhecimento dos assuntos relacionados com o desenvolvimento do concelho de Arouca.

Talvez os inesperados votos que o BE alcançou nas legislativas lhe fossem suficientes, agora, para uma presença na Assembleia Municipal.

Mas a verdade é que uma vez mais se comprovou que a votação bloquista é extremamente flutuante e sem grande consistência, como acabou por acontecer não só em Arouca, como em todo o País.

 

José Cerca

{ 1 comentário }

Saramago e Maitê Proença

por jcerca em 15 de Outubro de 2009

Um dueto afinado em disparates desafinados

Com um vídeo exibido pelo canal GNT no Brasil, em Março de 2007, Maitê Proença,  bem conhecida dos Portugueses pela sua participação em diversas  telenovelas, conseguiu, dois anos depois, criar uma gigantesca onda de revolta, repúdio e contestação em Portugal, devido a um conjunto de disparates, supostamente humorísticos, sobre os Portugueses, mas que, não tendo graça nenhuma, acabaram mesmo por  desencadear uma  avalanche de críticas contra a actriz brasileira.

MAITE_PROENCAApesar do  pedido de desculpas da direcção do canal televisivo GNT, pela exibição do vídeo no programa “Saia Justa” a onda de indignação parece mesmo ter aumentado depois disso.

São milhares os protestos e os comentários virulentos contra a artista que todos os dias surgem no ciberespaço, desde as redes sociais, como o Twitter e o FaceBook, até ao vasto mundo da Blogosfera.

Petições na internet a pedirem que Maitê Proença peça desculpas aos portugueses, que seja impedida de entrar em Portugal, ou que seja considerada “personna non grata”.

T-shirts à venda para manifestar publicamente a indignação contra o polémico vídeo da artista brasileira. Enfim, uma gigantesca bola de neve, que não se sabe ainda onde irá parar.

“O Caderno” da cegueira iconoclasta de Saramago

Por sua vez, o Português José Saramago,  ao deslocar-se esta semana  à capital italiana para apresentar o seu livro “O Caderno”, em que estão compilados textos por ele escritos entre Setembro de 2008 e Março deste ano no seu blog, cometeu a infelicidade e ousadia, não só  de acusar o Papa Bento XVI de «cinismo” como apelou também à necessidade que há de responder com a «insolência da inteligência viva» à «insolência reaccionária» da Igreja.

Mas não se ficou por aqui este iluminado  Prémio Nobel da Literatura que não pára de criticar e de se imiscuir em assuntos que o não deviam preocupar, uma vez que se confessa de «ateu tranquilo».

saramago1E é com a sua autoridade de «ateu tranquilo» que Saramago chega ao ponto de criticar  imbecilmente o Papa ao dizer «Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem»,

E armando-se em arauto e defensor  da verdade, qual fundamentalista a apelar à guerra santa, Saramago apela também aos seus correligionários: “Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder».

Segundo Saramago, interessa pouco à Igreja o destino das almas e o que sempre procurou é o controlo dos seus corpos.

Mas não contente com as críticas ao Papa e à Igreja, Saramago não se coibiu também de criticar o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi a quem apelidou de ser ele próprio a “doença do país».

A exegese bíblica segundo Saramago

Não satisfeito com os iluminados disparates em Itália, Saramago, dias depois, em Portugal, mais propriamente em Penafiel, por ocasião do lançamento de  mais uma obra sua, ele que se confessa ateu, não se coíbe também de proferir um conjunto de disparates sobre a Bíblia que qualifica de  “um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Esta e muitas outras afirmações  que nos recusamos aqui transcrever, revelam não só a sua iconoclastia religiosa a que já nos habituou, mas sobretudo a sua completa ignorância sobre a interpretação bíblica, perfeitamente comparável à de uma criança que lê, pela primeira vez, a Bíblia, como se de um mero romance se tratasse.

Uma vez mais me vou convencendo que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, sempre passível de crítica como muitas outras coisas, terá definitivamente adulterado a sensatez e a lucidez intelectual de Saramago.

Ou será mesmo, mesmo da idade?

Se alguém atribuiu os disparates de Maité Proença proferidos contra os portugueses à inspiração do Vinho do Porto que a actriz terá esvaziado, enquanto deambulou por Portugal, as iluminadas diatribes de Saramago contra o Papa e a Igreja só poderão ter como causa a doença da cegueira do espírito que lhe terá roubado a lucidez intelectual.

Já não gostava de Saramago sob o ponto de vista literário. Agora com os disparates que proferiu recentemente  passo mesmo a detestá-lo.

Só estranho e tenho pena que contra ele não tenha surgido a mesma onda de indignação que surgiu com a actriz brasileira.

José Cerca

{ 10 comentários }

Votam leve, levemente…..

por jcerca em 11 de Outubro de 2009

Inspirando-me na “Balada da neve” de Augusto Gil, fui escrevendo no Twitter, a título de brincadeira, e enquanto ia decorrendo a votação, estas quadras.
Aviso já que são feitas a martelo, mas enquadram-se num salutar despique político, sempre habitual em épocas eleitorais.
Que me desculpem os adversários políticos, mas amigos na vida real, estas quadras que não pretenderam ofender ninguém, mas apenas descomprimir alguma tensão eleitoral.

Votam leve, levemente
Como quem não quer a coisa.
Será Neves, será Miller?
Miller não será certamente
Que o Neves é outra loiça!

Votam leve, levemente,
Como quem diz um segredo.
Será Vítor, será Neves?
Neves será seguramente
Que do Vítor todos têm medo!

Votam alegre, alegremente
Como quem canta uma canção
Será Costa Gomes, será Neves?
Neves, sim, evidentemente
Que o Portas é uma ilusão!

Votam discreta, discretamente
E com uma infinita leveza
Será Neves, será Francisco?
Neves, sim, com certeza
Mas o Chico é bom petisco!

 José Artur Neves

Depois das eleições

Votaram livre, livremente,

Votaram novos, velhos, toda a gente:

Queremos Neves para Presidente

Confirmaram todos, alegremente.

E livre, livremente,

Novo mandato, clarividente

A Neves deram para Presidente.

Triunfou a Democracia, verdadeiramente

Contra o derrotismo da política maldizente.

Parabéns, Neves Presidente

Arouca contigo ficou contente

De te ver novamente

À frente de tão boa gente.

José Cerca

{ 1 comentário }

A imensa alegria de servir

por jcerca em 10 de Outubro de 2009

A iniciar o dia de eleições autárquicas e quando ainda não se iniciou a votação para a escolha daqueles cidadãos que se candidatam a servir a “res publica” e o interesse comunitário, deixo aqui este belíssimo poema de uma poetisa chilena, Gabriela Mistral. Que ele sirva de reflexão a todos aqueles cidadãos que se candidatam ao serviço da comunidade.

José Cerca

Toda natureza é um desejo de serviço.
Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco.
Onde houver uma arvore para plantar,
planta-a tu;
onde houver um erro para corrigir,
corrige-o tu;
onde houver uma tarefa que todos recusem,
aceita-a tu.

Sê quem tira
a pedra do caminho,
o ódio dos corações
e as dificuldades dos problemas.

Há a alegria de ser sincero e de ser justo;
há, porém, mais que isso,
a imensa alegria de servir.

Como seria triste o mundo
se tudo já estivesse feito,
se não houvesse uma roseira para plantar,
uma iniciativa para lutar!

Não te seduzam as obras as obras fáceis.
É belo fazer tudo
que os outros se recusam a executar.

Não cometas, porém, o erro
de pensar que só tem merecimento executar
as grandes obras;
há pequenos préstimos que são bons serviços:
enfeitar uma mesa.
arrumar uns livros.
pentear uma criança.
Aquele é quem critica,
este é quem destrói,
sê tu quem serve.

O servir não é próprio dos seres inferiores:
Deus, que nos dá fruto e luz,
serve.
Poderia chamar-se: o Servidor.
e tem seus olhos fixos em nossas mãos
e nos pergunta todos os dias:
- Serviste hoje?

Gabriela Mistral,
( poetisa chilena -1889-1957)

{ 0 comentários }

Eleições e insultos pessoais

por jcerca em 6 de Outubro de 2009

Acabei de ler no comunicado de um dos partidos da cena política portuguesa a denúncia de que um candidato de um outro partido adversário às eleições autárquicas de uma determinada Câmara deste País teria proferido mais de 100 insultos pessoais a um candidato adversário. E seguia-se, nesse comunicado, devidamente assinado e com o símbolo do respectivo partido, uma longa e nada edificante lista de adjectivos que, por razões óbvias, nos dispensamos de aqui publicar.

E pensava eu que, em períodos eleitorais, no nosso País, eram as tipografias que mais lucravam com as campanhas dos diversos partidos, mas estava bem enganado!… Tenho mesmo que actualizar esta minha ingénua suposição, pois pelo que vou lendo na comunicação social, quer em suporte papel, quer em digital, parece que serão os tribunais que mais vão lucrar com esta campanha eleitoral, dado o elevado número de processos judiciais remetidos às “Casas da Justiça”, fruto desta agressividade verbal, caluniosa e insultuosa a que a campanha se está a resumir, perante a indignação daqueles que são chamados a votar quer para o nosso Parlamento, quer para as Autarquias locais.

Será através do insulto, da mentira e da calúnia que se enfrentam os problemas do País?

Será com atitudes destas que todos os dias nos entram pelas televisões a dentro que os políticos querem combater a abstenção nas eleições?

E será esta a genuína democracia que o 25 de Abril trouxe a Portugal?

José Cerca

{ 3 comentários }